quarta-feira, 30 de novembro de 2016

SONHO COSTUMEIRO

Eu sonho-te nas ramas das videiras
como frutos dos vinhos de venturas
em rebentos de graças costumeiras
que me lavam de brisas e ternuras.

E vejo como em sonhos de pastora
tanges de mim sentidos já remidos
e me levas em sombras protetoras
à ravina de amor dos teus abrigos.

E tenho-te nas heras dos penedos
meu pássaro cantor que a ti visita
nos jardins de secretos arvoredos
onde teu sonho de mulher habita.

E fico em ti como o destino antigo
tocado para mais além da história 
onde soubeste que sonhar comigo
seria o amor deixado na memória.

Afonso Estebanez 
(Poema dedicado à doce amiga
Renata de Oliveira Marques)  
‘ROSAS DO ORIENTE’, POR QUÊ?


Segundo historiadores, estudiosos, eruditos e pesquisadores, o nome ‘rosa’ vem do latim “rosa” e do grego “rhodon”. As rosas estão entre as flores mais antigas do mundo conhecido. Acredita-se que a primeira rosa teria aparecido nos jardins asiáticos há cerca de cinco mil anos. Mesmo na sua forma selvagem mais antiga que aponta para os trinta e cinco mil anos de nascimento, a rosa foi, é e sempre será, a flor mais amada do mundo, por sua beleza, atração, suavidade, perfume ou misteriosas qualidades medicinais, místicas e espirituais. Pessoalmente, acredito que as rosas têm o irresistível poder dos elementos multissensoriais que incitam e comovem a alma humana fascinada pela criação artística.

Há cerca de mil anos antes de Cristo, a rosa foi levada da Ásia para a Grécia. Na sua Ilíada, descrevendo as lutas pela conquista de Tróia, Homero escreveu que o escudo do rei Aquiles era ornado de rosas. Do mesmo modo, um pouco mais tarde, Confúcio deixou registrado que na biblioteca do Imperador da China existiam cerca de seiscentos livros sobre rosas. E que a nobreza chinesa apreciava muito o óleo feito a partir dessa flor. E aliás, este óleo só podia ser usado pelos nobres e dignitários da corte. Se um plebeu fosse eventualmente encontrado com a menor porção deste óleo, era condenado à morte. Jesuítas trouxeram a rosa para o Brasil.

A primeira referência à famosa frase de que a "rosa é a rainha das flores" foi feita pela poetisa grega Safo, que viveu seis séculos antes de Cristo. Na história da humanidade, as rosas, principalmente as vermelhas, são o símbolo do amor. Não há quem resista a uma dúzia de rosas vermelhas. Shakespeare, em ‘Romeu e Julieta’, com uma única frase definiu bem aquilo que sentimos por esta flor: "Aquilo que chamamos rosa, com outro nome seria igualmente doce". Os romanos acreditavam que ao decorar os seus túmulos com rosas, apaziguariam os Manes (os espíritos dos mortos) e os ricos incluíam em seus testamentos, que jardins inteiros de rosas fossem mantidos para fornecer flores para suas sepulturas. Durante a Idade Média, as rosas eram muito cultivadas nos mosteiros. Era regra que pelo menos um monge fosse especialista em botânica e estivesse familiarizado com as virtudes medicinais da rosa.

Por que o meu amor extremado pelas rosas ou, no caso inspirador, pelas flores em as “Rosas do Oriente”?

As rosas, para o poeta, têm o amor, a formosura, a suavidade, a beleza, a aura, o perfume, a sensibilidade, o instinto, a pureza, a sensualidade, a luz, a virtude, a graciosidade, a forma, a força moral, o gênero, a sedução, a origem, a atração, o destino e outros patamares de existência dualista da alma de uma mulher ou da alma feminina! Em estrito senso, o que mais me tocou a alma levando-me à composição das “Rosas do Oriente” foi o conhecimento que tomei a partir do fato histórico conhecido no mundo como o “Massacre de Nanquim”, ocorrido em 1937, também registrado como o “Estupro de Nanquim”, que deixou sequelas e marcas indeléveis de repugnantes iniquidades praticadas contra as mulheres, minhas rosas do oriente. Estabeleci a tríplice relação entre as “Flores do Oriente”, as mulheres violadas e as rosas que convivem em harmonia com os espinhos da vida.

Trata-se de um trágico episódio bélico que materializou um crime de guerra genocida cometido pelo exército imperial japonês em Nanquim, então capital da República da China, após a cidade ter sucumbido ao ataque japonês em dezembro de 1937. Não há consenso sobre a duração do massacre, embora a violência tenha perdurado por seis semanas, até o início de fevereiro de 1938. Durante o período em que houve a ocupação de Nanquim, o exército japonês cometeu numerosas atrocidades, como saques, incêndios criminosos, execuções de civis e de prisioneiros de guerra, justificando tratar-se de militares disfarçados. Desse modo, milhares de pessoas foram obrigadas a se dirigir a uma pedreira – dentro de uma imensa vala - local que ordinariamente se transformaria em suas próprias sepulturas. Quando já estavam no interior do local do martírio, soldados japoneses cercaram o local e atearam fogo provocado por saraivadas de tiros de metralhadoras e fuzis, verificando-se, inclusive, a possibilidade de haver sobreviventes e então executá-los. A brutalidade tomou formas ainda piores, como métodos de vivissecção, além de “práticas esportivas” na qual soldados japoneses disputavam entre si o mérito de ser o mais rápido e eficiente em decapitar prisioneiros ou, ainda, usavam prisioneiros como alvos vivos em exercícios de assalto com baionetas. A menção ao evento conhecido como “Estupro de Naquim”, refere-se ao número de mulheres e adolescentes - alguns apontam para cerca de vinte mil - estupradas coletivamente e repetidas vezes, além de sofrerem humilhações públicas, crueldades e violências sexuais frequentemente seguidas de morte, sendo outras “exportadas” como escravas sexuais, para os mais de dois mil bordéis militares criados pelo Japão.

Há que se destacar que referidas práticas de genocídio e abuso sexual eram realizadas em qualquer lugar, inclusive nos templos, cenário que ainda hoje guarda constrangedoras e dolorosas lembranças do massacre das mulheres, ‘minhas rosas do oriente’. Obviamente, tendo em vista o antagonismo dos grupos envolvidos, imperam inúmeras diferenças e desentendimentos entre os beligerantes, porém, esperanças, sonhos, atitudes, passados e experiências de vida são deixados de lado quando surge uma única expectativa para elas: uma oportunidade frustrada para umas no passado, mas possível no futuro para outras. Muito embora a história narrada neste período tenha um vasto e macabro cenário bélico, referidas práticas não são abordadas com clareza para nós outros analistas e observadores, quando o relato dos fatos ao público se restringe apenas aos grupos de meninas e mulheres, que mesmo sendo antagônicos, foram capazes de se unir através de suas qualidades adequadas ao gênero, à alma e ao espírito grandioso das mulheres, ‘minhas rosa do oriente’.

