quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

A MAGIA DA EXPRESSÃO LITERÁRIA
OFICINA – MÓDULO 07
DA ARTE DE ESCREVER SEM MEDO
*UMA FORMA POÉTICA DE VER A VIDA*


“FORMA poética de ver a vida” é um texto de grande utilidade cultural, postado em 02/07/2009 por Kelly de Souza – exuberante analista da arte literária – no amplamente conhecido Blog da Cultura. Apresentamos o referido texto integralmente, pois nele o talento de Kelly de Souza nos parece um feliz resumo da matéria focada no módulo anterior. Uma forma poética de ver a vida é tudo o que estamos tentando incutir na mente dos que ousam fazer poemas, numa ATITUDE DA ALMA SEM MEDO dos mitos e tabus das regras técnicas petrificadas ou de quaisquer outros bloqueios culturais inadequados à arte contemporânea. Senão, vejamos:

“VOCÊS já devem ter ouvido: ‘Batatinha quando nasce espalha rama pelo chão’ (sim, essa é a forma correta, e não ‘esparrama pelo chão’). Esse verso, ungido pelo dito popular, que ouvimos e aprendemos desde a mais tenra infância, talvez tenha sido para muitos o primeiro contato com a poesia. E para alguns, como eu, ela, poesia, nunca mais se afastou.

AO LONGO da vida a poesia sempre nos acompanha. Está presente nos livros, na fala, em nosso discurso formal, em nossos relacionamentos amorosos, em nossos momentos de tristeza, de alegria e até em nossas explicações existenciais. A poesia esteve em nossos diários de adolescência, nos cadernos da faculdade, nas cartas, e-mails, fotos e até em nossas esperanças sobre a eternização da humanidade. Ela também está nas canções que nos acompanham ao longo do tempo, está nas artes plásticas, na arquitetura, na flora, na fauna, na natureza morta, na viva, no sorriso da criança ou no lamento dos oprimidos e aflitos. A forma poética, para muitos, é quase uma forma natural, orgânica, um símbolo de expressão, de diálogo e de comunicação com o outro. Todos os dias fazemos uso dela, com mais ou menos intensidade e inspiração.

OCTAVIO PAZ dizia que “o poema é um caracol onde ressoa a música do mundo, e as métricas e rimas são apenas correspondências, ecos da harmonia universal”. Para ele, o poema é mistério, ao mesmo tempo que é fusão de tudo com tudo. “Ensinamento, moral, exemplo, revelação, dança, diálogo, monólogo. Voz do povo, língua dos escolhidos, palavra do solitário. Pura e impura, sagrada e maldita, popular e minoritária, coletiva e pessoal, nua e vestida, falada, pintada, escrita, ele ostenta todas as faces, embora exista quem afirme que não tenha nenhuma: o poema é uma máscara que oculta o vazio, bela prova da supérflua grandeza de toda obra humana”.

PARA ARISTÓTELES, a poesia está mais compartimentada: “nada há de comum, exceto a métrica, entre Homero e Empédocles; e por isso, com justiça, se chama de poeta o primeiro e de filósofo o segundo”. É claro que é no poema que a poesia melhor se acolhe, melhor se ilustra, instala-se e se torna plena. O poema não é apenas uma forma literária, mas o lugar de encontro entre a poesia e o ser humano. O poema é um organismo verbal, uma ideia sensitiva que contém, que desperta e que emite poesia.

E O QUE SERIA O VERSO? É a unidade rítmica em cujos limites se acham as “unidades de sentido” que compõem o poema (“sentido” aqui, significando o efeito produzido pelo enunciado). Há poemas que têm forma fixa, e que são submetidos a regras especificas quanto à combinação de versos, rimas e estrofes. Um exemplo seria o soneto, que possui longa e profunda vitalidade na literatura, mas existem outros, como o rondó, o rondel, a balada, o canto real, o vilancete, a vilanela, a sextina, ou a quadra popular.

EXISTEM obras versificadas, que contam com todas as concessões de metro e ritmo, mas que não foram escritas como poesia. Ainda segundo Octavio Paz, obras como Alice no País das Maravilhas (de Lewis Carroll), ou o conto El Jardín de los Senderos que se bifurcam (de Jorge Luis Borges), poderiam ser chamadas de poemas, embora tenham sido escritas para ficarem fora do catálogo destes. Nelas, as frases não obedecem a uma ordem conceitual ou narrativa, mas são necessariamente orientadas pelas leis da imagem e do ritmo poético. Nesse sentido, é de se pensar que existe muito mais poesia no mundo do que poemas. E é verdade. Como salienta Friedrich Schlegel, autor de ‘Conversa sobre a poesia e outros fragmentos’: “há tanta poesia, e, no entanto, nada é mais raro que um poema. E isto inclui a enorme quantidade de esboços poéticos, estudos, fragmentos, etc. Assim como uma criança, que um dia se tornará um homem, um poema é apenas o produto da natureza que um dia poderá se tornar uma obra de arte”.

