domingo, 18 de junho de 2017

DESCAMINHOS


Eu sabia que há cem caminhos nesta vida
que entre todos só um chega à felicidade.
E eu escolhi só um, mas n‘alma apetecida
há dos noventa e nove inúmera saudade.

Saudade das paixões de minha mocidade
de uma canção secreta que ficou perdida
dos cândidos amores ledos sem maldade
saudade de uma aflita escolha preterida.

Já sabia também haver dos descaminhos
triste saudade empática dos passarinhos
que o ninho deixam sob cânticos de paz.

Por saudade eu sabia até do que não sei,
como uma valsa triste que jamais dancei
mas dançaria se vivesse um pouco mais.

Afonso Estebanez
(Baseado in “Encontro Marcado”
de Fernando Sabino -18.06.2017 - 20:30)

quinta-feira, 15 de junho de 2017


PROPOSTA SEM RESPOSTA

Na mão do lado esquerdo que te abraça
meu coração se apressa em vã proposta
mas o teu ponto cego em vão me enlaça 
e me apraz de esperanças sem resposta.

E eu só propunha ao teu amor por graça
servir o afeto que em meu peito encosta
tal qual saudade enferma que não passa
até que eu volte em prantos à tua porta.

Mas tanta ausência ao fim mais desatina
minha aparência inquieta que me inclina
a me embrenhar em teu prazer sem véu.

Pois se ao mundo não nos for dado amar 
vibraremos do amor que há além do mar 
ou no oceano de estrelas que há no céu!

Afonso Estebanez
(15.06.2017)

quinta-feira, 8 de junho de 2017

PRISIONEIRO


Prisioneiro é um servo que carrega
toda culpa do mundo inconfessada
ser hercúleo bravio que se enverga
à quem se curva à incúria relevada.

É o que mora no mar e não navega
é quem se apraz da alma decorada
quem se olha para si e não enxerga
e se mira no espelho e não vê nada.

Prisioneiro é quem jaz de si perdido
é quem tem uma causa sem sentido
quem ultraja onde todos são felizes.

É quem vive algemado sem algemas
num calvário de lágrimas sem penas
das torturas de amor sem cicatrizes.

Afonso Estebanez

terça-feira, 6 de junho de 2017

MARIAH


Ah, se me fosse dado porventura
voltar como renasce a primavera
gerando um anjo feito de ternura
que se dizia sem dizer quem era.

Meu coração antigo inda me cura
da ânsia desta lida que te espera
onde me cuidarás com tal doçura
o quanto tua luz for outra esfera.

Pude saber pelo anjo que chegou
sob a luz tênue que o luar deixou
que seria refém destes instantes.

Vejo hoje que nasceste para mim
como a última flor do meu jardim
que refloriu porque viestes antes!

Afonso Estebanez
(Poema especial que dedico a minha
amada neta que há muito tenho esperado
Mariah Pinho Estebanez Stael
por quem Deus tem me comovido
com Seu inefável amor – 18.10.2016)

domingo, 4 de junho de 2017


MARIAH

Ah, se me fosse dado porventura
voltar como renasce a primavera
gerando um anjo feito de ternura
que se dizia sem dizer quem era.

Meu coração antigo inda me cura
da ânsia desta lida que te espera
onde me cuidarás com tal doçura
o quanto tua luz for outra esfera.

Pude saber pelo anjo que chegou
sob a luz tênue que o luar deixou
que seria refém destes instantes.

Vejo hoje que nasceste para mim
como a última flor do meu jardim
que refloriu porque viestes antes!

Afonso Estebanez
(Musa recomendada ao meu sensitivo
coração em *18.10.2016*)

ALMA DE PLEBEU


Já ébrio eu regressei de muita festa
sob os clarões de luas embriagadas
com a alma oprimida em manifesta
sensação de venturas naufragadas.

Meu espírito a mim nunca contesta
por me sentar às mesas reservadas
pelas moscas azuis de alma funesta
da qual eu já levei muitas porradas.

Rasputin, cá estou com inclemência
 resistente aos bafejos da opulência
assistindo o crepúsculo dos nobres.

Nobres!... meros agentes funerários
que douram seus jazigos milionários
exumando os cadáveres dos pobres.