Comoveu-me nessa tarefa a admiração de como o contato real com a morte, com a dúvida e o medo são capazes de despertar reações inesperadas em alguns seres humanos, demonstrando atitudes solidárias memoráveis. Atualmente os próprios chineses comparam o episódio ao abominável holocausto adotado mais tarde pelos alemães, os ‘campos de concentração’, e questionam o fato de o governo nipônico não assumir o massacre e de sequer mencionar em seus livros didáticos e manuais escolares, procurando esconder e ou minimizar a responsabilidade de seu país pelas violências cometidas contra a humanidade, destacando-se, como pano de fundo, aquelas praticadas contra estudantes cristãs católicas e, mais tarde, contra um grupo de prostitutas refugiadas, também ‘minhas rosas do oriente’, mesmo que praticamente sem identidade individual. Mas ‘minhas rosas do oriente’! Tais momentos históricos estão generosamente baseados num romance de Geling Yan, em que, transformado em filme intitulado de “As Flores do Oriente”, o autor estende sua mensagem de culpa e redenção.

Desta forma, dedico a minha coleção de as ” Rosas do Oriente” ao amor, à formosura, à suavidade, à beleza, à aura, ao perfume, à sensibilidade, à pureza, à sensualidade, à luz, à cordialidade, à virtude, à graciosidade, à forma, à força moral, ao gênero, à sedução, à origem, à atração, ao destino e a outros patamares de existência dualista da alma da mulher! A razão é única: nunca vou desistir do amor nem dos sonhos nem das rosas!


Afonso Estebanez

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

A MAGIA DA EXPRESSÃO LITERÁRIA
OFICINA - MÓDULO 04
DA ARTE DE ESCREVER COM SIMPLICIDADE
*UM ATRIBUTO DA PERSONALIDADE HUMANA*



TEMOS AFIRMADO que, até os dias de hoje, NINGUÉM! – a despeito de infinitas tentativas produzidas ao longo da história da literatura – ninguém apresentou ao mundo conhecido uma definição de “POESIA” que fosse estética, filosófica ou cientificamente compatível com a universalidade da alma humana. Por nós outros, temos afirmado que ‘POESIA É UMA ATITUDE INEQUÍVOCA DA ALMA’. Para Rilke, parecia com ‘SERES MISTERIOSOS CUJA VIDA IMPERECÍVEL ACOMPANHA NOSSA VIDA EFÊMERA’. Dissemos também que o professor Pedro Lyra dimensionou, com notável singularidade, o conceito de ‘poesia’ para além de sua definição meramente abstrata, ao lecionar que ‘poesia’ seria “A TRANSITIVIDADE DO SER”. Atentos a tantas informações, amigos leitores nos informam que *Federico Garcia Lorca se questionava: "Mas o que vou dizer da Poesia? O que vou dizer destas nuvens, deste céu? Olhar, olhar, olhá-las, olhá-lo, e nada mais. Compreenderás que um poeta não pode dizer nada da poesia. Isso fica para os críticos e professores. Mas nem tu, nem eu, nem poeta algum sabemos o que é a poesia". 

“FIAT LUX” – Faça-se a luz! E a luz se fez... Agora podemos dar continuidade aos nossos estudos, sabendo-se que uma de nossas iniciantes trouxe a lume oportuno depoimento a demonstrar que o ENTENDIMENTO de nossa proposta inicial foi alcançado, no sentido de que compor um poema (através de qualquer forma de expressão) é ‘REVELAR AO MUNDO EXTERIOR, SEM MEDO, UMA ATITUDE DA ALMA HUMANA, EQUIVALENTE À AÇÃO DE TRANSITIVIDADE DO SER, DO UNIVERSO ESPIRITUAL ATÉ O MUNDO EXTERIOR. Sem nenhum induzimento de ordem técnica, filosófica ou científica, as observações da poetisa estão a nos prestar valioso auxílio. É assim que pretendemos usar nossos próprios recursos, sem nos apegarmos demasiado às teorias acadêmicas já quase desaparecidas na neblina dos séculos precedentes, em que sempre prevaleceu o discurso dos teóricos. 

PALAVRAS da iniciante : “(...). ... O módulo (três) foi o de que mais gostei e o que falou muito ao meu coração. Eu poderia dizer que sua instrução tão magnífica pode ser usada não somente para nós iniciantes em literatura, mas pode ser usada em nossas vidas. O medo é um dos piores sentimentos, medo de errar, de criar, de não ser 'aceito' e de desagradar. Nossa alma não tem medo. Mas eu escrevia com receio, como disse no módulo. No meu caso, receio que eu me justificava por falta de cultura. Quando eu lia os perfis de escritores, geralmente mestres em literatura, batia um medo terrível da tal exclusão que o senhor explica bem. Mesmo assim eu escrevia porque eu sentia que perante meus amigos, eu era uma verdadeira escritora e com o tempo deixei a timidez de lado e tudo o que hoje escrevo é com minha alma. Tudo que faço na vida é com  o coração desde menina e era motivo de criticas . Convivi com isso a vida toda, ser diferente e aprendi que não me pertencia a opinião de pensadores, eu não penso, eu sinto e ajo. Hoje depois de ler este módulo estou vendo que sempre caminhei pela maneira certa e ler que tenho ternura foi meu maior presente". 

A escritora iniciante - tal como ocorreu em "Carta a um Jovem Poeta" de Rilke, enviou-nos um poema de sua autoria de autoria com o objetivo – EXCLUSIVO – de servir de auxílio ou parâmetro para a identificação dos elementos, materiais e imateriais, que justificam a composição da obra literária como expressão de uma ATITUDE DA ALMA HUMANA EM TRANSITIVIDADE, de acordo com as orientações repassadas através dos três módulos anteriores, nos quais deixamos claro que não somos simpatizantes da crítica alheia aos elementos psicodualistas da poesia como direito fundamental indisponível da alma humana. Por isso mesmo, na evolução de nossos trabalhos, procuraremos utilizar como exemplos práticos, o quanto possível, obras literárias de autores contemporâneos nacionais vivos, com o mínimo aconselhável de itações concretas, dos quais podemos extrair o seguinte:

PALAVRA – VOCÁBULO – VOCABULÁRIO – Por mais primitivo que seja o sistema linguístico de comunicação humana, dele jamais pode o homem se afastar. E o passo inicial para a realização de qualquer trabalho escrito (sem oralidade) é o CONHECIMENTO ‘SUPOSTAMENTE’ EXATO DO VOCABULÁRIO. ‘Supostamente’, porque temos por convicção – já o dissemos – que o mundo dualista da ‘poesia’ não se submete a nenhum princípio que tenha caráter de ‘definitividade’ literária. Nele, nada é ‘definitivo’, assim como acontece com os princípios da matemática avançada ou da física quântica. É vulgar o uso de fórmulas ou conceitos impostos pelas ciências exatas na área da linguística ou da metalinguística, estas em irrefreável evolução. 

NA ESTEIRA do que nos foi transmitido pelo Professor *José Oiticica (in ‘Manual de Estilo’, Livraria Francisco Alves, 1944, ‘Curso de Literatura’, Ed. Germinal, 1960, ’Apontamentos de Aula’), há dois critérios para o agrupamento do sistema da língua portuguesa: o MORFOLÓGICO e o SEMÂNTICO. O primeiro permite, inclusive, e especialmente aos poetas, CRIAR NOVOS VOCÁBULOS para a construção de ALEGORIAS ou METÁFORAS. Isso diz respeito – apesar de sua adequação ao sistema linguístico – a uma ‘dica’ de como criar novas palavras na seara da EXTENSÃO DO VOCABULÁRIO E DE SUAS LICENCIOSIDADES. E esse termo é considerado nas suas diversas acepções, em cada MOMENTO ou ÉPOCA, no TEMPO ou no ESPAÇO. Enfim, na área do fato cultural linguístico ou metalinguístico, palavra, vocábulo e vocabulário são legados que atravessaram milênios como INSTRUMENTOS DE COMUNICAÇÃO NO TRABALHO DO POETA: nas artes da escrita como nas artes plásticas, musicais, esculturais, imagísticas, visuais, virtuais, cinematográficas, marciais, psicográficas, ficcionistas, telepáticas, teatrais, ilusionistas, concretistas, abstracionistas ou de ficção... Não há como descartar essa condição da cultura humana. A despeito da criação tecnológica moderna na área da comunicação digital, ainda está para nascer da genialidade humana uma obra que tenha o condão de estabelecer a plenitude da Paz. 

AS PALAVRAS seduzem, incitam e encantam a alma humana. Do ponto de vista da inteligência, a palavras suscitam, geralmente, as imagens dos diversos aspectos da vida no mundo ao redor do poeta. Cada palavra tem o seu valor e/ou peso próprios, uma vez que cada aspecto é conhecido pelo seu característico e recebe um NOME no mundo real ou fictício. Tudo o que é feito pelo homem é identificado pelo nome. Através das ações e estímulos, o ser humano se manifesta. Há manifestações da vontade real ou meramente suposta. Há as ações puramente mentais, em que a manifestação da vontade está presente. Há os fenômenos atinentes exclusivamente ao homem, como parte integrante da natureza: fenômenos psíquicos, puramente instintivos ou anímicos e espirituais. Há os resultados e criações das atividades humanas. Há as concepções e percepções sensoriais ou extrassensoriais... 

Com toda justiça, cumpre-me destacar aqui a propriedade do texto que nos enviou a todos a autorizada companheira de escrita *Analuz Carvalho sobre ‘AS PALAVRAS ESCRITAS, AS PALAVRAS FALADAS’, mercê da sua beleza e oportunidade, um pequeno texto de profunda reflexão a despeito dos propósitos desta incursão autoral no campo ilimitado da ‘Magia da Expressão Literária’. Seja bem-vinda Analuz, minha mais recente interagente, que assim se expressa: “Afirma um ditado popular que “as palavras voam, os escritos permanecem”. Não creio que seja assim tão simples. Palavras quando são proferidas deixam ecos em nossas vidas. Penso assim. As palavras sempre ficam, sejam proferidas ou sejam escritas. Se me falares, mesmo que sussurrando, que me amas, eu acreditarei. Mas se me escreveres: Eu te “amo”, acreditarei ainda mais. Se me disseres da tua saudade eu a perceberei. Mas se me escreveres sobre ela, eu a sentirei tangível junto contigo. Se a tristeza vier a te exaurir, te ferindo como um espinho e me disseres, eu saberei que estás sofrendo. Mas se a descreveres no papel natural ou virtual, a sua importância será menor e ficarás amparado. Lembremos sempre o poder das palavras, pois já li que “quem escreve constrói um castelo, e quem lê passa a habitá-lo” (Analuz Carvalho).

ANTES de destacar no próximo módulo a questão da ‘Arte de Escrever com Estilo’ como um ‘Atributo da Individualidade Humana’, será de bom hábito que os iniciantes tomem conhecimento – o quanto antes – de um propósito cultural revelado no início do século passado, que se tivesse vingado, teria transformado a Semana da Arte Moderna de 1922 num dos maiores desastres da literatura brasileira. Trata-se do “MANIFESTO FUTURISTA” de *Osvald de Andrade, visto pelo prisma moderado do notável poeta mineiro *Ângelo d’Ávila, difundido, entre outros, como um dos adeptos do mencionado ‘movimento’ ainda não totalmente superado no Brasil. Ângelo descarta as feições anarquistas daquele propósito e propõe outra vertente denominada ‘neofuturismo’, como forma de resgate das particularidades literárias positivas do movimento. Justifica Ângelo d’Ávila: 

“Oswald de Andrade [1890-1954] pretendeu batizar com o nome de Futurismo o movimento da semana de 1922, influenciado por Filippo T. Marinetti, escritor italiano [1878-1944], que propunha a aniquilação definitiva das formas poéticas tradicionais, anunciando uma arte expressiva da era das máquinas e da velocidade, cujo objetivo seria:  

‘Destruir a sintaxe; usar o verbo no infinito; abolir o adjetivo e o advérbio; acompanhar cada substantivo de outro com função adjetiva; suprimir a pontuação; buscar gradações de analogia cada vez mais simples; abolir categorias de imagens; obter máxima desordem; abolir elementos psicológicos’.

Lançou o Manifesto Futurista publicado no jornal parisiense 'Le Figaro', em 1909. Contudo, prevaleceu o batismo do Modernismo proposto por Mário de Andrade [1893-1945]. Surgiram diretrizes rivais antagônicas, tais as indefinidas na revista Klaxon, seguidas pelo Manifesto Pau Brasil [1922/23], de Oswald de Andrade, e as tendências nacionalistas de Plínio Salgado [Anta e Verdeamarelismo] em 1925, culminando com a Antropofagia [1928] também de Oswald de Andrade. 

Daí sucedeu que a obra de Oswald de Andrade pendeu mais para o lado do futurismo, enquanto o modernismo, com a m℮ta de anular a futura geração de 45, descaracterizou-se nas tentativas do vanguardismo intitulado de concretismo, neoconcretismo, poesia-práxis, poema-processo, arte-correio, chegando ao pós-modernismo onde se estereotipou numa posição confusa do academicismo consagrado pela tradição secular lega pelos clássicos e suas vertentes. 

O modernismo anarquizou-se, não criou escola literária por falta de método, desapareceu nos países da língua espanhola com nome de ultraísmo, estilo de vanguarda adotado por Rubem Darío, Huidobro e outros, com método próprio”.

E propõe:

“Então chegou a hora de novas tentativas, razão que proponho reatar os liames deixados por Marinetti e Oswald de Andrade, para inovar, renovar e metodizar o movimento modernista de 1922 rebatizado de 'neofuturismo', já que o vanguardismo não conseguiu alcançar este desiderato. Neofuturismo não é poesia do futuro, senão presente nas correrias e violências atuais que precisam ser denunciadas na vida social de um povo”. 

Esta citação tem por objetivo despertar os iniciantes no ofício literária para a necessidade de estudos e análises complementares a respeito da História da Literatura Brasileira e suas correlações com o uso da PALAVRA como elemento nuclear do sistema linguístico nacional. Questiona-se: pode o sistema linguístico de um povo EVOLUIR repentinamente por força de movimentos, modismos, vertentes, novidades, histeria tribal, tendências regionais, concepções políticas ou por força de legislação local submetida à eficácia de convenções internacionais? 

O ‘Manifesto Futurista’ do anarquista Oswald de Andrade propunha ‘Destruir a sintaxe, usar o verbo no infinitivo, abolir o adjetivo e o advérbio, acompanhar cada substantivo de outro com função adjetiva, suprimir a pontuação, buscar gradações de analogia cada vez mais simples, abolir categorias de imagens, obter a máxima desordem e abolir elementos psicológicos’.

Não sabemos... A resposta pertence aos iniciantes na arte da literatura no país como no exterior, nunca radicalmente desobedientes aos princípios básicos delineados pelas culturas ocidentais ou orientais legadas pelos ancestrais mais primitivos da humanidade.  

*Federico Garcia Lorca, nasceu em Fuentevaqueros (Granada) em 5 de junho de 1898 e morreu assassinado em Viznar (Granada), uma das primeiras vítimas da Guerra Civil Espanhola, em 19 de agosto de 1936. Foi dotado de uma personalidade extraordinariamente voltada para a arte. Além de ser um grande poeta, teve também alguns pendores musicais, tendo feito, ainda, alguns desenhos. É Garcia Lorca, com certeza, o poeta espanhol mais conhecido universalmente, só perdendo para Cervantes no número de edições e traduções de suas obras.

*José Rodrigues Leite e Oiticica (Oliveira, 22 de julho de 1882 — Rio de Janeiro, 30 de junho de 1957) professor, poeta parnasiano, filólogo e notável anarquista brasileiro. Foi membro da Fraternitas Rosicruciana Antiqua, estudou Direito e Medicina, não tendo concluído nenhum dos dois cursos em favor do magistério e da pesquisa filológica. No plano político foi um dos grandes articuladores da Insurreição anarquista de 1918 que inspirada pela Revolução Russa pretendia derrubar o governo central na capital do país.

*Ângelo d’Ávila, é mineiro de Araxá, MG, onde nasceu em 1924. É membro da  Associação Nacional dos Escritores de Brasília (ANE), do Sindicato dos Escritores de Brasília, e das seguintes entidades: Titular da cadeira XXXVI da Academia de Letras de Brasília (DF),  membro correspondentes das academias:  Petropolitana de Poesia Raul de Leoni (RJ), Internacional de Letras “3 Fronteiras” e Uruguaiana de Letras (RS), Pirenopolina de Letras e Música (GO) e Araxaense de Letras (MG); sócio do Clube de Poesia da Associação Uruguaianense de Escritores e Editores e do Clube Internacional da Boa Leitura (RS) e outras agremiações ligadas à cultura e à astronomia. Tem dez volumes publicados, colabora em revistas literárias, jornais e antologias, premiado em concursos  de contos, romance e poesia. Estudou Farmácia e Bioquímica, Línguas Neolatinas e cursos de pós-graduação concernentes ao exercício profissional. Ex-professor, ex-diretor de colégio, servidor público aposentado, reside em Brasília.

*Analuz Carvalho, é carioca, nascida em 26 de março de 1962, trabalha em educação, é servidora pública do Estado do Rio de Janeiro, sempre residiu no Rio onde se formou em Ciências Sociais do ensino superior pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Sua notoriedade veio se despertando pela forma literária com que se comunica em perfis nas redes sociais, onde se destacam seu estilo autoral, engajado, participativo, fluente e familiar, de conteúdo simbolista com intensa carga de propósito de autoajuda através de sua vocação expressa em seus textos evidentemente direcionados ao patamar da espiritualidade, do altruísmo, da solidariedade social, por vezes com nuances críticos e cívicos em políticas públicas e justiça social, numa feliz diversidade de conhecimentos humanos com os quais seduz a atenção dos leitores habituados com a boa linguagem agasalhada pela língua portuguesa bem escrita e bem falada. Estilo autoral, ou próprio e único, Analuz Carvalho deve ser considerada uma escritora resolvida entre nós.

Afonso Estebanez

domingo, 27 de novembro de 2016

ÚLTIMA ROSA DE SAROM



Além dos muros do meu coração aberto
os cantares das rosas que plantei no pó
são sensações da primavera no deserto 
aquém dos muros dos jardins de Jericó.

E sou a Rosa de Sarom em teu desperto
coração tão infenso ao estar morto e só
em que se cumprirá o antigo manifesto
das rosas castas dos jardins de Jericó... 

Bendito quem deixou as trevas pela luz
por ter plantado rosas no lugar da cruz
entre os canteiros dos jardins de Jericó

de onde a última Rosa de Sarom voltou
para ascender ao Pai a rosa que restou 
além dos muros dos jardins de Jericó... 

Afonso Estebanez 
ÚLTIMA ROSA DE DELOS



Conheço as flores como a rosa o espinho
o trigo ao pão do amor que me alimenta,
em meus vinhedos sou do fruto ao vinho
a abundância do amor que te contempla.

És o princípio e o fim de um só caminho
no mistério do encanto que me inventa:
no horizonte do olhar de um passarinho
esplende a luz do amor que te contenta.

Não mais pressentimentos de distâncias
nem mais esse pesar das circunstâncias
de almas gêmeas em mundos paralelos.

Se um tempo aqui nascemos e vivemos
e aqui morremos, sim!... e morreremos
como as rosas de pedra, mas de Delos!

Afonso Estebanez
ÚLTIMA ROSA DO ORIENTE


Se eu tenho que ouvir pela última vez
cantar um riacho escorrendo dolente,
que seja o lamento do amor ou talvez
o fado das águas sem mágoa fluente. 

Não vejo na morte qualquer sensatez 
que leve da vida razão que a lamente
mas vejo na rosa que o tempo desfez
o fado de morte que a vida não sente.

Se tenho que ver sob a luz derradeira
a última rosa que amei como herdeira   
só sinta de amor o penar da consorte.

Se tenho comigo a paixão ressentida, 
qual fora de espinhos o berço da vida
que seja de rosas meu leito de morte.

Afonso Estebanez

sábado, 26 de novembro de 2016

DÉCIMA ROSA DO ORIENTE


Não é destino que uma flor pereça
nos espinhos das urzes do deserto
nem é preciso que o amor esqueça
do perfume de rosas que desperto.

Jardineiro, me vejo andando perto
de um abismo de rosas que pareça
do sonho quando meu amor alerto
a que ame rosas e que não padeça.

Entre as rosas oriundas do oriente
a que apascenta as flores da ravina 
há seduzir o encanto que me resta.

Então eu louvo as aves da vertente
que lembram minha rosa matutina
cantando no meu coração em festa!

Afonso Estebanez

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

ASTRONÁUTICA


No leito de lançamento
do teu corpo ao universo
ponho todo o sentimento 
do meu amor inconfesso,
e não me tragas respostas
para as falsas impressões
de tantas culpas impostas
por minhas contradições.


Por amor poetas mentem
quando falam de sua dor
e falando que não sentem
do que sentem por amor.



Peço só que tu me tragas
da alma cósmica de ti
uma das estrelas vagas
onde sempre me perdi.

Afonso Estebanez

A MAGIA DA EXPRESSÃO LITERÁRIA
OFICINA – MÓDULO 03
DA ARTE DE ESCREVER SEM MEDO
*UMA ATITUDE DA ALMA HUMANA*



RECAPITULAÇÃO – Ao tratarmos do assunto ‘conceitos de poema e poesia’ no módulo anterior (02), deixamos, propositalmente, infinitos horizontes abertos à penetração do pensamento analítico e reflexivo no universo desse fato cultural, na expectativa de que, a qualquer momento ou em algum lugar da história da arte literária, encontremos similaridade razoável entre os conceitos estéticos já firmados pelos estudiosos e os nossos conceitos próprios a respeito do assunto “poesia x poema” – e isto já seria de ‘bom tamanho’ para a espécie humana que, pesar do atual estágio da experiência evolutiva, ainda ignora, por escassez de maturidade e autoconhecimento, os mistérios da ‘transitividade do ser’ entre o mundo material e o universo infinito da espiritualidade. 

Até os dias de hoje tido como ‘dogma’, ‘enigma’, fenômeno’ ou ‘problema’, vimos que entre dicionaristas, filólogos, teóricos, professores, estudiosos, historiadores, filósofos, artistas, leitores, analistas, críticos, poetas, teatrólogos, antropólogos, dramaturgos ou teólogos, NINGUÉM, a despeito de infinitas tentativas produzidas ao longo da história da literatura, apresentou ao mundo conhecido uma definição de “POESIA” que fosse estética, filosófica ou cientificamente compatível com a universalidade de sua concepção ‘psicodualista’ (relação entre o mundo material e a alma humana). Limitou-se o homem a restringi-la a conceitos ‘psicomonistas’ (que negam a relação dualista entre o mundo material e a alma humana), suprimindo-lhe, com sentimento crítico pouco investigativo, a natureza da relação de razoabilidade, verossimilhança e proporcionalidade com o fenômeno singular da expressão poética preexistente no mundo espiritual dos indivíduos.    

Ninguém é obrigado a acolher o nosso entendimento aparentemente pouco pragmático. Mas temos por convicção que o mundo dualista da ‘poesia’ não se submete a nenhum princípio que tenha caráter de ‘definitividade’ literária. Nele, nada é ‘definitivo’ assim como soe acontecer com os princípios da matemática avançada ou da física quântica. Afirmamos, pois, com segurança, que POESIA É UMA ‘ATITUDE’ DA ALMA HUMANA, sem nunca perder de vista o que disse *Rainer Maria Rilke a propósito das criações artísticas resultantes desta ‘atitude’ da alma: parecem “SERES MISTERIOSOS CUJA VIDA IMPERECÍVEL ACOMPANHA NOSSA VIDA EFÊMERA” (in Cartas a Um Jovem Poeta). Merece também, aqui, toda a nossa reverência o douto ensinamento do festejado professor Pedro Lyra, que dimensionou, com notável singularidade, o conceito de ‘poesia’ para além de sua definição meramente abstrata, ao afirmar que ‘poesia’ é “A TRANSITIVIDADE DO SER”. Assim, como a ‘poesia’ é, por isso mesmo, o elemento imaterial gerador do ‘poema-fato-realidade-cultural’ e o ‘poema’ é a sua realização/afirmação no mundo material através do concurso da atividade humana atribuível àquele que está escrevendo com propósito artístico, convém que lhe dispensemos uma vestimenta conceitual objetiva e razoável bastante à sua necessária aproximação linguística do assim conceituado ‘poema-fato-realidade-cultural’.

Por conseguinte, doravante passamos a adotar, com sensível restrição embora, esta conceituação ‘pedagógica’ de “POESIA”: “Forma de expressão linguística em que se revela uma particular visão do mundo, apelando mais para a emoção do que para a inteligência, através de uma seleção vocabular essencialmente metafórica” (Antônio Houaiss, in ‘Pequeno Dicionário Enciclopédico Koogan Larousse’, Editora Larousse do Brasil, 1987, Rio de Janeiro). Para que se devote fidelidade/lealdade linguística ao atributo da dualidade humana, substituam-se os termos ‘forma’ por ‘impulso’, ‘emoção’ por ‘sensibilidade’ e ‘inteligência’ por ‘conhecimento’. Interpretemos então este ‘conceito’ como uma ‘definição’ de conveniência e pacifiquemos o assunto, por enquanto.

ESCREVER POEMA – Retornemos rapidamente ao tema, para relevar o entendimento pacificador de que, ‘a princípio’, com base nas evidências da constatação empírica (baseada na experiência humana), um “POEMA” é, de modo mais ou menos consensual, um texto (ou forma de expressão de qualquer natureza com propósito estético) escrito (ou composto), não exclusiva nem necessariamente, em verso. Diante daquela cautelosa expressão ‘a princípio’, podemos afirmar com igual segurança que ‘poema’ é simplesmente a ‘arte de escrever em versos’, como querem os teóricos? Não! Há um mínimo de preceitos básicos a serem observados, sem os quais não poderemos alcançar o público leitor que lhe dará, ou não, reconhecimento e aprovação. Há o inevitável mergulho do pensamento reflexivo nas águas profundas do mundo interior. Há a necessidade imperiosa de passarmos pela experiência da solidão, em que ninguém pode – e nem tem o direito de – dar conselhos ao poeta, para quem só existe o caminho da penetração em si mesmo, à procura da necessidade de escrever e compor. Há que se ter a certeza de que a necessidade de escrever tem raízes nas profundezas do coração. 

Em poemática – como em qualquer outra dimensão artística – costuma-se adotar o princípio de que uma obra de arte só é boa quando nasce por necessidade, o que nos remete à crença de que a natureza de sua origem é que a julga. Por isso o expressivo, complexo e defensivo ‘a princípio’, que de algum modo deve interessar, desde logo, a quem se pretende iniciante na arte de ‘conceber’ (cogitar), ‘escrever’ (gerar) e ‘criar’ (dar à luz) poemas, SEM MEDO. 