O FILÓSOFO e poeta francês Paul Valéry, autor de ‘Discurso Sobre Estética, Poesia e Pensamento’, por exemplo, compara a prosa a uma marcha e a poesia a uma dança.

NO POEMA, ao contrário do que ocorre na prosa, a frase não é o sentido ou o significado da narrativa, mas é, principalmente, o seu ritmo, a sua pulsação, a sua energia. Segundo a pedagoga Sílvia Regina Pinto, doutora em Letras pela PUC do Rio de Janeiro e autora de ‘Tramas e Mentiras’, há poesia sem poemas, pois, paisagens, pessoas e fatos podem ser poéticos, e, portanto, podem ser poesia sem ser poema. Quando a poesia acontece como uma condensação do acaso, ou quando é a cristalização de poderes e circunstâncias, estamos diante do poético, do “algo poético”, de alguma coisa que contém em si a alusão poética. Assim, podemos fazer poesia fora do poema, e dentro da prosa, por exemplo, ou dentro de um romance, ou de uma crônica, ou mesmo dentro de uma simples carta. Podemos ter poesia, enfim, na dança, na musica, na arte, em qualquer arte, no dia a dia e na vida em geral. Nada é necessariamente um poema, embora possa ser poético. Isso talvez explique porque o primeiro livro que eu saque da estante, em geral, não é um poema, mas se nele não houver fluídos poéticos, volta para a prateleira, quiçá sem a minha completa leitura.

NÃO QUERO mais o que algo de poético não tenha. Não quero mais escrever sem me acumpliciar com algum fraseado lírico alinhavado ao pensamento poético. Não sei se quero tudo em poema, mas não quero nada sem poesia. Quer seja um filme, uma peça teatral, um livro, uma escultura, uma gravura, uma postura, que nada me venha sem franjas poéticas, sem arestas de poesia, sem um soslaio dessa maravilhosa “forma” de ver a vida. Quero vê-la através da beleza, da elegância, da leveza e da mágica apoteose poética de sentir cada momento como se fosse o último, e por isso mesmo, como se fosse o melhor” (Kelly de Souza).

NO BLOG DA CULTURA – onde veicula o texto em estudo – há sensível comentário de uma seguidora, expresso nos seguintes termos:
“Aprendi a gostar de poemas no dia que percebi que era possível fazer poesia na prosa e que a poesia vai além daqueles versinhos que eu nunca gostei de fazer quando as professoras da escola pediam. POESIA PARA MIM TAMBÉM É UM JEITO DE VER A VIDA, uma maneira diferente e reveladora de entender o mundo. Existe um livro do qual eu gosto muito - Quando nem Freud explica, tente a poesia - em que Ulisses Tavares seleciona poemas que passam por temas estudados pela psicanálise. É fascinante ver que, às vezes, mesmo antes da criação da psicanálise, os poetas conseguem expressar em versos conceitos tão difíceis de entender racionalmente ou logicamente”. 


Afonso Estebanez

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

O AMOR E O TALMUDE


Meu amor, ser feliz é quando olhamos 
para o passado e não sentimos remorso 
do que fomos. 

Teremos vivido de amor – o pão e o vinho 
com que celebramos a volta e o recomeço 
dos percursos breves desta vida.

E ainda que te sintas vencida pelo cansaço
da distância percorrida entre a luxúria 
e o arrependimento dos fracassos, 
regressa outra vez à nossa casa 
– ao menos até a metade do caminho
restaurado dos sonhos em pedaços... 

A outra metade, 
eu te carregarei entoando salmos 
na carruagem de plumas 
de meus braços...

Julis Calderon d'Estéfan
(Heterônimo de Afonso Estebanez)
SENSAÇÕES


Não gosto de movimentos.
A não ser dos sentimentos
de amores de uma mulher.

Não gosto de movimentos.
Senão de nuvens e ventos
quando passa uma mulher.

Não gosto de movimentos.
Senão daqueles momentos
do prazer de uma mulher!

Afonso Estebanez 

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

A MAGIA DA EXPRESSÃO LITERÁRIA
OFICINA – MÓDULO 06
DA ARTE DE ESCREVER SEM MEDO
*UMA VOLTA AO TEMA: POESIA & POEMA*


TENDO EM VISTA a constatação de algumas dificuldades ao entendimento razoável da relação ‘poema & poesia’, devemos rever o tema por mais uma vez, sem abusar dos recursos pedagógicos ou didáticos que o assunto, em tese, pode exigir.

DESTA FORMA, resolvemos adotar algumas orientações da insigne professora Sílvia Regina Pinto – já citada por nós em módulo anterior – graduada em Pedagogia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (1970), em Português Literatura pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (1973), com mestrado em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (1995) e doutorado em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (2000). Desde 1978 é professora na área de Letras, com ênfase em Teoria da Literatura, atualmente dedicada a pesquisas relacionadas com Teoria da Literatura, Filosofia, Literatura e Ficção, em perspectivas contemporâneas. Orienta Silvia Regina (há grifos nossos):

‘NA EVOLUÇÃO da palavra até hoje, as conceituações mais estritas para POEMA nem sempre são muito precisas, e, em muitos casos, confundem-se com os conceitos para POESIA, embora, de modo geral, POEMA seja entendido como uma das expressões possíveis da POESIA. Destacamos algumas definições normalmente encontradas:

1. Obra literária em verso;
2. Composição poética de extensão variável;
3. Obra literária em prosa, em que há ficção e estilo poético;
4. As peças orquestrais de caráter descritivo: “poemas sinfônicos”;
5. Da arte de escrever em versos e cada um dos gêneros de composição poética de pouca extensão;
6. Maneira de fazer versos peculiar a um autor ou a um estilo;
7. Aquilo que desperta o sentimento estético do “belo”;

8. DIZ-SE DA ATIVIDADE LINGUÍSTICA QUE TEM UM OBJETIVO DE ARTE E PROCURA CRIAR COM A LINGUAGEM UM ESTADO PSÍQUICO DE EMOÇÃO ESTÉTICA POR MEIO DA APLICAÇÃO SISTEMÁTICA DE PROCESSOS ESTILÍSTICOS’.

DESTACAMOS a oitava opção, por entendermos ser esta a que mais se aproxima das orientações até este momento fornecidas aos interessados. ‘Segundo Octavio Paz – enfatiza – “POEMA” é uma palavra semanticamente instável, que se vincula, pela etimologia e por natureza, à “POESIA”: considera-se poema toda composição literária de índole poética, “um organismo verbal que contém, suscita ou segrega poesia”. Assumida ortodoxamente, a CONEXÃO ENTRE POEMA E POESIA implicaria um juízo de valor, ainda que de primeiro grau: todo poema encerraria poesia, e vice-versa, pois, sistematicamente, a poesia se coagularia em poema. Na verdade, a correlação apenas se observa como tendência historicamente verificável, pois “existem poemas sem poesia”, e a poesia pode surgir, por exemplo, no âmbito da estrutura formal de um romance ou de um conto, de modo que muitos autores consideram que um poema pode ser estruturado não apenas em versos, mas também em prosa’.

‘CONSIDERANDO de outra maneira, já em si poética, afirma o mesmo Octavio Paz: “[...] O POEMA É UM CARACOL ONDE RESSOA A MÚSICA DO MUNDO, E MÉTRICAS E RIMAS SÃO APENAS CORRESPONDÊNCIAS, ECOS, DA HARMONIA UNIVERSAL. Ensinamento, moral, exemplo, revelação, dança, diálogo, monólogo. Voz do povo, língua dos escolhidos, palavra do solitário. Pura e impura, sagrada e maldita, popular e minoritária, coletiva e pessoal, nua e vestida, falada, pintada, escrita, ostenta todas as faces, embora exista quem afirme que não tenha nenhuma: o poema é uma máscara que oculta o vazio, bela prova da supérflua grandeza de toda obra humana!”


‘PERGUNTANDO ao poema pelo ser da poesia, não confundimos arbitrariamente poesia e poema? Já Aristóteles dizia que “nada há de comum, exceto a métrica, entre Homero e Empédocles; e por isso com justiça se chama de poeta o primeiro e de filósofo o segundo”. E assim é: NEM TODO POEMA – ou, para sermos exatos, nem toda obra construída sob as leis da métrica – CONTÉM POESIA. Por outro lado, há poesia sem poemas, pois, paisagens, pessoas e fatos podem ser poéticos, portanto, podem ser poesia sem ser poema. Quando a poesia acontece como uma condensação do acaso ou quando é uma cristalização de poderes e circunstâncias alheios à vontade criadora do poeta, estamos diante do poético’.


‘MAS É PRINCIPALMENTE no poema que a poesia se recolhe e se revela mais plenamente. É lícito perguntar ao poema pelo ser da poesia, se deixamos de concebê-lo como uma forma capaz de se encher com qualquer conteúdo. O poema não é apenas uma forma literária, mas o lugar de encontro entre a poesia e o homem. O poema é um organismo verbal que contém, suscita ou emite poesia. Neste caso, forma e substância são a mesma coisa’.


‘ALGUMAS TEORIAS da literatura pretendem reduzir a gêneros a vertiginosa pluralidade do poema. Por sua própria natureza, a pretensão padece de uma dupla insuficiência: reduzindo-se a poesia a umas tantas formas – épicas, líricas, dramáticas – o que faremos, pergunta Octavio Paz, com os romances, os poemas em prosa e esses livros diferentes como, por exemplo, Os Cantos de Maldoror (de Lautréamont) ou Nadja (de Andre Breton)? Se aceitarmos todas as exceções e todas as formas intermediárias, a classificação se converterá num catálogo infinito. Todas as atividades verbais, para não abandonar o âmbito da linguagem, são susceptíveis de mudar de signo e se transformar em poemas: desde a interjeição até o discurso lógico. Por isso, as classificações de uma retórica mais tradicional e mais fechada podem acabar sendo muito limitadas’.


‘CADA POEMA é ESPECIAL, IRREDUTÍVEL e IRREPETÍVEL (INCOPIÁVEL e INIMITÁVEL). A única característica comum a todos os poemas consiste em serem obras, produtos humanos, como os quadros dos pintores e as cadeiras dos carpinteiros. No entanto, os poemas são obras de um feitio estranho: não há entre um e outro a relação de parentesco que, de modo tão palpável, se verifica com os instrumentos de trabalho. Técnica e criação, utensílio e poema são realidades distintas. CADA POEMA É UM OBJETO ÚNICO, criado por uma “técnica” que morre no instante mesmo da criação. AQUILO QUE SE PODE DENOMINAR “TÉCNICA POÉTICA” NÃO É TRANSMISSÍVEL PORQUE NÃO É FEITA DE RECEITAS OU FÓRMULAS, MAS DE INVENÇÕES COM A LINGUAGEM QUE SERVEM, PRINCIPALMENTE, PARA SEU CRIADOR’.


‘NA ATIVIDADE POÉTICA formal de construção de um poema, exploram-se as possibilidades da linguagem em geral e da língua específica, em particular: a) no material sonoro; b) nas palavras; c) nas associações de ideias; d) nas construções fraseológicas, utilizando-se o RITMO, a HARMONIA IMITATIVA, a RIMA, a ASSONÂNCIA, a ALITERAÇÃO, as FIGURAS DE PALAVRAS, as FIGURAS DE PENSAMENTO, as FIGURAS DE SINTAXE. Para Jean Cohen, de um modo geral, um poema é breve, limitado e obediente a certos requisitos formais, visto ser, precisamente, uma “TÉCNICA LINGUÍSTICA DE PRODUÇÃO DE UM TIPO DE CONSCIÊNCIA QUE O ESPETÁCULO DO MUNDO NÃO PRODUZ ORDINARIAMENTE”. Já Antonio Quilis, define o poema como um contexto linguístico no qual “a linguagem, tomada em seu conjunto de significante e significado como matéria artística, alcança nova dimensão formal, que, em virtude da intenção do poeta, se realiza potencializando os valores expressivos de linguagem por meio de um ritmo pleno”.


‘EM SENTIDO FORMAL, é costume CHAMAR-SE POEMA À FORMA DE EXPRESSÃO ordenada segundo certas REGRAS e dividida em UNIDADES RÍTMICAS. VERSO É A UNIDADE RÍTMICA EM CUJOS LIMITES SE ACHAM AS UNIDADES DE SENTIDO DE QUE SE COMPÕE O POEMA. O ritmo poético, que na essência não difere das outras modalidades de ritmo, geralmente se caracteriza pela repetição. O RITMO CONSISTE NA DIVISÃO PERCEPTÍVEL DO TEMPO E DO ESPAÇO EM INTERVALOS IGUAIS, OU, COM ALGUMA REGULARIDADE. Quando o poema se constitui de unidades rítmicas semelhantes, diz-se que a versificação é regular, e, quando isto não ocorre, a versificação é mais irregular ou livre, sendo bom lembrar que o ritmo poético utiliza recursos que nem sempre podem ser coincidentes de idioma para idioma. HÁ POEMAS QUE SE APRESENTAM COMO FORMA FIXA, isto é, submetida a regras pré-determinadas quanto à COMBINAÇÃO DOS VERSOS, DAS RIMAS, ou DAS ESTROFES. Como EXEMPLOS, podem ser mencionados o SONETO (que tem longa e profunda vitalidade em várias literaturas, inclusive na portuguesa e na brasileira), o RONDÓ, o RONDEL, a BALADA, o CANTO REAL, o VILANCETE, a VILANELA, a SEXTINA, o PANTUM, o HAICAI (ou haikai) e a QUADRA POPULAR’.


‘OS ESTILOS VÃO E VÊM. Os poemas permanecem e cada um deles constitui uma unidade autossuficiente, um exemplar isolado, que não se repetirá jamais. O poema é feito de palavras, seres equívocos que, sendo cor e som, também são significado. Esse tipo de organismo “anfíbio” começa na palavra, um ser significante, mas, no poema, a linguagem recupera sua originalidade primitiva, mutilada pela redução que lhe impõem a prosa e a fala cotidiana. O POEMA É ALGO QUE ESTÁ MAIS ALÉM DA LINGUAGEM. Entretanto, paradoxalmente, isso que está mais além da linguagem só pode ser conseguido através da própria linguagem. UM QUADRO SERÁ “POEMA”, NO SENTIDO MAIS AMPLO DO TERMO, SE FOR ALGO MAIS QUE LINGUAGEM PICTÓRICA. Nessa medida, ser um grande pintor também significa ser um grande “poeta”: ALGUÉM CAPAZ DE TRANSCENDER OS LIMITES DA LINGUAGEM EM QUE SE EXPRESSA’.


‘O POEMA é, então, uma tentativa de transcender o próprio idioma. A fala – a linguagem social – CONCENTRA-SE NO POEMA, ARTICULA-SE e LEVANTA-SE. O poema é essa linguagem “erguida”. Assim, podemos dizer que duas forças antagônicas habitam o poema, sendo uma de elevação ou desenraizamento, que arranca a palavra da linguagem; e outra de gravidade, que a faz voltar. O POEMA É UMA CRIAÇÃO ORIGINAL E ÚNICA, mas também É LEITURA E RECITAÇÃO: PARTICIPAÇÃO. O poeta o cria; alguém, ao lê-lo ou recitá-lo, o recria. Desta maneira, poeta e leitor acabam por ser dois momentos de uma mesma realidade’.


ASSIM, ‘O sentido principal do poema é o próprio poema: suas imagens não nos levam a outra coisa, como, geralmente, ocorre com a prosa, mas nos colocam diante de uma realidade concreta, porque suas referências são muito mais internas, isto é, encontram-se em si mesmas. O poema transcende a linguagem porque é linguagem – linguagem antes de ser submetida à “mutilação” da prosa ou da conversação – mas é também alguma coisa mais. E esse algo mais é inexplicável pela linguagem, embora só possa ser alcançado por ela. Embora nascido da palavra, o poema desemboca nesse algo que a ultrapassa’.


‘DIZ-SE, também, que o POEMA É LINGUAGEM EM TENSÃO: EM EXTREMO DE SER E EM SER ATÉ O EXTREMO. (...) O poema possui uma inegável UNIDADE DE TOM, RITMO e TEMPERATURA. É um TODO (...), uma OBRA. “E TODA OBRA É FRUTO DE UMA VONTADE QUE TRANSFORMA E SUBMETE A MATÉRIA BRUTA SEGUNDO SEUS DESÍGNIOS”. (...). Mas quem imprime sentido à marcha ziguezagueante de um poema? O ato de ESCREVER POEMAS se oferece a nossos olhos como um nó de forças antagônicas, no qual NOSSA VOZ E OUTRAS VOZES SE ENLAÇAM e se confundem. As fronteiras se extinguem e nosso discorrer se transforma insensivelmente em ALGO QUE NÃO PODEMOS DOMINAR TOTALMENTE. Nessa ambiguidade consistiria o MISTÉRIO do que se conhece como “INSPIRAÇÃO”.


‘PARA ALGUNS, o poema é a experiência do abandono; para outros, do rigor. Cada leitor procura algo no poema. E não é insólito que o encontre: de alguma forma já o trazia dentro de si. Graças ao poema podemos chegar à experiência poética. O POEMA É UMA POSSIBILIDADE ABERTA A TODOS OS HOMENS, qualquer que seja seu temperamento, seu ânimo ou sua disposição. No entanto, o poema não é senão isto: possibilidade, algo que só se anima ao contato de um leitor ou de um ouvinte. Há, assim, uma característica comum a todos os poemas, sem a qual nunca seriam POESIA: A PARTICIPAÇÃO. Cada vez que o leitor revive realmente o poema, atinge um ESTADO que podemos, na verdade, chamar de POÉTICO. O poema é, também, MEDIAÇÃO: graças a ele, o tempo original – “pai dos tempos” – materializa-se num momento. A sucessão se converte em presente puro, manancial que se alimenta a si próprio e transmuta o homem. A POESIA NÃO É NADA SENÃO TEMPO: IMPULSO RÍTMICO PERPETUAMENTE CRIADOR”.


‘AFIRMA, ainda, Octavio Paz: TRAGÉDIA, EPOPÉIA, CANÇÃO, o poema tende a repetir e recriar um instante, um fato ou conjunto de fatos que, de alguma maneira, se tornam arquetípicos. O tempo do poema é distinto do tempo cronológico. “O que passou, passou”, dizem. PARA O POETA O QUE PASSOU VOLTARÁ A SER, voltará A SE MATERIALIZAR. O poeta, disse o centauro Quíron a Fausto, “NÃO ESTÁ AMARRADO PELO TEMPO”. E este responde: “AQUILES ENCONTROU HELENA FORA DO TEMPO”. “Fora do tempo? Melhor, no tempo original”.


TEMPO e RITMO. ‘Paul Valéry, por exemplo, comparou a PROSA COM A MARCHA e a POESIA COM A DANÇA. Assim voltamos à ideia de ritmo, que não é outra coisa senão esta constante REPETIÇÃO e RECRIAÇÃO, como a maré que vai e que vem, que cai e se levanta. Diferentemente, então, do que acontece com a prosa, a unidade da frase, o que a constitui como tal e forma a linguagem, não é o sentido ou direção significativa, mas, principalmente, o que se caracteriza como ritmo. Neste caso, O RITMO NÃO É APENAS MEDIDA, mas, principalmente, VISÃO DO MUNDO e, assim, CALENDÁRIOS, MORAL, POLÍTICA, TÉCNICA, ARTES, FILOSOFIAS, tudo enfim que chamamos de CULTURA TEM SUAS RAÍZES NO RITMO’.

‘O RITMO não é apenas o elemento mais antigo e permanente da linguagem, como também não é difícil que seja anterior à própria fala. Em certo sentido, pode-se dizer que a linguagem nasce do ritmo ou, pelo menos, que TODO RITMO IMPLICA OU PREFIGURA UMA LINGUAGEM. Como então distinguir “prosa” e “poema”? Deste modo: O RITMO SE DÁ ESPONTANEAMENTE EM TODA FORMA VERBAL, MAS SÓ NO POEMA SE MANIFESTA PLENAMENTE. Sem ritmo não há poema; só com ritmo não há prosa. O ritmo é condição do poema, ao passo que não é essencial para a prosa. O poema apresenta-se como um círculo ou uma esfera – algo que se fecha sobre si mesmo, universo autossuficiente e no qual o fim é também um princípio que volta, se repete e se recria’.


‘CONFORME Alfredo Bosi, num poema primitivo ou arcaico, o ritmo procura retomar, concentrar e realçar os acentos da linguagem oral. No POEMA CLÁSSICO, o ritmo tende a demarcar, no interior de uma língua geral, uma área particular de regularidades, ou de continuidades. No POEMA MODERNO, o ritmo tende a abalar o cânon da uniformidade estrita, isto é, procura-se abolir o verso, determinando uma PROCURA e uma EXPLORAÇÃO, cada vez mais conscientes, das potências e virtualidades musicais da frase’.


‘É INTERESSANTE destacar, porém, que METRIFICAÇÃO E RITMO NÃO SÃO A MESMA COISA. O ritmo é inseparável da frase, não é composto só de palavras soltas e nem é só medida e quantidade silábica, acentos e pausas: é IMAGEM e SENTIDO. Ritmo, imagem e significado apresentam-se simultaneamente numa unidade indivisível e compacta: a frase poética, o verso. A metrificação, pelo contrário, é medida abstrata e independente da imagem. A DISTINÇÃO ENTRE METRO E RITMO PROÍBE CHAMAR POEMAS A UM GRANDE NÚMERO DE OBRAS CORRETAMENTE VERSIFICADAS QUE, POR PURA INÉRCIA, CONSTAM COMO TAIS NOS MANUAIS DE LITERATURA. Por outro lado, segundo Octavio Paz, obras como “Alice no País das Maravilhas” (de Lewis Carroll) ou “El jardín de los senderos que se bifurcam” (de Jorge Luis Borges), entre muitas outras, poderiam ser chamados de poemas. Nelas, a prosa acaba negando a si mesma. As frases não se sucedem obedecendo a uma ordem conceitual ou narrativa, mas são principalmente presididas pelas leis da imagem e do ritmo’. Ritmo seria, então, O SOPRO DA VIDA DE UMA OBRA!

