terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

A MAGIA DA EXPRESSÃO LITERÁRIA
OFICINA – MODULAÇÃO INTERATIVA - 10
*REVELAÇÃO DA TRANSITIVIDADE DO SER*


“FIAT LUX” – E a Luz se fez! Agora podemos continuar... Temos aguardado durante semanas até que venham a nós oportunas expressões de atitude, ânimo e coragem que possam servir de parâmetro ao ENTENDIMENTO de nossa proposta inicial, no sentido de que compor um poema (através de qualquer forma de expressão) é ‘REVELAR AO MUNDO EXTERIOR, SEM MEDO, UMA ATITUDE DA ALMA HUMANA, EQUIVALENTE À AÇÃO DE TRANSITIVIDADE DO SER, DO UNIVERSO ESPIRITUAL ATÉ O MUNDO EXTERIOR. Sem nenhum induzimento de ordem técnica, filosófica ou científica, as observações implícitas ou curiosas estão a nos prestar esse transparente testemunho, de grande auxílio para todos nós. É assim que pretendemos usar nossos próprios recursos, sem nos apegarmos demasiado às teorias acadêmicas já quase perdidas na neblina dos séculos precedentes. Com permissão, pois, tomemos como base algumas experiências de relevante valor literário e, com elas, devemos iniciar, desde logo, os módulos seguintes de nossa série. Já estamos preparados para isso... Poderíamos dizer que o nível de instrução e de conhecimento magníficos de muitos interessados pode ser usado não somente para nós iniciantes em literatura, como pode ser usado em nossas próprias vidas. O medo é um dos piores sentimentos, medo de errar, de não ser ‘aceito’, de desagradar. Ouvimos de uma poetisa quase pronta para desafiar as páginas de sua primeira experiência autoral: “Minha alma não tem medo. Eu escrevo com receio, como dizem alguns. No meu caso, receiava que eu tivesse que justificar o medo por falta de cultura. Quando eu lia os perfis de escritores , geralmente mestres em literatura, batia um medo terrível... a tal exclusão que o senhor explica bem. Mesmo assim eu escrevia porque eu sentia que perante meus amigos, eu era uma verdadeira escritora e com tempo deixei a timidez de lado e tudo que escrevo é com minha alma. Tudo que faço na vida é com o coração desperto desde menina e era motivo de criticas . Convivi com isso a vida toda, tentei ser diferente e aprendi que não me pertencia a opinião de pensadores, e assim eu não penso, eu sinto e ajo. Hoje depois de ler este módulo estou vendo que sempre caminhei pela maneira certa e ler que tenho ternura foi meu maior presente. Obrigada. Denise Taveira” (05/09/2009)”. Obrigado, em nome da Oficina. Com isso passamos a utilizar alguns textos que exaltem algum compromisso com a poesia, para situar, no texto, algo do que temos orientado até agora a respeito da psicodualidade da expressão poética material. É a trilha pela qual devemos tomar o rumo do que chamamos de ‘ESTILO’...

Afonso Estebanez 
DO TEMPO PARA AMAR
(Relendo Kohelet em Ec 3)


Espere o amor que traga mais amor
quando chegar o tempo de esperar.
Não plante espinhos no lugar da flor
quando ocorrer o tempo de plantar.


Restaure sem rancor a um desamor
quando assomar o tempo de chorar
e quando houver o tempo de louvor
louve o amor que reviva de exaltar.


Tudo chega a seu tempo concebido
como o relógio embora adormecido
desperta com as luzes da alvorada.


E se chegar o tempo de andar triste
expõe crer que a tristeza não existe
até que acabe o tempo da jornada.


Afonso Estebanez

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

DESCARNAVALIZAÇÃO

Quarta-feira de cinzas a euforia
deve sair de luto e pés no chão,
despojada do enredo à fantasia
que insiste na magia do refrão.


Há que de ofício efêmera a folia
se extasia no escárnio da ilusão 
de cáustico sarcasmo se inebria
e protesta de tanta indignação.


É hora de atirar cinzas ao vento
poupar o carnaval do desalento,
qual último clamor da multidão.


A mim, vou-me descarnavalizar
e me encantar feliz de repousar
naquela rosa que caiu da mão!


