quinta-feira, 29 de junho de 2017

SOBREVIVENTE DOS TEMPOS DE FELICIDADE


Porque o amor é misericordioso é que ainda sou um sobrevivente dos tempos de felicidade. Um tempo em que o segredo do coração era que nossos corações nos pertenciam, mas ainda não sabíamos. Um tempo em que o silêncio de meu pranto me ensinava a escutar os sinos tocarem na catedral do coração amado. Um tempo em que o amor era o salário que Deus me pagava em dobro pelo penoso ofício de sonhar. Um tempo em que o coração falava de sentimentos que somente a alma podia perceber, como a ternura que se deita no espírito da paz tal como a ave que se aninha nos ramos da brisa. Meu coração andava onde andava o coração amado, de tal sorte que, pulsando juntos, nossos corações entoavam uma canção de amor inesquecível. Então eu sou um sobrevivente dos tempos de felicidade...
Afonso Estebanez
MALMEQUERES, BEM-ME-QUER?
(haikais)





Virtudes humanas
são como os frutos mais altos...
Colhem-se a pedradas.

E para que as flores,
se me feres com espinhos
quando te dou rosas?

Barcos... Ah, os barcos!
Açoitam com suas quilhas
as ondas que os beijam!

Visitei o amigo
para celebrar a paz.
E perdi a minha...

Refúgio de lágrimas,
meu velho salgueiro ensina-me
a chorar sozinho...

 Afonso Estebanez  

domingo, 18 de junho de 2017

DESCAMINHOS


Eu sabia que há cem caminhos nesta vida
que entre todos só um chega à felicidade.
E eu escolhi só um, mas n‘alma apetecida
há dos noventa e nove inúmera saudade.

Saudade das paixões de minha mocidade
de uma canção secreta que ficou perdida
dos cândidos amores ledos sem maldade
saudade de uma aflita escolha preterida.

Já sabia também haver dos descaminhos
triste saudade empática dos passarinhos
que o ninho deixam sob cânticos de paz.

Por saudade eu sabia até do que não sei,
como uma valsa triste que jamais dancei
mas dançaria se vivesse um pouco mais.

Afonso Estebanez
(Baseado in “Encontro Marcado”
de Fernando Sabino -18.06.2017 - 20:30)

quinta-feira, 15 de junho de 2017


PROPOSTA SEM RESPOSTA

Na mão do lado esquerdo que te abraça
meu coração se apressa em vã proposta
mas o teu ponto cego em vão me enlaça 
e me apraz de esperanças sem resposta.

E eu só propunha ao teu amor por graça
servir o afeto que em meu peito encosta
tal qual saudade enferma que não passa
até que eu volte em prantos à tua porta.

Mas tanta ausência ao fim mais desatina
minha aparência inquieta que me inclina
a me embrenhar em teu prazer sem véu.

Pois se ao mundo não nos for dado amar 
vibraremos do amor que há além do mar 
ou no oceano de estrelas que há no céu!

Afonso Estebanez
(15.06.2017)

quinta-feira, 8 de junho de 2017

PRISIONEIRO


Prisioneiro é um servo que carrega
toda culpa do mundo inconfessada
ser hercúleo bravio que se enverga
à quem se curva à incúria relevada.

É o que mora no mar e não navega
é quem se apraz da alma decorada
quem se olha para si e não enxerga
e se mira no espelho e não vê nada.

Prisioneiro é quem jaz de si perdido
é quem tem uma causa sem sentido
quem ultraja onde todos são felizes.

É quem vive algemado sem algemas
num calvário de lágrimas sem penas
das torturas de amor sem cicatrizes.

Afonso Estebanez

terça-feira, 6 de junho de 2017

MARIAH


Ah, se me fosse dado porventura
voltar como renasce a primavera
gerando um anjo feito de ternura
que se dizia sem dizer quem era.

Meu coração antigo inda me cura
da ânsia desta lida que te espera
onde me cuidarás com tal doçura
o quanto tua luz for outra esfera.

Pude saber pelo anjo que chegou
sob a luz tênue que o luar deixou
que seria refém destes instantes.

