quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

PASTOREIO DE PALAVRAS


Componho versos como quem conversa
com palavras conjuntas de um rebanho,
se uma ovelha mais simples se dispersa,
é no aprisco da mente que me entranho.


É sangrado de espinhos que acompanho
palavras com a compreensão submersa,
e em regressão de mim eu recomponho 
o rebanho ao contexto em que regressa.


Reescrevo histórias como quem retorna
do pastoreio agreste em que transforma
no amor do encontro a locução domada .


Deus pastoreia em mim os pensamentos,
enquanto escrevo aos látegos dos ventos
se ao meu pastor não faltará mais nada!


Afonso Estebanez

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

SONETO DA MEDITAÇÃO


Pode ser que amanhã eu amanheça
às margens da enseada de teu leito,
que meu amor de pronto reconheça
os carrilhões de sinos no meu peito.

Pode ser que já noite eu remanesça
da entranha de um estigma desfeito
tal que me seja dado que adormeça
ao lado de teu sonho onde me deito.

Então eu meditando sobre a estrada
que a nós uniu no fim da caminhada
eu cri que aquele enlace era destino.

Sofreste a dor do adeus naquele cais
e o que assomou das eras medievais
é a redenção do amor em desatino...

Afonso Estebanez

domingo, 19 de fevereiro de 2017

A MAGIA DA EXPRESSÃO LITERÁRIA
OFICINA – MODULAÇÃO INTERATIVA – 07
*OPÇÃO PELO CONCEITO DE POESIA*


Ao tratarmos do assunto ‘conceitos de poema e poesia’ no módulo pertinente, abrimos um horizonte necessariamente vasto à penetração do nosso próprio pensamento a respeito desse fato cultural, na expectativa de que, a qualquer momento ou em algum lugar da história da arte literária, devemos encontrar alguma similaridade entre os conceitos já firmados pelos estudiosos do assunto e o nosso conceito individual próprio a despeito do mesmo tema, até hoje tido como um ‘enigma’. Isto é proposital e tem finalidades didáticas ao estudo ‘simplificado’ e ‘sem medo’ da arte de escrever. Vimos que os dicionaristas/filólogos – principais responsáveis pela definição objetiva do fenômeno milenar da poesia – não deram conta de uma definição pacificadora do termo cantado e decantado pelos gregos. Vimos também que os estudiosos professos se arriscam a uma ‘explicação’ singular da poesia, mas lhe não conferem caráter de ‘definitividade’, como soe acontecer com os princípios da matemática e da física. Nossos estimados interessados definem: ‘A poesia, é uma arte de escrever em versos com emoção e muita sensibilidade, e somente pessoas divinamente agraciadas com esse dom são capazes de grandiosas obras literárias’. Eis a excelência de sua ‘atitude’. Podemos afirmar até que POESIA É UMA ATITUDE DA ALMA HUMANA. Mas já abordamos o assunto no módulo adequado, que já esteve em andamento nesta Oficina. Porém, não sem antes revelar antecipadamente aos estimados amigos escritores que sua definição pessoal de poesia é uma das que mais tem-se aproximado do conceito que desde então passamos a adotar, com pequenas restrições: “Forma de expressão linguística em que se revela uma particular visão do mundo, apelando mais para a emoção do que para a inteligência, através de uma seleção vocabular essencialmente metafória” (Antônio Houaiss, in ‘Pequeno Dicionário Enciclopédico Koogan Larousse’, Editora Larousse do Brasil, 1987, Rio de Janeiro). Até lá, estimados seguidores interessados.

Afonso Estebanez 
CHUVA DE ROSAS


A abóboda do templo era pintada
de céu azul com anjos bizantinos.
Da marcha nupcial já consumada
ouvia-se o tom triste dos violinos.

Mas um dilema trai a diva amada
no ato da união de seus destinos,
e o coração confesso em abalada
sorte, rompe os enigmas sibilinos.

Eis a outrem amava além da vida
e não ousava mais ser pertencida
a amor a quem devia dizer ‘não’.

De repente seus lábios cor de mel
sorriram para o que vinha do céu:
uma chuva de rosas vem ao chão!

Afonso Estebanez
ENTRE A FLOR E A LUZ 


Acredito que a maioria dos humanos adquiriu, por instinto ou cultura, desde o nascimento, o hábito de ver as coisas de fora para dentro, sem que consigam observar um terço do que se encontra no profundo delas. Como acontece com o cérebro condicionado. Preocupado com isso, desde a infância, eu procurava, em silêncio e conscientemente, enxergar as coisas ao meu redor de dentro para fora. Foi quando descobri a poesia que defino como a alma de dentro para fora. Acontecia de eu observar subjetivamente o que, segundo o imaginário, era objetivo. Olhava-me no espelho e observava se eu era mesmo aquela imagem que via ou se eu era apenas aquela imagem que eu pensava que via. Portanto, eu não falo nem vejo através de códigos. Eu 'penso' em códigos, na maioria das vezes poéticos. E dava uma olhadinha em Paulo, Coríntios 13, 1-13 para ‘pensar o amor’ como atitude da alma.


Nunca escrevo nada que possa parecer solução. Solução é dever de casa obrigatório, não servindo a ninguém que não medita sobre o resultado a serviço dou outro ser humano. A pergunta, sim, faz com que me questione a mim mesmo, como a relação mais importante do meu questionamento. Estou divulgando esta mensagem para meus semelhantes, já que o maior inimigo do espírito é o medo! Em minha busca, o encontro está em que devo me convencer de que o medo não faz parte de mim. Na imagem de uma rosa vermelha sob a luz das velas pode haver a ilustração desta descoberta. Não é a luz das velas que dá existência à rosa, é a rosa, com sua luz própria, que exalta a possibilidade de existência material da luz das velas. Então, a rosa é o sujeito mais importante da relação entre a flor e a luz, elucidando-me que “Poesia é a alma de dentro para fora”...



Afonso Estebanez

sábado, 18 de fevereiro de 2017

SOBREVIVENTE DOS TEMPOS DE FELICIDADE


Porque o amor é misericordioso é que ainda sou um sobrevivente dos tempos de felicidade. