domingo, 31 de janeiro de 2010

SONETO DA DESPEDIDA

Foi necessário que chovesse tanto
para que tanto mais o sol voltasse
a refletir a luz que a dor do pranto
inundou de penumbra minha face.

Foi-me defeso ressentir do quanto
sob a cinza do amor em desenlace
ainda me encantaria o desencanto
se esse rio de mágoa não secasse.

Não refaças o curso dos meus rios
nem acenes ‘adeus’ para os navios
de sonhos idos do meu velho cais.

Não levo nada... Só a necessidade
que ainda tenho de sentir saudade
dos teus momentos lívidos de paz.

Afonso Estebanez

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

BALADA PARA ZILDA ARNS

Hoje eu poderia morrer por tua causa
eu poderia até morrer de amor por ti.
Mas teu amor aflito me dá uma pausa
para morrer de amor maior por Haiti.

Só uma dor profunda sente tanta dor
maior que todo sofrimento que senti:
é a solidão da morte de não ter amor
o new apocalypse que varreu o Haiti.

Nós hoje poderíamos mudar o sonho
eu a dogmática verdade que aprendi
e tu a biografia obscura do medonho
apartaid racial que segregou o Haiti.

Hoje eu deveria viver por uma causa
que celebrasse a glória de viver aqui.
Porém a dor é tanta que parece rosa
sob os escombros ardilosos do Haiti.

Afonso Estebanez

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

SOB A LUZ DA ALMA

Não posso ver o teu mundo
com o olhar sem ver o meu
se estou no limbo profundo
da luz que o cosmo perdeu.

Mas se tanto me aprofundo
em teu fado onde estou eu,
enxergo o encanto fecundo
do mundo que agora é teu.

Pois o amor é essa inversão
que impõe ao sonho a razão
de crer mesmo sem querer,

sob um tênue véu de calma
tu te ocultas na minha alma
de onde a luz me faz te ver.

Afonso Estebanez
(Dedicado a Tania Sá
– tão gentil amiga)

domingo, 10 de janeiro de 2010

LEMBRANÇAS DE PAQUETÁ

Paquetá! – aqui estou de face revelada
ao fado de rever-te se ora me destinas
tua história de amor e glória recontada
no diário natural de tuas obras-primas.

Tenho saudade da saudade antecipada
que já sentia da canção das casuarinas
ao desmaiar no alvor da lua repousada
a luz do dia à flor das águas cristalinas.

Paquetá! – infinita luz entre dez milhas
de auroras e crepúsculos tintos de mel
de flor de flamboyant e banhos de luar.

Esmeralda pendente do colar das ilhas,
parte de um paraíso que restou do céu
d’algum éden celeste que caiu no mar.

Afonso Estebanez

Despedida...

Perdi meus rastros...
foram cobertos pelas areias do seu espaço.
Nas áridas paisagens do seu desapego
sofri a inanição dos meus desejos
e a perdição de seus abraços.

Era para ser imenso...
o amor que via em seus afagos.
Porém, nas dunas de seus beijos,
colhi o veneno do desprezo
sendo presa de seus laços.

Se pede amor por inteiro...
devia entregar-se por completo.
Do mar alto da desilusão,
com tristeza me despeço
o coração já aos pedaços.

Entre nós e o horizonte...
fica o silêncio do amor dos pássaros.
Que perdure tão curta a eternidade,
seja eterno o instante desse amor
restado de tão breves traços...


Juleni Andrade & Afonso Estebanez

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

FELIZ ANO NOVO

Ano novo deve ser apenas um novo ano
daquele velho motivo que todos os anos
faz a gente pensar que este ano vai ser
feliz... Mas ainda é o velho tema...

Apenas sensação de permitir que sonhos
mortos enterrem os seus sonhos mortos,
enquanto a gente desperta antigas rosas
das que ainda permanecem adormecidas
nas páginas jamais abertas do jardim...

E nada de brincar de novos sofrimentos.
Ainda há muita amargura que necessita
de um funeral compatível com a liturgia
da cura pelos perdões não concedidos...