Vejo hoje que nasceste para mim
como a última flor do meu jardim
que refloriu porque viestes antes!

Afonso Estebanez
(Poema especial que dedico a minha
amada neta que há muito tenho esperado
Mariah Pinho Estebanez Stael
por quem Deus tem me comovido
com Seu inefável amor – 18.10.2016)

domingo, 4 de junho de 2017


MARIAH

Ah, se me fosse dado porventura
voltar como renasce a primavera
gerando um anjo feito de ternura
que se dizia sem dizer quem era.

Meu coração antigo inda me cura
da ânsia desta lida que te espera
onde me cuidarás com tal doçura
o quanto tua luz for outra esfera.

Pude saber pelo anjo que chegou
sob a luz tênue que o luar deixou
que seria refém destes instantes.

Vejo hoje que nasceste para mim
como a última flor do meu jardim
que refloriu porque viestes antes!

Afonso Estebanez
(Musa recomendada ao meu sensitivo
coração em *18.10.2016*)

ALMA DE PLEBEU


Já ébrio eu regressei de muita festa
sob os clarões de luas embriagadas
com a alma oprimida em manifesta
sensação de venturas naufragadas.

Meu espírito a mim nunca contesta
por me sentar às mesas reservadas
pelas moscas azuis de alma funesta
da qual eu já levei muitas porradas.

Rasputin, cá estou com inclemência
 resistente aos bafejos da opulência
assistindo o crepúsculo dos nobres.

Nobres!... meros agentes funerários
que douram seus jazigos milionários
exumando os cadáveres dos pobres.

Afonso Estebanez
(Versão reparada)

sábado, 3 de junho de 2017

ALMA DE PLEBEU

Já cheguei bêbado de muita festa
numa dança de luas embriagadas
com a alma cegada em manifesta
sensação de venturas canceladas.

Meu espírito às vezes se contesta
por eu sentar às mesas ocupadas
pela realeza azul de alma funesta
de onde já levei muitas porradas.

Rasputin, cá estou trás da cortina
alma sóbria ao bafejo da propina
extinta no crepúsculo dos nobres.

Nobres! esses agentes funerários
que eternizam jazigos milionários
exumando cadáveres dos pobres.

Afonso Estebanez

terça-feira, 30 de maio de 2017

A IDADE DA SAUDADE


A saudade se encosta na memória
e se elege guardiã de sentimentos
entre eles uma súmula da história
relativa a meus líricos momentos.

Saudade de jamais ter visto glória
por amar sem doer padecimentos
saudade de vencer sem ter vitória
qual a alegre cigarra nos relentos.

Saudade das saudades de te amar
à sombra do vinhedo e no pomar,
saudade do que quis e que não fiz.

Saudade que se mata sem morrer
saudades com saudades de te ver
mais saudoso e capaz de ser feliz.

Afonso Estebanez

domingo, 28 de maio de 2017

A DAMA DA ROSA ESCARLATE


Ela me disse: “... eu trago a tua cura
para as chagas do mal inconsciente
que não julgas ser fel e nem doçura
seja refém de algum amor doente”.

Tão evidente me era em formosura
numa dança ritmada sensualmente
que a entidade a transmitir ternura
ensejou-me provar o amor ardente:

“Podes beijar-me!”- disse. “A cigana
é chama de paixão sem ser profana
como a alma embriagada de pudor.

Cunha a rosa escarlate num poema
que o perfume dissipa o teu dilema
se tua causa for um grande amor!”.

Afonso Estebanez

sábado, 27 de maio de 2017

AO CREPÚSCULO 


Amada, esse crepúsculo da vida
é a nossa noite sepultando o dia
que envia à melancólica partida  
mais tristeza do que melancolia.

Vivemos numa aurora desistida
entre os astros sem aura luzidia
em nostálgica sensação provida  
mais de delírio que de nostalgia.

Nós perdemos a bússola celeste
a carta náutica de nossos mares
o júbilo de quem está chegando.

Amor, quiçá do luto se nos reste
a saudade dos cios nos pomares   
e a lida de vivermos navegando.

Afonso Estebanez