Afonso Estebanez
(Versão reparada)

sábado, 3 de junho de 2017

ALMA DE PLEBEU

Já cheguei bêbado de muita festa
numa dança de luas embriagadas
com a alma cegada em manifesta
sensação de venturas canceladas.

Meu espírito às vezes se contesta
por eu sentar às mesas ocupadas
pela realeza azul de alma funesta
de onde já levei muitas porradas.

Rasputin, cá estou trás da cortina
alma sóbria ao bafejo da propina
extinta no crepúsculo dos nobres.

Nobres! esses agentes funerários
que eternizam jazigos milionários
exumando cadáveres dos pobres.

Afonso Estebanez

terça-feira, 30 de maio de 2017

A IDADE DA SAUDADE


A saudade se encosta na memória
e se elege guardiã de sentimentos
entre eles uma súmula da história
relativa a meus líricos momentos.

Saudade de jamais ter visto glória
por amar sem doer padecimentos
saudade de vencer sem ter vitória
qual a alegre cigarra nos relentos.

Saudade das saudades de te amar
à sombra do vinhedo e no pomar,
saudade do que quis e que não fiz.

Saudade que se mata sem morrer
saudades com saudades de te ver
mais saudoso e capaz de ser feliz.

Afonso Estebanez

domingo, 28 de maio de 2017

A DAMA DA ROSA ESCARLATE


Ela me disse: “... eu trago a tua cura
para as chagas do mal inconsciente
que não julgas ser fel e nem doçura
seja refém de algum amor doente”.

Tão evidente me era em formosura
numa dança ritmada sensualmente
que a entidade a transmitir ternura
ensejou-me provar o amor ardente:

“Podes beijar-me!”- disse. “A cigana
é chama de paixão sem ser profana
como a alma embriagada de pudor.

Cunha a rosa escarlate num poema
que o perfume dissipa o teu dilema
se tua causa for um grande amor!”.

Afonso Estebanez

sábado, 27 de maio de 2017

AO CREPÚSCULO 


Amada, esse crepúsculo da vida
é a nossa noite sepultando o dia
que envia à melancólica partida  
mais tristeza do que melancolia.

Vivemos numa aurora desistida
entre os astros sem aura luzidia
em nostálgica sensação provida  
mais de delírio que de nostalgia.

Nós perdemos a bússola celeste
a carta náutica de nossos mares
o júbilo de quem está chegando.

Amor, quiçá do luto se nos reste
a saudade dos cios nos pomares   
e a lida de vivermos navegando.

Afonso Estebanez

quarta-feira, 24 de maio de 2017

QUANDO VIER A PRIMAVERA

Quando o verão no cálido poente
parecer-te o pintor da primavera
não te esqueças amor, é evidente
que exaurimos a última quimera.

Se o outono vier-te resplendente
qual o éden florido que te espera
não te iludas amor, é imprudente
colher fruto que o viço degenera.

Não podes enflorar o teu inverno
feito miragens em deserto eterno
de oásis secos entre os espinhais.

Ah, meu amor! a aura já sombria,
confessa a flor, como na profecia,
que a primavera não existe mais!


Afonso Estebanez
(24.05.2017)

domingo, 21 de maio de 2017

MINHA TERNURINHA


Minha pretinha é ternura
com pedacinhos de gente
que vem de raça tão pura
que me fala com a mente.

Com seu carinho me cura
do mal-estar permanente
e ela sempre me procura
com pena pelo que sente.

Quando ela fica tristonha
procura na minha fronha
um jeitinho de me olhar...

Assim quando ela se cala,
sei de tudo o que me fala
sem que tenha que falar.

Afonso Estebanez Stael
(Kênia - Raça: Pinscher - 4 aninhos)

quinta-feira, 18 de maio de 2017

SALÁRIO MÍNIMO



pão duro de forma
forjado no forno
abafado da fórmula

dízima periódica
da justiça fundiária
trafegando em carro-forte
à prova de bala

clarão interrompido
que a conquista do ridículo
contagia

eco da senha do grito de greve
batido
no muro de um beco sem saída

palavra de passe da angústia solidária
das máquinas perfiladas sobre a mesa
de jantar dos balanços de vísceras
e perdas e danos e lucros e cifras

recessão da liberdade
que perdeu o barco
da travessia humana...