Então, depois de removida tanta pedra
desses túmulos todo ano reinventados,
a gente deseja apenas que o ano velho
acompanhe este ano novo no momento
de entrar pelas soleiras do coração...

Sementes de amor numa das mãos
e uma flor despojada dos espinhos
na outra mão...

A. Estebanez

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

FACES DA LIBERDADE

Perder a sensação de ver a luz.
O jeito certo de viver por mim.
Ou perder os lugares onde pus
o meu direito de pensar assim.

O mundo é isso aí: amor e cruz
e vaidades na torre de marfim!
Da liberdade apenas nos seduz
esse canto de rosas no jardim.

Perder momentos de felicidade
é não ouvir cantar a primavera
na brisa fria da razão sem voz.

E se dá por perdida a liberdade
se o medo de viver virar a fera
que se regala de viver por nós.

Afonso Estebanez
(Dedicado ao notável poeta e amigo
Manoel Virgílio Pimentel Côrtes)

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

NESTE NATAL...

Não deixes de mandar-me rosas
só por causa dos seus espinhos!
Entre as que são mais dolorosas
há intervalos para os carinhos...

Sei que às vezes são espinhosas
as bromélias de meus caminhos!
Mas não me prives de tuas rosas
só por causa dos seus espinhos!

Hoje eu quero rosas vermelhas,
rosas rubras como as centelhas
das chamas da lareira em paz...

Ah, e eu também te envio rosas
dentre tantas as mais formosas
do bem que o teu amor me faz!

Afonso Estebanez
(Natal de 2009)

MEMÓRIA DE PAQUETÁ (Improviso)

Paquetá é como um sonho
que não quis mais acordar
das alfombras do rebanho
das ondas verdes do mar.

Se não for sonho, acredito
que um dia eu vivi por lá...
Ou então é o meu espírito
por quem sonha Paquetá.

As canções dos arvoredos
repousam no pensamento
como se fossem segredos
de amores daquele tempo.

Mesmo eu estando por lá
a saudade ainda me vem
como a sombra do baobá
no caminho de meu bem.

Me vens de alma iluminada
como as vestes de uma flor
não dependo de mais nada
senão do encanto do amor.

São praias das moreninhas
que nas marés do teu olhar
carregam saudades minhas
em que tu vens te banhar...

Afonso Estebanez
(Dedicado com carinho à doce
amiga Ana Luiza nesta viagem
à Paquetá - A Ilha da Poesia)

AUSÊNCIA DEFENSIVA

Estou sempre em qualquer lugar
onde eu penso sem pensamento
porque o tempo passa no tempo
sem que o sonho possa esperar.

Estou sempre em qualquer lugar
onde o pranto chora sem mágoa
murmuram os riachos sem água
navegam meus barcos sem mar.

Estou sempre em qualquer lugar
onde os jardins crescem abertos
sem sucumbir como os desertos
onde ninguém vai me encontrar.

Estou sempre em qualquer lugar
despertando as minhas ternuras
dentre as pedras das amarguras
que me lançam querendo amar.

Afonso Estebanez

O AMOR E O TALMUDE

Meu amor, ser feliz é quando olhamos
para o passado e não sentimos remorso
do que fomos.

Teremos vivido de amor – o pão e o vinho
com que celebramos a volta e o recomeço
dos percursos breves desta vida.

E ainda que te sintas vencida pelo cansaço
da distância percorrida entre a luxúria
e o arrependimento dos fracassos,
regressa outra vez à nossa casa
– ao menos até a metade do caminho
restaurado dos sonhos em pedaços...

A outra metade,
eu te carregarei entoando salmos
na carruagem de plumas
de meus braços...

Afonso Estebanez & Julis Calderón

PRÓLOGO & EPÍLOGO

Nascer não é ser a verdade.
Nascer é apenas a memória
do epílogo de nossa história
num prólogo de eternidade.

Viver não é não ter morrido.
Viver é apenas um profundo
e efêmero passar no mundo
sem precisar ser percebido.

Morrer não é não viver mais.
Morrer é a solidão da espera
num lugar onde a primavera
não nos acorda nunca mais.

Afonso Estebanez