Afonso Estebanez
CERTAMENTE


Tu te apegas a mim
por sutil compaixão
certamente que sim
certamente que não


 Tu me afagas assim
por cordial devoção
certamente que sim
certamente que não


Meu amor vive afim
vive o teu do senão
certamente que sim
certamente que não


Teu olhar de jardim
não vê lírio no chão
certamente que sim
certamente que não


Meu amor é um fim
fixo em teu coração
certamente que sim
certamente que não


Afonso Estebanez 

sábado, 25 de fevereiro de 2017

VOLÚPIA
Minha volúpia é pelo amor que desconheço
como o amor que perdi no cais do coração.
Aquele amor do qual eu hoje ainda padeço
de forma que a volúpia agora é compulsão.

De sempre procurar o amor sem endereço
eu me embrenhei numa torrente de ilusão,
do amor já não entendo nada se esclareço
que a volúpia inconfessa é caso de paixão.

Fico eu pensando agora como antigamente
passava acumulando amor no inconsciente
encostado no último esplendor da aurora...

Então agora eu reconheço que a demência
é uma forma de esconder na inconsciência
que o amor acabou mas nunca foi embora!

Afonso Estebanez
A MAGIA DA EXPRESSÃO LITERÁRIA
OFICINA – MODULAÇÃO INTERATIVA - 09
*DESCOMPLICAÇÃO DE MÉTODO*


Demos uma puxadinha no freio de mão da ansiedade. Mantenhamos-nos em ‘estado de graça’, tolerância e paciência. É tudo de que alguém precisa para fazer os primeiros contatos com a poesia. Se não encontrar a poesia, a poesia o encontrará. Poesia é uma verdade ínsita na alma humana. É um fato consumado a cada instante. E quando os dois se encontrarem – Poeta e Poema - haverá celebração. NÃO EXISTE METODOLOGIA DESCOMPLICADA OU CARTILHA ESPECÍFICA PARA O OFÍCIO DE POETA. Há, isto sim, um mínimo de preceitos básicos a serem observados, sem os quais não se pode alcançar o público leitor que lhe dará, ou não, reconhecimento e aprovação. É isto que estamos enfatizando, sem esquecer o inevitável mergulho do pensamento nas águas profundas do mundo interior. Há a necessidade imperiosa de passarmos pela experiência da solidão, em que ninguém pode – e nem tem o direito – de dar conselhos ao poeta, para quem só existe o caminho da penetração em si mesmo, à procura da necessidade de escrever e compor. Um poema, como peça de arte, só é bom quando nasce por necessidade. Para ser poeta, portanto, é preciso ter CIO PERMANENTE. Por outro lado, não seria sensato transformar a Oficina Literária numa sala de aula virtual, a menos que se preste ela a fornecer ‘dicas’ de poesia para diferentes graus de escolaridade. Não deve ser por aí. Cabe ao INTERAGENTE voltar o olhar para o seu “INTERIOR”, não para o ‘quê’ nem ‘como’ diz o professor. Façam isso com simplicidade, humildade, sinceridade, cumplicidade e calma. Sejam generosos com a própria alma...

Afonso Estebanez 
AMOR NÃO É SÓ INSTINTO


Há ‘sábios’ que pontificam 
que amor é só um instinto
para os crédulos como eu.
Mas os ‘tolos’ contradizem
pois que amor só é instinto
para quem nunca morreu.


O instinto é só um sentido
da matéria a que pertence
com si mesmo não condiz.
O instinto conforta a fome
e se farta ao que consome
mas o amor me faz feliz...


O instinto não vive eterno
nada lembra após a morte
para sempre não se apraz.
Mas amor é dom da graça,
permanente após a morte
enche a min’alma de paz...


