sexta-feira, 5 de maio de 2017

COMO A ALMA


Cai a chuva de alma leve
nas ribeiras de alma fria.
Cala a ave o canto breve
cala a flor e o fim do dia.

Tanto faz a chuva esteja
só na aragem do jardim.
Essa brisa que me beija
fica bem dentro de mim.

Cai a noite e seu trajeto
vira alfombra enluarada
como a mágica do afeto
nos olhos da namorada.

Cai a aurora e vai a lua
no meu sonho rotineiro
de ficar minh’alma nua
no calor do travesseiro.

Cai a chuva e cai a vida
onde cai tanta saudade.
E minh’alma anoitecida
é uma eterna claridade!

Afonso Estebanez

quinta-feira, 4 de maio de 2017

“EMPODERAMENTO”


No princípio era o verbo
verbo com carga de ação
eis depois veio a mulher
com seu dom de ligação.

No princípio era o verbo
empreendendo a ligação
entre o verbo e a mulher
e entre o amor e a razão.

No princípio foi marcado
um encontro com a vida,
mas foi o verbo atrasado
e a mulher foi esquecida.

O que passou não é mais
o amanhã nem pode ser,
agora o empoderamento
recria o verbo e o poder.

Mulher é ser o que quer.
Estar onde sempre  quis.
É ficar com quem quiser
andar onde é mais feliz.

No princípio era o verbo
e o verbo fez-se mulher,
e desse jeito eu enxergo
até onde o eu ver quiser.

Afonso Estebanez
(Homenagem ao grupo do
“Projeto Empodera”
de Niterói, com meu carinho)

quarta-feira, 3 de maio de 2017

SONETO COM SHAKESPEARE

Nada obstante um anônimo andarilho,
sou um poeta que pertence ao mundo;
pois nem dos astros eu espero o brilho
que não o brilho de meu ser profundo.

Eu vejo que nem mesmo o maltrapilho
vista um sonho de amor tão infecundo
que lhe inspire um amor de afogadilho
a não sonhar com novo amor fecundo.

Amor é o que aquece os velhos ninhos
em que habitam os novos passarinhos
entre as flores dos vales de alfazemas.

O amor tem que ser livre como o gamo
que se move se a brisa diz: “eu te amo”
 ao amor que se entrega sem algemas!

Afonso Estebanez
(Dedico este soneto à notável poetisa
Benedita Silva de Azevedo
mestra na arte japonesa de compor haikais,
tidos como os menores poemas canônicos do mundo.
03.05.2017)

segunda-feira, 1 de maio de 2017

MEU LOBO


Meu lobo é essa ausência conspirada
na alcova de minha alma aprisionada
nos escombros de um vasto anoitecer.

O pasmo é que esta noite a liberdade
fez-me gritar mais alto que a saudade
da qual você nem mesmo quis saber.

Eu só sei que meu grito foi de espanto
desta saudade acuada em cada canto
de não sei onde ou como nem porque.

Só sei que foi um grito e tão profundo
que se ouvia no mais além do mundo
meu lobo uivar da ausência de você...

Afonso Estebanez
(Dedicado à talentosa poetisa
e amiga Glorinha Gaivota)
O RESTO É TUDO


Só posso calcular quanto eu perdi
se o futuro disser quanto me resta
com saudade dos anos que eu vivi
esperando morrer na minha festa.

Não sei de quanta ausência padeci
nem de supor o quanto me detesta
o andamento aplicado que esqueci
no bailado da valsa sem orquestra.

Vejo às vezes que todos esses anos
passaram de viver dos desenganos
e dessa dor que foi o meu verdugo.

Mas eu creio que a vida malograda
fez do tempo perdido não ser nada
se o que me resta para mim é tudo!

Afonso Estebanez
(Poema dedicado ao coração de
Maria da Guia – Mary Lovely
onde guardo segredos da razão)

sábado, 29 de abril de 2017

POEMA RUDE


Mula não é mais líder nacional
deu golpe na vergonha do país
sagrou a si um príncipe do mal
pelas foices dos súditos servis.