ESCREVER SEM MEDO – O maior e mais temido adversário do indivíduo e, particularmente do iniciante em qualquer tipo de atividade humana nobre que – como a da arte – constrói templos à virtude e cava masmorras ao vício – é o “MEDO”. Medo do medo. Medo da transitividade do ser. Medo da culpa original. Medo da solidão decorrente do processo individual do autoconhecimento. Medo de examinar-se a fundo, até achar a mais profunda resposta. Medo do anonimato ou da obscuridade pessoal. Medo resultante da inibição educacional, da timidez social, da discriminação de qualquer espécie e de outros fatores históricos de exclusão do indivíduo do processo de autoafirmação sociocultural. Medo da predestinação.

Neste ponto, é fundamental que celebremos, desde logo e ‘tête-à-tête’ com o mundo da racionalidade, uma cerimônia de exorcismo do “MEDO DA CRÍTICA” , esta a mais intrigante e parasitária de todas as que – com raras exceções – infectam o ambiente da arte literária produzida em nosso país, uma nação tida lá fora – a despeito de tudo – como reserva privilegiada da poesia como fator de inclusão humana. EXORCIZEM-SE, PORTANTO, DE TODOS OS MEDOS, particularmente os medos da ‘crítica improdutiva’ que vem ‘de fora’, a crítica ‘posseira’, aquela que se arvora em ‘juíza de valores’ de nossas almas produtivas, estas antecipadamente demarcadas no mundo interior como moradas dos sonhos. Porque ‘sonhos são direitos fundamentais indisponíveis da alma humana’ (*Julis Calderón). Ninguém pode se apossar de nossos sonhos e nem deles podemos dispor. E é através da atividade linguística que nossas almas – seres em transitividade no mundo interior – têm por objetivo a arte em que procuram criar, com a linguagem própria e autoral, um estado psíquico de sensações estéticas por meio da aplicação sistemática de processos estilísticos em infinita evolução. 

Vejamos como o pensador brasileiro *Arthur da Távola – uma das personalidades mais cultas deste país – referia-se aos seres em ‘transitividade’: ‘A alma dos DIFERENTES é feita de uma luz além. Sua estrela tem moradas deslumbrantes que eles guardam para os poucos capazes de lhes sentir e entender. Nessas moradas estão tesouros da ternura humana dos quais só os diferentes são capazes’.

É através das manifestações da alma que ‘a língua transcende, neste caso da função essencial de meio de comunicação, para se tornar ela própria o objeto essencial da atividade e servir de matéria-prima para uma obra de arte literária. Essa aplicação artística de uma língua é espontânea e se encontra em todos os tipos de sociedades, mesmo as mais rudimentares, na sua vida material e espiritual. Como expressão linguística, um poema tende a organizar-se em frases ritmadas, com base na entonação, no número de sílabas, na distribuição mais ou menos regular, ou irregular, das sílabas acentuadas, constituindo-se desta maneira numa série de versos’ (Professora *Silvia Regina Pinto).

Desta maneira, uma das formas de o iniciante em arte literária lidar com o lado negativo da crítica ‘não autorizada’ é não esperar dela coisa nenhuma. E se lhe vierem versos do regresso ao próprio mundo interior, do mergulho da sua alma no cosmo infinito do espírito, não deve o iniciante indagar a ninguém se suas criações literárias são boas ou não (...), porque desfrutará delas como de uma posse natural, como de uma de suas formas de vida e expressão. 

“Leiam o menor número possível de trabalhos críticos ou estéticos. Estes, ou são produtos de um ‘espírito de partidarismo’, petrificados, privados de sentido na sua rigidez mortal, ou hábeis jogos verbais, inspirados numa opinião, agora e, no dia seguinte, em opinião contrária. Os trabalhos de arte são de uma solidão infinita: para os abordar, nada pior do que a crítica. Só o amor pode prendê-los, conservá-los, ser justo com eles. Dê sempre razão ao seu próprio sentimento, contra essas análises, resumos ou preâmbulos. Mesmo que se iluda, o desenvolvimento natural da sua vida interior conduzi-lo-á, aos poucos, com o tempo, a um outro estado de conhecimento. Deixe que os seus julgamentos tenham a sua evolução natural, silenciosa. Não se oponha a essa evolução que, como todo o aperfeiçoamento, deve vir do âmago do seu ser e não pode suportar coação nem pressa de espécie alguma. Levar a termo e dar à luz – eis tudo. É necessário deixar cada impressão, cada germe de sentimento, amadurecer em si, na treva, no inexprimível do inconsciente – essas regiões herméticas ao entendimento. Espere com humildade e paciência a alvorada de uma nova luz. Aos simples fiéis, a Arte exige tanto quanto aos criadores. (...). A primavera só chega para quem sabe esperar, tão sossegado como se estivesse esperando a eternidade” (*Rainer Maria Rilke). 
Nesse rumo, o segredo é aprender todos os dias, mesmo que à custa de enorme sofrimento. Escrever é viver em cio permanente. Manuel Bandeira gritava em profundo silêncio: ‘Quero antes o lirismo dos loucos... – Não quero mais saber do lirismo que não é libertação’. Cecília Meireles meditava e concluía: ‘Eu canto porque o instante existe e a minha vida está completa. Não sou alegre nem sou triste: sou poeta’. Irreverente aos assédios da crítica ociosa, Paulo Leminsky vibrava com alfinetadas de ironia: ‘Escrevo. E pronto. Escrevo porque preciso, preciso porque estou tonto. Ninguém tem nada com isso’. 
Para concluirmos, assim, essa questão de necessidade de estimular o iniciante a ‘Escrever Sem Medo’ num ambiente literário de competições desiguais, conflitos pessoais, adversidades e contradições éticas no enfrentamento do tabu imposto pela crítica maniqueísta, senhorial e personalista, retornemos à lição abalizada do eminente professor Dimas Macedo, docente da Universidade Federal do Ceará (já citado no módulo anterior), a propósito das evidências do motivo global que um poeta tem para escrever sem medo:
‘Aquele que serve de parâmetro ao atual estágio de regressão da cultura, até o limite da barbárie e da violência plural e indiscriminada, isto é, o modelo de produção do capitalismo financeiro, na sua fase superior de concentração de riquezas e de exclusão social, está a questionar os potenciais de indignação e de revolta que os poetas carregam em sua consciência’.

Quer-se dizer que, na criação da arte, a ‘atitude da alma’ como a ‘transitividade do ser’ são reações naturais da liberdade de expressão humana, não sendo razoável exigir-se dos iniciantes na arte literária a leitura dos 143 sonetos escritos por Shakespeare; nem o entendimento da polêmica diferença entre ‘novidade’ e ‘novo’; nem que saibam que os movimentos iconoclásticos dos anos 20 – como aparente rejeição ao receituário cartesiano da época – tinham como bandeira da arte revolucionária a desgastada cantoria do ‘não saber o que queriam, mas saber o que não queriam’; nem que apreciem como rótulo pedagógico o comportamento do Carlos Drummond de Andrade quando exigia que os jovens poetas lhe provassem conhecimento da arte de escrever com a apresentação de um soneto; nem pensarem que o Fernando Pessoa fora o único linguista no mundo a definir, com escandaloso equívoco, que ‘um poema é a expressão de idéias ou de sentimentos em linguagem que ninguém emprega, pois que ninguém fala em verso’; nem que saibam das razões filológicas, linguísticas e antropológicas pelas quais opomos resistência à lei inconstitucional que ‘castrou’, com uma simples canetada de regressão cultural, o venerado “trema” (¨) da língua portuguesa falada com singularidade no Brasil.  
  
*Rainer Maria Rilke nasceu em 1875, em Praga, na República Tcheca, então pertencente ao império austro-húngaro. Fez seus estudos nas universidades de Praga, Munique e Berlim. Em 1894 fez sua primeira publicação, uma coleção de versos de amor, intitulados Vida e canções (Leben und Lieder). É considerado um dos mais importantes poetas modernos da literatura e língua alemã, por sua obra inovadora e seu incomparável estilo lírico. Poeta fundamental, voz de uma época em transição, uma das últimas do seu tempo, aquela que anunciou o "fim dos tempos modernos" (Romano Guardini) e, ao mesmo tempo, a primeira voz e o primeiro poeta dessa nova era que vivemos. Rilke possui uma obra original, marcada pelo tratamento da forma e pelas imagens inesperadas. Celebra a união transcendental do mundo e do homem, numa espécie de “espaço cósmico interior”. Sua poesia provocava a reflexão ‘existencialista’ e instigava os leitores a se defrontarem com questões próprias do desencantamento da primeira metade do século XX. Sua obra influenciou muitos autores e intelectuais em diversas partes do mundo.
*Sílvia Regina Pinto possui graduação em Pedagogia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (1970), graduação em Português Literatura pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (1973), mestrado em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (1995) e doutorado em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (2000). Desde 1978 é professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro [UERJ], na área de Letras, com ênfase em Teoria da Literatura. Atualmente, sua pesquisa trabalha os seguintes temas: teoria da literatura, filosofia, literatura e ficção, em perspectivas contemporâneas.
*Arthur da Távola era o pseudônimo do poeta, pensador e jornalista Paulo Alberto Monteiro de Barros, ex-senador da República Federativa do Brasil. Nasceu no Rio de Janeiro em 1936. Foi deputado estadual e federal. Era presidente da Rádio Roquette Pinto, conhecida como 94FM, pertencente ao governo fluminense. Cassado pelo regime militar, viveu na Bolívia e no Chile, entre 1964 e 1968. De regresso ao país, passou a usar o conhecido pseudônimo de Arthur da Távola.
*Julis Calderón d’Estéfané o heter\õnimo pseudonímico monobiográfico do poeta fluminense Afonso Estebanez Stael, nascido em 30/10/1943 na região agreste do município de Cantagalo-RJ, é advogado, escritor, cronista, poeta, jornalista laico e verbete da “Enciclopédia de Literatura Brasileira” e do “Dicionário de Poetas Contemporâneos”. Cursou o ensino superior nas Faculdades de Direito e de Filosofia, Ciências e Letras da UFF em Niterói (65/70). Finalista nos 1º, 2º e 3º Torneios Nacionais da Poesia Falada patrocinado pela Secretaria de Educação e Cultura do Estado do Rio de Janeiro (68/69/70). Vencedor do Primeiro Concurso Estadual de Poesia do Advogado Fluminense (87). Tem obras publicadas em livros, jornais e revistas. Venceu, em julho de 2007, o Primeiro Concurso de Literatura do Tribunal Regional do Trabalho da 1ª Região (TRT- Rio), nas categorias de prosa e verso. Faz parte dos movimentos de inteligência literária de Poetas Del Mundo e Alma de Poeta.  É membro da Academia Brasileira de Poesia. Recebeu a Comenda de Cônsul de Poetas del Mundo para representar sua cidade natal, Cantagalo/RJ.

Afonso Estebanez

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

A MAGIA DA EXPRESSÃO LITERÁRIA
OFICINA - MÓDULO 02
POESIA - POEMA - CONCEITOS - UNIVERSALIDADE - “TRANSITIVIDADE DO SER”



Ao longo dos tempos dicionaristas têm registrado o termo vocabular “POESIA” como sendo ‘A arte de escrever em verso’ ou ‘caráter do que desperta o sentimento do belo’, conceitos habitualmente confundidos, pelos mesmos dicionaristas, com o termo ‘inspiração’, este à guisa de recurso extremo da dicionarização do vocábulo ‘poesia’, para dizer daquilo que supostamente se possa adequar a uma ‘sugestão de origem transcendente ou psíquica, ou de qualquer objeto que tem virtude genética sobre o artista para o excitar à produção e lha orientar’. E que “POEMA” é uma ‘Obra em verso’ ou uma ‘Obra em prosa em que há ficção e estilo poético’. (Michaelis, in ‘Moderno Dicionário da Língua Portuguesa’, Melhoramentos, 1998). Para outros confiáveis dicionaristas também, poesia é ‘Caráter do que emociona, toca a sensibilidade’, a ‘Sugerir emoções por meio de uma linguagem’, e poema é ‘Obra em verso ou não, em que há poesia’ (Aurélio, in ‘Minidicionário da Língua Portuguesa’, Nova Fronteira, 1993).

Acreditamos, todavia, que isto não é suficiente. A matéria prima do aprendizado é o ‘fato cultural’, independentemente da profundidade do processo cognitivo de sua natureza. Vemos os termos ‘inspiração’ e ‘ficção’ – empregados pelos dicionaristas para estabelecer diferença técnica entre poesia e poema – como recursos vocabulares pouco adequados ao estudo do tema. Durante séculos, tem sido próprio dos compiladores do ordenamento vocabular da língua portuguesa conferir a alguns termos pesquisados inovadora carga – ainda que sutil – de conotação ‘crítica’, não raro ‘inspirada’ em princípios subjetivos de ‘definitividade’ linguística.

Nesta oportunidade, relevamos a soberania, a magnitude e a universalidade conceitual do tema, para novamente proclamar a liberdade da expressão de pensamento, na tentativa de dar mais uma resposta ao fenômeno milenar da “poesia” x “poema”, confessando-nos face a face com um enigma que, a despeito de todas as ciências humanas, de todos os conhecimentos adquiridos pelo homem e das experiências vividas em todos os tempos pela humanidade, continua enigma! Neste ponto, queremos nos abster de emitir nossos conceitos próprios sobre o assunto, para privilegiar o notável magistério literário do erudito Professor *Pedro Lyra, Doutor em Poética da Universidade Federal do Rio de Janeiro, a quem rendemos nossas fraternais homenagens.

Leciona o Professor Pedro Lyra (in excertos de ‘Conceito de Poesia’, Ática, São Paulo, 1986, Série Princípios): “1 - Poesia: A transitividade do ser. Poetas e leitores, críticos e historiadores, teóricos e professores têm-se reportado, ao longo da História, à poesia e ao poema, ora como coisas distintas, ora como coisas identificadas. São inúmeras as tentativas de definição, mas nenhuma se apresentou com a universalidade e o rigor necessários à sua afirmação estética, filosófica ou científica. Que são, em realidade, poesia e poema?”

E ressalta nosso mestre em poética: “A princípio, podemos afirmar - baseados na mais visível constatação empírica - que a definição de poema é muito menos controvertida do que a de poesia, e este fato já nos remete a uma dedução inicial óbvia: identificados pela consciência ingênua, poesia e poema são, e sem mais dúvida, coisas diferentes. (...). O poema é, de modo mais ou menos consensual, caracterizado como um texto escrito (primordialmente, mas não exclusivamente) em verso. A poesia, por sua vez, é situada de modo problemático em dois grandes grupos conceituais: ora como uma pura e complexa substância imaterial, anterior ao poeta e independente do poema e da linguagem, e que apenas se concretiza em palavras como conteúdo do poema, mediante a atividade humana; ora como a condição dessa indefinida e absorvente atividade humana, o estado em que o indivíduo se coloca na tentativa de captação, apreensão e resgate dessa substância no espaço abstrato das palavras. Se o poema é um objeto empírico e se a poesia é uma substância imaterial, é que o primeiro tem uma existência concreta e a segunda não. Ou seja: o poema, depois de criado, existe ‘per se’, em si mesmo, ao alcance de qualquer leitor, mas a poesia só existe em outro ser: primeiramente, naqueles onde ela se encrava e se manifesta de modo originário, oferecendo-se à percepção objetiva de qualquer indivíduo; secundariamente, no espírito do indivíduo que a capta desses seres e tenta (ou não) objetivá-la num poema; terciariamente, no próprio poema resultante desse trabalho objetivador do indivíduo-poeta”.

“Este – insiste Pedro Lyra – é o problema fundamental: se a poesia está no mundo originariamente, antes de estar no poeta ou no poema – e isso pode ser comprovado pela simples constatação popular de que determinados objetos/situações do mundo são ‘poéticos’ – ela tem a sua existência literária decidida desse trânsito do abstrato ao concreto, do mundo para poema, através do poeta, no processo que a conduz do estado de potência ao de objeto. Então, podemos deduzir que a existência primordial da poesia se vincula à daqueles seres que exercem algum influxo sobre o sujeito que entra em contato com eles e o provocam para uma atitude estética de resposta, consumando o trânsito – da percepção à objetivação – mediante uma forma qualquer de linguagem. (...)”.

Neste passo, é de bom alvitre que fiquemos atentos à diferença formal que os estudiosos fazem entre ‘poema’ e ‘poesia’, lembrando que, apesar de serem tratados por muitos como sinônimos, o uso dos dois termos, entre os que vivenciam a experiência em poética, representa uma real ‘transitividade do ser’ humano entre sua espécie primitiva e sua espécie transcendental (do imaterial/abstrato/subjetivo ao material/concreto/objetivo). A propósito, analisa o não menos notável Professor *Dimas Macedo, docente da Faculdade de Direito de Universidade Federal do Ceará:

“Da transitividade do ser aos processos de reificação ou de transformação da consciência reina, de forma soberana, a maior de todas as linguagens criativas. O ato de criação ou de transfiguração da poesia é tão sutil e magnético quanto a manifestação de todos os mistérios e mitos insondáveis.

Acho que podemos falar de uma mística da poesia, assim como podemos supor a inexistência da matéria a partir das suas formas plurais de energia. A espada e a lírica com que se arma o empreendimento do poema tanto podem construir a geopolítica de qualquer civilização planetária quanto transformar os processos sociais e econômicos de qualquer modo de produção em andamento.

Aquele que serve de parâmetro ao atual estágio de regressão da cultura, até o limite da barbárie e da violência plural e indiscriminada, isto é, o modelo de produção do capitalismo financeiro, na sua fase superior de concentração de riquezas e de exclusão social, está a questionar os potenciais de indignação e de revolta que os poetas carregam em sua consciência.
A alienação das formas de construção do poema e a alienação dos poetas malabaristas, nefelibatas e provincianos não mais respondem às exigências da linguagem que a nova desordem cósmica e mundializada erigiu como suporte da sua contradição e da sua negação transformadora.

Creio que não é preciso ser marxista, socialista ou adepto dos novos princípios políticos da insubordinação ou da desobediência para constatar que o holocausto do capitalismo financeiro – unilateral, concentrador e excludente – é tão perverso e assassino quanto as concepções totalitárias que destruíram muitas esperanças durante o século precedente”.

*Pedro Lyra é professor de Poética na Universidade Federal do Rio de Janeiro e Professor-visitante em Universidades de Portugal, Itália, França e Alemanha. Poeta, antologista, crítico literário e ensaísta, Lyra nasceu em Fortaleza, em 1945. Na atualidade, é referência de grande valor na literatura brasileira pós-modernista. É membro titular da Academia Brasileira de Poesia.

*Dimas Macedo é cearense de Lavras da Mangabeira, onde nasceu em 1956. Poeta, crítico literário e jurista brasileiro, é professor da Faculdade de Direito da Universidade Federal do Ceará, membro da Academia Cearense de Letras e integra o Conselho Editorial de vários jornais e revistas culturais do país.
Afonso Estebanez

domingo, 20 de novembro de 2016

RAPSÓDIA DE AMOR CIGANO
(Quinto fragmento)



Ah, permita-me querida
viver sonhar se possível
enlouquecer e me viver
de alma nua consumida...

E que me é dado por lei 
morrer-me de desmorrer 
vivendo-me de desviver 
pelo fim sem despedida...

Ô, conceda-me querida 
morrer-me sem padecer
ou então me adormecer
docemente em tua vida...

Afonso Estebanez 
RAPSÓDIA DE AMOR CIGANO
(Quarto fragmento)



Da mais alta colina dos vinhedos em floração
preciso proclamar ruidosamente a todo mundo
que é possível amar sem os arbítrios da razão...

A despeito de tudo, essa paixão foi concebida!
E ocultar mística evidência em sonho revelada
seria inconcebível tentativa contra minha vida...

No cume do meu coração tomado e pertencido
tua bandeira tremula no mastro de meus afetos...
E grito! para que todos saibam de mim próprio

o quanto o padecer por ti me condenou à vida...
Sortilégio de amor, querida! o outono nascerá
dessa esperança de jamais viver de despedida!

Afonso Estebanez 
RAPSÓDIA DE AMOR CIGANO
(Terceiro fragmento)



Sou pastor de teus sonhos pelo vale de minha
insônia... Nos murmúrios dos rios te conduzo
enquanto é noite ainda... e festejamos a vinda

do amor na aurora que ao amor foi prometida...
Ciranda de quimeras! Teu coração de menina
em meus abraços é o prenúncio de outra vida...

Tu pedirás que eu volte!... E voltarei, querida!
E trôpego já tarde em meus trêmulos sentidos
despertados nos lençóis febris de minha carne

– esse repasto de delírios em amálgama retida...
Ô, quantas horas e dias de exílio se arrastaram
no relógio do tempo que levou a minha vida!...

Afonso Estebanez