CONCLUSÃO: como exemplos, poderíamos citar alguns pensamentos instigantes de Schlegel: “há tanta poesia, e, no entanto, NADA É MAIS RARO QUE UM POEMA. E isto inclui a enorme quantidade de esboços poéticos, escritos, estudos, fragmentos, tendências, ruínas e materiais”. Ou, também: “Assim como uma criança é na verdade alguém que se tornará adulto, UM POEMA É APENAS UM PRODUTO DA NATUREZA QUE SE TORNARÁ OBRA DE ARTE”. Ou, ainda: “Em todo bom poema é preciso que tudo seja INTENÇÃO e tudo seja INSTINTO. Por isso ele se torna ideal”. Ou, mais outra: “Anotações para um poema são como lições de anatomia sobre um assado”. Enquanto isso, R. Whately, afirma, no dicionário de Shipley, que: “qualquer composição em verso (e nenhuma que não o seja) é sempre chamada, seja boa ou má, de um Poema, POR TODOS QUE NÃO POSSUEM UMA HIPÓTESE ESPECÍFICA A SUSTENTAR”.



Afonso Estebanez
FOTO DE PERFIL


Quem me vê com a alma repousada
entre as cores manchadas desta foto 
não sabe que ela é resto de alvorada
desmaiada entre as barras do ignoto.

O que vê são as sombras do remoto
porvir de alguma aurora desenhada
na areia do crepúsculo onde aporto
a foto que o amor deixou marcada.

Foi-me o tempo e levou a mocidade
das minhas rosas só deixou saudade
só espinhos me restam de uma flor... 

Nem de sonho vivido já me lembro...
Só das saudosas tardes de setembro
como memórias póstumas do amor...

Afonso Estebanez
(Poema dedicado à Sara Alves
responsável por minha foto de perfil)
CHÁCARA DA SAUDADE


Do quanto quis ser feliz
fiz da vida uma quimera
e fui dela esse aprendiz
mais feliz da primavera.

E com saudade me diz
o quanto se desespera
cada pranto que desfiz
por encanto que fizera.

Todo amor aqui refaço
e dos mantras o riacho
faz minha vida singela.

Tal meu anjo jardineiro
extrai lírios do canteiro
de gerânios na janela...

Afonso Estebanez
(Soneto heróico dedicado a formosa
Glauciane Contte Stael – 20.11.2014)
CANTIGA EM FORMA 
DE SONETO PARA JACQUELINE


Há algo de você nas leves plumas
das aves que a visitam nas janelas
como algo que flutua nas espumas
do mar quando se deita sobre elas...

Algo de luz de ondinas luminosas
asas de malva e seda das libélulas...
Algo que sonha e fala como rosas
de algum pedaço da ternura delas..

Algo tão leve quanto inamovível
como aroma de brisa imperecível
que de tão breve ao imortal ajunta...

Profano como as almas das maçãs 
entre os úmidos lábios das manhãs
iluminadas que não morrem nunca...

Afonso Estebanez
(Poema dedicado a Jacqueline Barrozo Rosa)
UMA CANÇÃO PARA MATHËUS


Tu vens do amor divino que te espelha
num concerto de cânticos que acalma
meus inquietos crepúsculos de estrelas
que adormeceram na constelação
da alma...

Vens do anjo mensageiro que me avisa
– o senhor ancestral de meu segredo – 
que teu ser múltiplo me traz na brisa
o sangue em que percorres meu amor
sem medo...

Sabes de mim como do mar o vento
como sabe os destinos o horizonte
do barqueiro... De meu contentamento
de ser ilha onde sonha o meu infante
marinheiro...

Tu vens do lado claro de meu ser
como um sonho remido de criança...
Quantas e quantas eras me restei 
vivendo por viver no itinerário
da esperança...

Mas veio da canção que não se cala
na flauta o que não fala é o que me diz 
e o que me diz é feito do mais terno 
amor do jeito eterno do meu lado
mais feliz...

Afonso Estebanez 
(O neto que o amor me deu...)

ORAÇÃO JUNTO AO BERÇO



Meu filho!
O dia em que sentires que te existes
aí terás certeza de que te perdeste.
Os caminhos aqui já foram palmilhados.
O amor é a sombra fugitiva da esperança.
Nós somos teus parentes incomunicáveis
buscando a mesma paz que não se alcança.

A vida é que também não te pertences.
Chegaste um ajo a mais em órbita da aurora
no rumo de uma estrela à margem do infinito.
Um ser que se constrói de glórias fugidias
e se explica na mesma busca indefinida
da flor na rota do crepúsculo dos dias.

É isto que dei – fruto provado
já ferido de espada porque o dei sem ódio.
Andei pelos caminhos destas mãos abertas
expondo o coração à prova do teu pranto.
Depus na tua vinda o último momento
da vida que de mim morria nesse encontro.