Afonso Estebanez
(Em memória do poeta Cesar de Araujo
um companheiro/solidário/inesquecível)

terça-feira, 16 de maio de 2017

“ERA UMA VEZ...” TINHA RAZÃO


Não sei se posso acreditar na história
conforme os cânones da atual cultura
viciada em que varramos da memória
presságios das quimeras sem tortura.

Era uma vez numa explosão de glória
o imperador mãos limpas e alma pura
curvou o império à herança transitória
de ser seu próprio herói sem ditadura.

Era uma vez uma nação sem “ismos”,
uma nação sem truque ou casuísmos
até que um dia ‘Era uma vez’ não era.

Trocando a farda é a mesma ditadura
pois que sabemos quando é aventura
que não pode sonhar sem primavera!

Afonso Estebanez
(16.05.2017)

segunda-feira, 15 de maio de 2017

CAIXINHA DE MÚSICA

Descobri no porão da casa antiga
u’a caixinha de música antiquada
que consertei saudoso da cantiga
que deixava vovó tão encantada.

Minha mãe me beijou agradecida
eis sorrindo citou-me relembrada
que a caixinha de música perdida
era a do berço em noite fatigada.

Era dia das mães do que contava
fingindo ser feliz quando chorava
e a caixinha lembrava da viuvez.

Era a primeira vez na minha vida
que eu via com a alma deprimida
mamãe chorar pela primeira vez.


Afonso Estebanez
(dedicado à minha mãe insubstituível
Francisca Estebanez Satel
‘in memoriam’ – 14.05.2017)

domingo, 14 de maio de 2017

TEOREMA DO SONETO


Soneto é como um místico teorema
de afirmação que pode ser provada
a arquitetura adversa a um sistema
prescrito à renascença despertada.

Nos oito versos dou abrigo ao tema
que vou expondo em lírica jornada,
tijolo com tijolo, eis que um poema
vibra ao som da palavra rejuntada.

Nenhuma obra emerge de palavras
usadas numa condição de escravas 
das quais retira o senso de função.

Por isso é que o engenho do soneto 
conta com um obreiro no meu peito
honrando meus projetos de paixão.

 Afonso Estebanez
(13.05.2017)
O PERFIL DA ROSA – MINICRÔNICA POÉTICA


Uma rosa me respondeu: “... Eu sou a rosa entre as rosas dos abismos do coração. A pastora das rosas em sua trajetória de vida. Não sou uma lenda nem uma ninfa nem uma fada nem um mito nem um mero símbolo da cultura humana. Eu existo há milênios como espírito criador consagrado à perfeição artística, espiritual, científica e filosófica. Não tenho princípio nem fim em mim mesma. Sou passageira do tempo infinito, feita da pura matéria prima da inocência. Ferida pelos espinhos, pairo sobre a morte e meu sangue dá policromia às rosas que me são consagradas. Tenho o poder de conduzir paixões humanas, desvendar segredos de amor e anunciar a chegada das primaveras. Nas páginas inconsúteis de minhas pétalas os poetas escrevem para sempre suas histórias de amor intangível. Deus me deu a beleza dos místicos jardins florescidos entre o céu e a terra, a quintessência da luz do sol e o mel dos frutos perfumados de minhas entranhas. Portanto, eu existo. Existo, meu poeta! porque sou a tua resposta sem pergunta!".
Afonso Estebanez

sábado, 13 de maio de 2017

OS RIOS CORRIAM CALMOS


Além de sete colinas
setenta léguas além
ainda há risos na casa
e lá não mora ninguém...

Ouviam-se pés macios
deslizando no assoalho
leves folhas se roçando
cristalizadas de orvalho.

Minha mãe punha o café
com odor de flor selvagem
– seiva da lenha no fogo –
no cheiro doce da aragem.

Meu pai montava a cavalo
cintava o relho e partia
galopando pelos campos
como quem raiava o dia.

Parecia que seu canto
ditava o rumo do vento
e que as curvas do caminho
seguiam seu pensamento.

Era um domador de nuvens
nos umbrais das atalaias
um barqueiro de colinas
em verdes mares sem praias.

E os rios passavam lentos
em minhas tardes amenas
levando meus dias calmos
em suas águas serenas...