Condolente do próprio funeral
num cortejo de gênios imbecis,
pereceu o apedeuta na imortal
melancolia à sombra dos covis.

A massa não seguiu sua canção
o plágio de um pretérito refrão
usado então à conta da tortura.

Infensa à ideologia sanguinária
a nossa geração que é libertária
refuga a dor de outra ditadura!

Afonso Estebanez
(Foto: espacojames.com.br)

quinta-feira, 27 de abril de 2017

BRECHÓ DA ALMA


Sapato velho é um caminho andado
relembrado na sola de uma história
portanto não convém seja ignorado
como um fado perdido na memória.

Não joguem fora um livro desusado 
sem lembrar se contém dedicatória
a alguém que faça parte do passado
que se apegou à uma paz simplória.

Meu coração tem eu e meus porões,
meu armário está cheio de emoções
por cartas devolvidas sobre a mesa.

Hei dobrado meus trapos na gaveta
vejo os dias sumindo na ampulheta
e com eles meus fardos de tristeza!

Afonso Estebanez
(27.04.2017)

quarta-feira, 26 de abril de 2017

“PARAMOUR”

O amor não é um instinto
é um dom e é sentimento
amarga como um absinto
mas se cura do tormento.

Se o amor que tanto sinto
faz chorar sem cabimento
é amor ao qual não minto
se sofrer sem sofrimento.

Em algum lugar profundo
da alma esconsa no fundo 
o experto retrai-se mudo.

Mesmo na mente versada
há douto que não vê nada
e o tolo que enxerga tudo.

Afonso Estebanez
(26.04.2017)
FLORES DE MIM... 

(Fernanda Benevides)

De tanto amar a minha Flor,
Vivo o encanto das aves retirantes...
Em sonhos me parece dor
O voluptuoso olhar dos amantes...

Minha Flor navega comigo
Ao sabor das ondas.
Dos breves instantes
Das marés...

Sou barco a vagar
Na imensidão do mar...

O Artífice me fez renascer do Apocalipse
Colhendo arco-íris pelas terras sem fim,
Onde medram amores-perfeitos
E jasmins.

Oh, Flores de mim!

(Ao ilustre Poeta, Afonso Estebanez Stael,
com carinho, admiração e amizade.
Fortaleza, 26/04/2017)

segunda-feira, 24 de abril de 2017

NADA VAI ME SURPREENDER


Nada vai surpreender, chegando a hora
de morrer e esquecer a própria história
mesmo que haja estultícia de ir embora
portando algo em segredo na memória.

Quando morrer eu visto a luz da aurora
em corpo astral empreendo a trajetória
que me leve à morada como foi outrora
onde o amor se restaura sem vanglória.

Quero o meu “eu” me vendo face a face,
como paciente no espelho sem disfarce
sentindo o amor de alguma flor infinda.

Pois levarei meus poemas de aprendiz,
de seus dons de esperança, o mais feliz
se a rosa é surpreendentemente linda!

Afonso Estebanez
(Poema dedicado a minha sensível amiga poetisa
Fernanda Ponte Benevides
a quem retribuo pelo conhecimento da arte
Poética que divide comigo como expressão de
carinho e admiração

domingo, 23 de abril de 2017

VELHOS CARNAVAIS


Quando revejo as tuas fantasias
com as minhas exóticas no leito,
eu viro o sentidor das nostalgias
do enredo ritmado no meu peito.

A morte deveu prazo às alegrias
para viver o nosso amor perfeito
ficando nas lembranças fugidias
o teu amor no carnaval desfeito.

Se for para viver um pouco mais
do que vivi nos velhos carnavais
eu vou morrer para jamais voltar.

E vou morrer se tanto for preciso
sabendo que tu estás no paraíso
à espera de eu morrer para ficar.

Afonso Estebanez
(23.04.2017)
EU VI
o amor
e como
o pomo
é a flor.

se o for
eu amo
já tomo
tua dor.

vi lírios
jacintos
jasmim.

delírios,
absintos
em mim.

Afonso Estebanez