Aí estão tuas colinas verdes
das esperanças que nutriste sem saber
e teus caminhos se anunciam sobre os mares
destas planícies que teu sangue já inundou.
Convive agora com teu sonho inexorável
porque chegaste, mas a vida não chegou...

E então, meu filho!
Atira os braços ao mistério
da retribuição do ser que se reparte
pelas águas dos campos e nuvens e ventos
isento como as aves dos desinteresses...
E estaremos tão juntos que nos confundimos
naquilo em que morri para que tu vivesses...

Afonso Estebanez
(Poema dedicado ao meu filho Alessandro de Castro Estebanez Stael.
Composto em 23 de julho de 1970 e publicado em “Livro de Viagem 
ou do Depoimento” – Livraria São José – 1971). 

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

CANÇÃO JUNTO AO BERÇO


Johanna veio correndo
abrindo o corpo no vento
colher a rosa do amor
plantada à beira do tempo.

Johanna chegou na voz
da canção que não havia...
O mundo todo chorava
e só Johanna se ria.

E doce fazia o pranto
aquilo que ela cantava...
Se Deus ouvia seu canto,
seu anjo comemorava.

E tudo o que traduzia
sua canção tão serena
era a voz que não se ouvia
do seu lamento sem pena.

E pus seu sonho no vento
para ver aonde ele iria,
pensando que o vento fosse
sua triste cotovia...

Mas era uma ave tão leve
e sua canção tão suave
que até quase só me lembro
da canção e não da ave...

Johanna se deu à luz
do oriente à maresia
e a aurora de seu corpo
se deu ao corpo do dia.

Passageira do infinito
que os sonhos agasalharam,
Johanna matou a fome
dos sonhos que a devoraram.

Pôs seus desejos nos rios
nos campos tanta esperança
que sua alma vive em tudo
enquanto o corpo descansa.

Há tempos me vem dizendo
palavra que não se ouvia...
Calada falava mais
do que aos gritos me dizia...

Vim devolver-te o caminho
que não foi de sombras nem sol
nas praias das mãos sem pedras
banhadas em mel e sal.

Vim devolver-te a esperança
na pousada de meus braços
sem vigília e sem pernoite
sem descanso nem cansaço...

Vim devolver-te meu pão
meu trigo meu alimento
que meus moinhos parados
deixaram passar no vento...

Mares calmos de enseadas
de meu sangue navegante...
Devolver-te o que me resta
no infinito desse instante!

Afonso Estebanez
(Poema dedicado à minha filha
Johanna Estebanez Stael)
FILHO DO SER OU NÃO SER


Não importa de qual profundo lago
emergiu-te o destino rumo à aurora...
Importante é que tenhas ao teu lado
um anjo que sorri enquanto chora.

Sou teu vale de esperas e ternura
que te virá do mar ou do deserto.
Se te vier amarga, é com doçura.
Se te vier de longe é de tão perto.

Não importa desatem as amarras
desse barco aportado no meu peito...
O amor pode singrar águas esparsas
sem afastar-se nunca de seu leito.

Não importa se praias adormecem
e sonhos se desfazem quando venta... 
Importa é que os portos acontecem
pesar dos vãos açoites da tormenta.

Não importa as origens dos afetos
se a manhã e o crepúsculo se beijam
como as noites e os dias são trajetos
dos extremos da luz que se desejam.

Não importa a questão ser e não ser
quando o amor não precisa de razão...
Tu és meu filho! E basta-me saber
que meu cio há também no coração!

Afonso Estebanez

(Poema dedicado ao meu filho afetivo
Maykel Rodrigues Alves)
QUEM QUER QUE SEJA...



Quem quer que seja vem vindo 
mar adentro ao ventre afora...
Lua cheia num crepúsculo
navegando rumo à aurora...

Quem quer que seja vem vindo
como a flor recém-nascida
na parte reencontrada
de minha parte perdida.

Vem vindo do lado alegre
de meu lado descontente
vivendo do instante eterno
de viver eternamente...

Como canção pressentida
num leve roçar do vento
na superfície das águas
serenas do pensamento.

Qualquer semente cativa
na flor do ventre a pulsar...
Qualquer estrela cadente
nas águas fundas do mar...

Quem quer que seja vem vindo
dos meus instintos secretos
como um anjo reencontrado
no exílio de meus afetos...

Maior que o reino de mim
por quem sonhando me iludo
a mim pode vir sem nada
que em mim é dono de tudo...

Afonso Estebanez
(Poema dedicado ao meu filho Mark Estebanez Stael)