Afonso Estebanez
(Poema dedicado a meu pai Manoel Stael) 

sexta-feira, 12 de maio de 2017

SE A MENTE É CEGA...


Utópico enxergar se a mente é cega
ao que a alma não pode interpretar
face a face no espelho, não enxerga
quem pena sob a máscara do olhar.

O amor é dom que não se desapega
do lúmen que o habilita a enxergar
e evidente é que o amor se entrega
como os astros nos braços do luar.

À mente cega os olhos são cortinas
cerradas às mensagens das retinas
insensíveis às mágoas da cegueira.

À mente cega os olhos são algemas
impróprias à alvorada dos poemas
esvaídos do olhar da companheira.

Afonso Estebanez
(12.05.2017)

quarta-feira, 10 de maio de 2017

MÃE... SIMPLESMENTE MÃE


Mãe de muitos, mãe de poucos.
Não preciso lembrar os nomes.
O meu primeiro príncipe,
Um menino abandonado numa pediatria
Internado há oito meses, não recebia visitas...
Agarrava-se em meu jaleco
Chamando-me de “MÃE” ...
Não, não sou sua mãe
Apenas cuido de você meu pequeno príncipe.
E o menino raquítico, com osteoporose exposta,
Dizia-me: “você, você é minha MÃE”,
É você quem me dá comida e carinho...
Ah, as lágrimas banhavam minha face...
Ah, como eu queria um pequeno príncipe
Mas ainda não era a hora, esperei, esperei,
Senti dores de parto, contrações, tremores...
Eu queria mesmo ser mãe
Mãe dos simples e dos pobres
Mãe dos que nada têm e dos que tudo têm
Mãe do silêncio
Mãe dos doentes e dos sãos
Mãe de quem nada fez
Mãe que sorri
Mãe que pressente
Mãe sem ter gerado, Mãe de coração
MÂE, simplesmente Mãe...

Mary Lovely

terça-feira, 9 de maio de 2017

TOQUE DO SILÊNCIO
(Por um policial morto em missão)


“Herói de guerra e paz sem armistício”
a inscrição que ao probo induz chorar
pela função de honrar o compromisso
ainda que morra ou tenha que matar.

Opõe-lhe o próprio estado um artifício
que a hierarquia impõe-lhe concordar
cumprir missões de extremo sacrifício
sem que arrogue antever se vai voltar.

Ninguém suporta mais ter o heroísmo
de um agente sangrado no eufemismo
do hipócrita sistema inda em vigência.

Eis se no toque do silêncio há encanto,
é de uma glória de morrer sem pranto
por não privar ninguém da inocência!

Afonso Estebanez
(09.05.2017)

domingo, 7 de maio de 2017

AUSÊNCIA DE AMOR PRESENTE


É prudente que estejas só dormindo
pois n’alma suavemente despertada
é que verás meu coração bem-vindo
pulsar no peito astral de sua amada.

Tu pensarás que foi um sonho lindo
ou nem vais crer que fostes visitada
febril o corpo e o teu olhar sorrindo
para minh’alma em ti transfigurada.

Prudente que me estejas esperando
quando o hálito da brisa te beijando
soprar que além da vida é teu lugar.

É onde nunca mais vais ter saudade
que a luz do amor provê imunidade
até que eu morra para te encontrar.

Afonso Estebanez
(Inspirado em texto da amável
escritora e amiga especial
Analuz Carvalho
07.05.2017)

sábado, 6 de maio de 2017

PAI NOSSO...
Pai nosso que estás no céu
que santo seja o teu nome
do avarento espalha o véu 
e sacia aos que têm fome!

Que se exerça tua vontade
sobre o engenho da cobiça 
compraz com tua verdade 
quem tem sede de justiça!

O pão nosso sobre a mesa
põe-nos, Deus!, a cada dia 
volta aos fartos a pobreza
e aos torpes mais vilania!

Absolve as nossas ofensas
das quais desfaz o ofensor
e a nós lega essas imensas
torrentes de graça e amor,

porque de ti é toda intensa
honra e a glória e o louvor!

Afonso Estebanez
(06.05.2017)

sexta-feira, 5 de maio de 2017

COMO A ALMA


Cai a chuva de alma leve
nas ribeiras de alma fria.
Cala a ave o canto breve
cala a flor e o fim do dia.