Afonso Estebanez
A MAGIA DA EXPRESSÃO LITERÁRIA
OFICINA – MODULAÇÃO INTERATIVA - 08
*EM BUSCA DE ESTILO*


No âmbito das orientações a que nos propusemos passar, ainda não atingimos a parte relativa à ‘estilística’ ou ao ambicionado ‘estilo’, matéria que deverá ser abordada mais à frente. Estamos ainda no a-bê-cê de nossos estudos, seja numa breve e sucinta explanação sobre ‘conceitos’ (ou ‘definições’ como querem alguns equivocadamente) de ‘poesia’ e ‘poema’. Todavia, vamos tentar prestar algum esclarecimento face às suas indagações, de modo que a todos aproveite. A oficina já forneceu aos seus interessados três módulos iniciais, que devem ser estudados, analisados e submetidos a um consenso quanto ao seu aproveitamento com eficácia. Desde logo já se tem observado que nós usamos o pronome de tratamento no plural, eis porque, nestas circunstâncias, não apreciamos os ‘eumismos’ como regra de comunicação ‘erga omnes’ (entre todos). Ao assunto: referindo-se a uma ‘Obra em prosa em que há ficção e estilo poético’, uma interessada no tema indaga: “Onde se enquadra o que faço? Acho que isso define o que escrevo. Não sei quanto ao estilo, mas acho que é por ai, estou certa?”. E depois, diante da colocação que fizemos, seja ‘(..) confessando-nos face a face com um enigma que, a despeito de todas as ciências humanas, de todos os conhecimentos adquiridos pelo homem e das experiências vividas em todos os tempos pela humanidade, continua enigma!’, a estimada amiga volta a indagar: “O que continua um enigma, não entendi?”. E, por fim, quando nos referíamos à ‘Magia da Expressão Literária’ como produto de habilidade, talento, equilíbrio e harmonia, a amiga interagente indaga mais uma vez: “(...) acredito que tenho habilidade, até talento, o que fazer quanto sinto que falta equilíbrio e harmonia? Me fala? Se transforma em que, em tentativas disformes ou egocentrismo?”. Bem, respondemos com o uso de texto da própria interagente: “(...) pra que a sensibilidade flua em contradança com o amor, transcendendo o espaço, o tempo, a alma, como um jorro de luz, num surgir absoluto, sem medo, sem vergonha, liberto, apenas humano, apenas... Ser!”. Destacamos a figura de linguagem: “... pra que a sensibilidade flua em contradança com o amor” (...). No texto em destaque, a interagente, consciente ou inconscientemente, usou um recurso técnico de estilística conhecido como ‘impressionismo’ literário, o que ocorre quando as sensações invocadas são reveladas sem qualquer análise ou investigação quanto à autenticidade dos estímulos, se reais ou ilusórios. Este recurso é usado para causar efeito meramente estético, sem nenhuma preocupação analítica quanto à lógica da expressão. Nele, a noção do tempo é imprecisa, como num eterno fluir. Em geral as frases são curtas, sem preocupação com o nexo gramatical. A maioria dos textos da referida interagente, senão todos, mostra-se tendente a um encontro não muito distante com o estilo impressionista, a despeito da ausência de evidentes ‘propósitos poéticos’ em seus escritos, mais reveladores de traços da personalidade literária, do que da exclusivamente poética. Nada mais podemos revelar, por motivos éticos e de respeito à ‘busca’ empreendida pela interessada. Lembra-me o insigne poeta viajante Tchello d’Barros: “Buscai primeiro uma poética pessoal e todo o restante vos será acrescentado!” Quanto ao uso do termo ‘enigma’, foi para situar a ‘definição objetiva do fenômeno da poesia’ no patamar da transcendentalidade: o que se diz de onde se encontra tudo o que ultrapassa os limites da razão extraída da experiência humana. Quanto ao ‘equilíbrio’ e à ‘harmonia’que a poetisa interessada sugere faltar-lhe, respondemos que não é bem assim, desde que se tenha a arte de escrever ‘sem medo’como resultado do longo exercício da mente em busca da luz da sabedoria baseada na simplicidade, na paciência e na lealdade de propósitos. Já que o Aristóteles estaria sendo vencido pela velocidade do poder da tecnologia da comunicação humana, celebremos, cada um no todo, o amor que o imortal filósofo grego sustentou: ‘NOS AMAMUS QUIA VISUM PLACET’ – A arte do amor ao que é belo, estético e eterno... 

Afonso Estebanez 
POEMETO ELEVADO AO INFINITO

Esse olhar de deusa
grega é teu, mas todo
o horizonte dele, é meu. 
Eis que tu me chegas
com esse luar na fronte
cujo brilho é minha ponte
que de ti vai dar no céu


E sobre o mar da vida
aquela ponte de amor.
Mas do outro lado de ti,
espera meu coração
e a felicidade caçoando
da minha ridícula 
indecisão...


Afonso Estebanez

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

SONETO DA MEDITAÇÃOA MENSAGEM DO CAIS


A MENSAGEM DO CAIS


Era uma noite escura, nevoenta e fria.
Logo iria raiar cinzenta a madrugada.
O frêmito da água contra o cais gemia
e sibilava o vento na canção magoada.

E ali estivemos com a alma derrotada
enquanto nosso amor ali se despedia.
Se tu morrias de saudade antecipada,
eu de saudade antecipada morreria...

E foi assim que a terra santa me tirou
aquele amor nunca vivido e me levou
à peregrinação cruel sobre o inferno.

E sofri da notícia dita ao maltrapilho:
“Ela partiu!”. E eu virei um andarilho
 até reencontrar o meu amor eterno!

Afonso Estebanez

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

PASTOREIO DE PALAVRAS


Componho versos como quem conversa
com palavras conjuntas de um rebanho,
se uma ovelha mais simples se dispersa,
é no aprisco da mente que me entranho.


É sangrado de espinhos que acompanho
palavras com a compreensão submersa,
e em regressão de mim eu recomponho 
o rebanho ao contexto em que regressa.


Reescrevo histórias como quem retorna
do pastoreio agreste em que transforma
no amor do encontro a locução domada .


Deus pastoreia em mim os pensamentos,
enquanto escrevo aos látegos dos ventos
se ao meu pastor não faltará mais nada!


Afonso Estebanez

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

SONETO DA MEDITAÇÃO


Pode ser que amanhã eu amanheça
às margens da enseada de teu leito,
que meu amor de pronto reconheça
os carrilhões de sinos no meu peito.

Pode ser que já noite eu remanesça
da entranha de um estigma desfeito
tal que me seja dado que adormeça
ao lado de teu sonho onde me deito.

Então eu meditando sobre a estrada
que a nós uniu no fim da caminhada
eu cri que aquele enlace era destino.

Sofreste a dor do adeus naquele cais
e o que assomou das eras medievais
é a redenção do amor em desatino...

Afonso Estebanez

domingo, 19 de fevereiro de 2017

A MAGIA DA EXPRESSÃO LITERÁRIA
OFICINA – MODULAÇÃO INTERATIVA – 07
*OPÇÃO PELO CONCEITO DE POESIA*


Ao tratarmos do assunto ‘conceitos de poema e poesia’ no módulo pertinente, abrimos um horizonte necessariamente vasto à penetração do nosso próprio pensamento a respeito desse fato cultural, na expectativa de que, a qualquer momento ou em algum lugar da história da arte literária, devemos encontrar alguma similaridade entre os conceitos já firmados pelos estudiosos do assunto e o nosso conceito individual próprio a despeito do mesmo tema, até hoje tido como um ‘enigma’. Isto é proposital e tem finalidades didáticas ao estudo ‘simplificado’ e ‘sem medo’ da arte de escrever. Vimos que os dicionaristas/filólogos – principais responsáveis pela definição objetiva do fenômeno milenar da poesia – não deram conta de uma definição pacificadora do termo cantado e decantado pelos gregos. Vimos também que os estudiosos professos se arriscam a uma ‘explicação’ singular da poesia, mas lhe não conferem caráter de ‘definitividade’, como soe acontecer com os princípios da matemática e da física. Nossos estimados interessados definem: ‘A poesia, é uma arte de escrever em versos com emoção e muita sensibilidade, e somente pessoas divinamente agraciadas com esse dom são capazes de grandiosas obras literárias’. Eis a excelência de sua ‘atitude’. Podemos afirmar até que POESIA É UMA ATITUDE DA ALMA HUMANA. Mas já abordamos o assunto no módulo adequado, que já esteve em andamento nesta Oficina. Porém, não sem antes revelar antecipadamente aos estimados amigos escritores que sua definição pessoal de poesia é uma das que mais tem-se aproximado do conceito que desde então passamos a adotar, com pequenas restrições: “Forma de expressão linguística em que se revela uma particular visão do mundo, apelando mais para a emoção do que para a inteligência, através de uma seleção vocabular essencialmente metafória” (Antônio Houaiss, in ‘Pequeno Dicionário Enciclopédico Koogan Larousse’, Editora Larousse do Brasil, 1987, Rio de Janeiro). Até lá, estimados seguidores interessados.

Afonso Estebanez 
CHUVA DE ROSAS


A abóboda do templo era pintada
de céu azul com anjos bizantinos.
Da marcha nupcial já consumada
ouvia-se o tom triste dos violinos.

Mas um dilema trai a diva amada
no ato da união de seus destinos,
e o coração confesso em abalada
sorte, rompe os enigmas sibilinos.

Eis a outrem amava além da vida
e não ousava mais ser pertencida
a amor a quem devia dizer ‘não’.

De repente seus lábios cor de mel
sorriram para o que vinha do céu:
uma chuva de rosas vem ao chão!

Afonso Estebanez
ENTRE A FLOR E A LUZ 


Acredito que a maioria dos humanos adquiriu, por instinto ou cultura, desde o nascimento, o hábito de ver as coisas de fora para dentro, sem que consigam observar um terço do que se encontra no profundo delas. Como acontece com o cérebro condicionado. Preocupado com isso, desde a infância, eu procurava, em silêncio e conscientemente, enxergar as coisas ao meu redor de dentro para fora. Foi quando descobri a poesia que defino como a alma de dentro para fora. Acontecia de eu observar subjetivamente o que, segundo o imaginário, era objetivo. Olhava-me no espelho e observava se eu era mesmo aquela imagem que via ou se eu era apenas aquela imagem que eu pensava que via. Portanto, eu não falo nem vejo através de códigos. Eu 'penso' em códigos, na maioria das vezes poéticos. E dava uma olhadinha em Paulo, Coríntios 13, 1-13 para ‘pensar o amor’ como atitude da alma.


Nunca escrevo nada que possa parecer solução. Solução é dever de casa obrigatório, não servindo a ninguém que não medita sobre o resultado a serviço dou outro ser humano. A pergunta, sim, faz com que me questione a mim mesmo, como a relação mais importante do meu questionamento. Estou divulgando esta mensagem para meus semelhantes, já que o maior inimigo do espírito é o medo! Em minha busca, o encontro está em que devo me convencer de que o medo não faz parte de mim. Na imagem de uma rosa vermelha sob a luz das velas pode haver a ilustração desta descoberta. Não é a luz das velas que dá existência à rosa, é a rosa, com sua luz própria, que exalta a possibilidade de existência material da luz das velas. Então, a rosa é o sujeito mais importante da relação entre a flor e a luz, elucidando-me que “Poesia é a alma de dentro para fora”...



Afonso Estebanez

sábado, 18 de fevereiro de 2017

SOBREVIVENTE DOS TEMPOS DE FELICIDADE


Porque o amor é misericordioso é que ainda sou um sobrevivente dos tempos de felicidade. Um tempo em que o segredo do coração era que nossos corações nos pertenciam, mas ainda não sabíamos. Um tempo em que o silêncio de meu pranto me ensinava a escutar os sinos tocarem na catedral do coração amado. Um tempo em que o amor era o salário que Deus me pagava em dobro pelo penoso ofício de sonhar. Um tempo em que o coração falava de sentimentos que somente a alma podia perceber, como a ternura que se deita no espírito da paz tal como a ave que se aninha nos ramos da brisa. Meu coração andava onde andava o coração amado, de tal sorte que, pulsando juntos, nossos corações entoavam uma canção de amor inesquecível. Então eu sou um sobrevivente dos tempos de felicidade...

Afonso Estebanez
CREDO DE AMOR ETERNO


Eu creio na ressurreição da vida
como forma de superar a morte
da repressão ao fraco desta lida
pela casta egoísta do mais forte.

Creio na aventurança concebida
mesmo doada como a boa sorte
que tenho na morada prometida
onde haja fé e ao amor conforte.

Eu creio na “medida do possível”
de seres despojados de vontade
de duvidar da mística do inferno.

E creio que é possível para Deus
realizar alguns dos sonhos meus
como sagrar o meu amor eterno.

Afonso Estebanez

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

A MAGIA DA EXPRESSÃO LITERÁRIA
OFICINA – MODULAÇÃO INTERATIVA - 06
*A INICIAÇÃO DE MARY LOVELY*


Vemos que seu impulso poético inicial já emergiu. E emergiu exatamente de onde devem emergir as primeiras manifestações da alma na seara da poesia. Indague-se sempe: “Morreria, se não me fosse permitido escrever?”. Principalmente isto, diz Rainer Maria Rilke – já citado aqui – em ‘Cartas a um Jovem Poeta’. “Na hora mais tranquila da noite – continua o mais autorizado poeta da língua alemã do século XX – faça a si esta pergunta: ‘Sou de fato obrigado a escrever?’ (...). A sua existência, mesmo na hora mais indiferente e vazia, deve tornar-se sinal e testemunho de tal impulso. Aproxime-se, então, da natureza. Depois procure como se fosse o primeiro (ser) a dizer o que vê, vive, ama e perde. Não escreva poesias de amor. Evite, de início, os temas demasiado comuns: são os mais difíceis. Nos assuntos em que tradições seguras, às vezes brilhantes, se mostram em grande número, o poeta só pode realizar obra pessoal na plena maturidade da sua força. Fuja dos grandes assuntos e aproveite aqueles que o dia-a-dia lhe oferece. Fale das suas tristezas e ou alegrias, dos seus desejos, dos pensamentos que o tocam da sua fé na beleza. Utilize, para se exprimir, os objetos que o rodeiam, as imagens dos seus sonhos, as suas lembranças. Se o cotidiano lhe parece pobre, não o acuse: acuse-se a si próprio de não ser muito poeta para extrair as suas riquezas. Para o criador nada é pobre, não há lugares mesquinhos e indiferentes. Mesmo num cárcere cujas paredes abafassem todos os ruídos do universo, não lhe ficaria sempre a sua infância, essa preciosa, essa esplêndida riqueza, esse tesouro de recordações? Volte, para esta direção, o seu espírito. Procure fazer regressar à superfície as impressões submersas desse longínquo passado. A sua solidão povoar-se-á, tornando-se nas horas incertas do dia, uma espécie de moradia fechada aos sons exteriores”. Esta é a sua seara inicial ao plantio da boa semente da poesia!...

Afonso Estebanez 
PERFUME DE DAMA DAS CAMÉLIAS


Não há no coração suficiente espaço
à paixão cortesã no leito despertada
com o perfume extasiante do regaço 
da dama das camélias penitenciada.


É místico perfume de época passada
exalado do beijo indômito do abraço
que faz do eleito sua presa libertada
do desafeto hipócrita quiçá devasso.


Perfume isento de pretérito obscuro,
só pode ver como será o amor futuro
de uma cortesã tão bela como a flor.


A dama das camélias cria a ideologia
da amorização humana e essa magia 
da ideologia de dominação do amor.


Afonso Estebanez 

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

CANÇÃO DE KÉDMA


A Kédma chegou-me aqui
do lado esquerdo do peito
e deixou-me uma canção.
Foi tão suave o que ouvi:
o canto do amor-perfeito
entre o peito e o coração.

Nem precisei entendê-la!
Era a voz do cancioneiro
que há nas harpas do luar.
Foi o dom de conhecê-la
e a canção do jardineiro
que escuta a rosa cantar.

E ela é tão doce e louçã
como a fada concebida
no perfume do jasmim.
Kédma acorda de manhã
como quem entra na vida 
pela porta de um jardim.

Docemente me convida
pra viver dentro de mim.

Afonso Estebanez
O JULGAMENTO

Submetido ao látego do julgamento 
aquele homem prestava depoimento 
sobre tudo o que sabia sobre a vida.
Falou de fé e esperança e caridade,
falou de fraternidade e de felicidade 
e dos ideais de solidariedade humana.
E não havendo mais do que falar,
calou-se como ave que cai do céu...

E recebeu então a cruel indiferença 
como sentença irrecorrível dos mortos.
De repente aquele homem tão simples
pôs-se a falar a falar a falar e a falar
COISAS DE AMOR como quem cria 
na remota possibilidade dos milagres.

E aquele tribunal acabou acreditando
nele porque falou do que nem sabia. 
E aquela foi a única vez em sua vida
que aquele homem falou de amor
com infinita sabedoria...

Julis Calderon d'Estéfan
(Heterônimo de Afonso Estebanez)

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

DEMAGOLOGIA DO DISCURSO NACIONAL 


Se é mais fácil
um camelo passar no fundo de uma agulha
um bom ladrão roubar o paraíso
o galo cantar três vezes
sem que alguém haja mentido
do que adentrar no reino dos céus
um rico
um pulha
ou um político...

O condomínio do meu edifício
o porteiro e aquele síndico antipático
são a expressão mais-que-perfeita
da comunhão de idéias publicadas
no DO de 21 de dezembro de 1964.

Se todos os homens
nascem livres e iguais perante a lei
com direito ao trabalho e à justiça
dotados de razão e consciência,
comigo vai ser assim:

... os negros passarão a usar o elevador social
o jogo-de-bicho será legalizado
controlarei a chuva no nordeste
imporei os preços dos produtos de exportação
proclamarei anistiados os escravos exilados
nas masmorras servis do ventre livre
condecorarei os cavalos dos republicanos
farei chegar a general o soldado raso
tal e qual o Bateau Mouche naufragou
escandalosamente por acaso.

... Ninguém será mantido na escravidão
ou submetido a qualquer forma de tortura
injustamente preso ou acusado de qualquer
delito por mera presunção até que prove
a inocência violada...
Eu lhes asseguro:

.. que essa dívida externa não será mais paga
com o sorriso desdentado da fome patriótica.
Que nossas filhas irão virgens para o altar
que todos os caminhos irão dar em Roma
que nossas mães hão de sempre sofrer num paraíso
que a autoridade papal será sempre infalível
que fazer um discurso deste era preciso!

E lhes asseguramos
que as nações estão decididas a reafirmar a fé
nos direitos fundamentais do ser humano,
cerzindo a paz com os laços insuspeitos
da autodeterminação dos povos
com liberdade, igualdade e fraternidade...

Do povo se ouvirá o herói-cobrado retumbante
às margens do Ipiranga ainda tão plácidas...
A ti, correligionária amada! Serei fiel ao menos
até que a morte nos separe. Os meus testículos-de-cão
serão eternamente teus...
Liga não, mês que vem a inflação será contida
e daremos tudo aos pobres para emprestar a Deus!

E lhes asseguro mais:
Quem cometer delito contra a natureza
será punido
com pena
de prisão de quinze dias a três meses
(apenas).

Porque a justiça é falha, mas não tarda!
– assim falava Zaratustra,
porque dizia Virgulino
que Maria Bonita é quem mandava.

Mas lhes asseguro ainda:
os governantes não são de constranger o povo
após haver-lhe reduzido com medidas provisórias
a fonte constitucional de resistência...
... Nunca no GATILHO
... Nem na usURPAÇÃO
... Nem após simbólica ameaça
de lhe causarem condição injusta
no cárcere privado
da liberdade anônima de expressão...
... Nem mesmo pelo enforcamento
da consciência nacional
no pendão da esperança
a meio-pau!

E eu,
neste país
... de atenciosas saudações
... de ímpar consideração
... e de elevado apreço,
de escassas camisinhas
e calcinhas de veludo...

Eu prometo
se for eleito
fazer tudo-tudo pelo social...
Botar somente a cabecinha...
Atirar a primeira pedra
e (a) tirar o Zé Mané do trem
e o Severino do ca (n) gaço
onde ele sempre se meteu.
Vou ajeitar para o Raimundo
(que é meio-parente meu)
ser funcionário em Medellín...
Se por cá only love save,
? porque lá não é assim...

Todo (o) poder emana do povo
e em seu nome será exercido
até que outro mais forte se alevante...
Vou desviar essas enchentes
declarar o sertão perdido
nomear o Chico Mendes
capataz do paraíso...
Camuflar os nordestinos
pra não serem reconhecidos...

Isso eu prometo.
A causa é nobre.
Tá decidido!

Se correrem um rico e um pobre,
o rico será detido.
Comigo vai ser assim...
Vote em mim!...

Afonso Estebanez 

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

A MAGIA DA EXPRESSÃO LITERÁRIA
OFICINA – MODULAÇÃO INTERATIVA - 05
*UM MERGULHO NA ALMA*


Sempre respondo a quem me pergunta: nada mais difícil de definir do que as obras de arte, que a Rainer Maria Rilke – um dos mais importantes poetas de língua alemã do século XX – pareciam ‘seres misteriosos cuja vida imperecível acompanha nossa vida efêmera’ (in Cartas a um Jovem Poeta). A propósito de algum aconselhamento em face de alguns textos, preferimos adotar a postura do Rilke quando instado – por um jovem poeta – a fazê-lo: ‘Ninguém – enfatiza o autor de ‘Duineser Elegien’ - pode dar-lhe conselhos nem ajudá-lo – ninguém! Só existe um caminho: penetre em si mesmo e procure a necessidade que o faz escrever. Observe se esta necessidade tem raízes nas profundezas do seu coração (...). Examine-se a fundo, até achar a mais profunda resposta (...). E se lhe vierem versos deste regresso a si próprio, deste mergulho no seu cosmo, não pensará em indagar se são bons ou não (...), porque desfrutará deles como de uma posse natural, como de uma de suas formas de vida e expressão. Uma obra de arte é boa quando nasce por necessidade. É a natureza de sua origem que a julga’. Então, este o conselho: ‘mergulhe em si próprio e sonde as profundidades de onde jorra a sua vida. Só desta maneira encontrará resposta à pergunta: “Devo criar?”. De tal resposta recolha o som, sem desvirtuar o sentido. Talvez chegue à conclusão de que a arte o chama. Neste caso, aceite o seu destino e siga-o, com o seu peso e a sua majestade, sem jamais exigir uma recompensa que possa vir de fora. (...) Que mais poderei acrescentar? Acredito ter abordado o essencial. No fundo, apenas fiz questão de aconselhar a quem me pergunta, a progredir segundo a sua lei, de modo grave e sereno. Não lhe seria possível perturbar mais violentamente a sua evolução do que dirigindo o seu olhar ‘para fora’, do que esperando ‘de fora’ as respostas que apenas o seu sentimento mais secreto, na hora mais silenciosa, poderá talvez proporcionar-lhe’.

Afonso Estebanez
DÉJÀ VU: MÉMOIRE D'AMOUR


Não vou contrariar o dogma da vida
se a vida afaga o desafio de morrer,
se a profecia imperecível prometida
faz renascer o amor eterno de viver.

Aquela cena amargamente repetida
no mesmo sonho se reflete para ver
da paixão que vivi agora ressentida
o despedir na solidão do entardecer.

É místico ao amor eternizar o tempo
desatendendo o fatalismo desatento
que desta vida pela morte me desfiz.

E minha amada me jaz vívida na luz,
se do lado da morte ainda me seduz
do outro lado da vida ela me faz feliz.

Afonso Estebanez

domingo, 12 de fevereiro de 2017

SEGREDOS DA INSÔNIA


Até que a noite faça agonizar-me o sono
meu coração ainda insiste em pressentir
ruídos de batidas nos porões da insônia...
Mas sei que me é possível resistir!

São pesadelos reencarnados do passado
morto... Fantasmas de navios ancorados
nos cais abandonados das ilhas de mim...
E sei que me é possível resistir!

Até que em morte acorde e eu adormeça
ainda sinto adormecidas sensações de ti...
De um lugar assombrado em minha vida
de onde sei que é possível resistir!

Ô, mulher-menina que perdi na infância
canção de bem-querer do quanto padeci...
Uma certa saudade vadia sem distância
e ainda assim me é possível resistir!

Até que essa lembrança enfim me esqueça
há noites de desterro do amor que não vivi.
Pode ser exaustão de luz na lâmpada acesa...
E ainda assim me é possível resistir!

Contorno a direção da porta, transtornado.
Pode ser um carteiro noturno e devo abrir.
Pode ser o domingo retornando ao sábado...
E ainda sei que me é possível resistir!

Talvez um corpo astral de aeronauta ainda
meu duplo que retorna antes de prosseguir
na fé dos missionários da esperança finda...
E ainda me é possível resistir!

Porém vou levantar-me lentamente agora
e reescrever os últimos versos que escrevi.
Depois vou caminhar devagar até a porta...
Pois não é mais possível resistir!

Permitir que me banhe a claridade do luar
como a alvorada inaugural o ultimo porvir.
Por trás do reposteiro um anjo me convida
e não é mais possível resistir!

Guardo as fotografias dos parentes mortos.
Depois conforto meus sentidos sem sentir...
Os versos falam já transcritos na memória
que é quase impossível resistir!

E antes que o coração em cânticos pereça
devo afinal abrir a porta, morrer e desistir...
Como a hora desiste do relógio sonolento
sem tempo agora para resistir!

Eu me absolvo de afogar-me em lágrimas
se é para sempre que esta noite vou partir...
Vou perder-me entre a linha do horizonte
e viver e sonhar e morrer sem resistir!

Como vivem os lírios dos campos...
Como sonham os pássaros da paz...
Como ama o amor os desencantos...
E morrem os heróis sem desistir...

Afonso Estebanez