Tanto faz a chuva esteja
só na aragem do jardim.
Essa brisa que me beija
fica bem dentro de mim.

Cai a noite e seu trajeto
vira alfombra enluarada
como a mágica do afeto
nos olhos da namorada.

Cai a aurora e vai a lua
no meu sonho rotineiro
de ficar minh’alma nua
no calor do travesseiro.

Cai a chuva e cai a vida
onde cai tanta saudade.
E minh’alma anoitecida
é uma eterna claridade!

Afonso Estebanez

quinta-feira, 4 de maio de 2017

“EMPODERAMENTO”


No princípio era o verbo
verbo com carga de ação
eis depois veio a mulher
com seu dom de ligação.

No princípio era o verbo
empreendendo a ligação
entre o verbo e a mulher
e entre o amor e a razão.

No princípio foi marcado
um encontro com a vida,
mas foi o verbo atrasado
e a mulher foi esquecida.

O que passou não é mais
o amanhã nem pode ser,
agora o empoderamento
recria o verbo e o poder.

Mulher é ser o que quer.
Estar onde sempre  quis.
É ficar com quem quiser
andar onde é mais feliz.

No princípio era o verbo
e o verbo fez-se mulher,
e desse jeito eu enxergo
até onde o eu ver quiser.

Afonso Estebanez
(Homenagem ao grupo do
“Projeto Empodera”
de Niterói, com meu carinho)

quarta-feira, 3 de maio de 2017

SONETO COM SHAKESPEARE

Nada obstante um anônimo andarilho,
sou um poeta que pertence ao mundo;
pois nem dos astros eu espero o brilho
que não o brilho de meu ser profundo.

Eu vejo que nem mesmo o maltrapilho
vista um sonho de amor tão infecundo
que lhe inspire um amor de afogadilho
a não sonhar com novo amor fecundo.

Amor é o que aquece os velhos ninhos
em que habitam os novos passarinhos
entre as flores dos vales de alfazemas.

O amor tem que ser livre como o gamo
que se move se a brisa diz: “eu te amo”
 ao amor que se entrega sem algemas!

Afonso Estebanez
(Dedico este soneto à notável poetisa
Benedita Silva de Azevedo
mestra na arte japonesa de compor haikais,
tidos como os menores poemas canônicos do mundo.
03.05.2017)

segunda-feira, 1 de maio de 2017

MEU LOBO


Meu lobo é essa ausência conspirada
na alcova de minha alma aprisionada
nos escombros de um vasto anoitecer.

O pasmo é que esta noite a liberdade
fez-me gritar mais alto que a saudade
da qual você nem mesmo quis saber.

Eu só sei que meu grito foi de espanto
desta saudade acuada em cada canto
de não sei onde ou como nem porque.

Só sei que foi um grito e tão profundo
que se ouvia no mais além do mundo
meu lobo uivar da ausência de você...

Afonso Estebanez
(Dedicado à talentosa poetisa
e amiga Glorinha Gaivota)
O RESTO É TUDO


Só posso calcular quanto eu perdi
se o futuro disser quanto me resta
com saudade dos anos que eu vivi
esperando morrer na minha festa.

Não sei de quanta ausência padeci
nem de supor o quanto me detesta
o andamento aplicado que esqueci
no bailado da valsa sem orquestra.

Vejo às vezes que todos esses anos
passaram de viver dos desenganos
e dessa dor que foi o meu verdugo.

Mas eu creio que a vida malograda
fez do tempo perdido não ser nada
se o que me resta para mim é tudo!

Afonso Estebanez
(Poema dedicado ao coração de
Maria da Guia – Mary Lovely
onde guardo segredos da razão)

sábado, 29 de abril de 2017

POEMA RUDE


Mula não é mais líder nacional
deu golpe na vergonha do país
sagrou a si um príncipe do mal
pelas foices dos súditos servis.

Condolente do próprio funeral
num cortejo de gênios imbecis,
pereceu o apedeuta na imortal
melancolia à sombra dos covis.

A massa não seguiu sua canção
o plágio de um pretérito refrão
usado então à conta da tortura.

Infensa à ideologia sanguinária
a nossa geração que é libertária
refuga a dor de outra ditadura!

Afonso Estebanez
(Foto: espacojames.com.br)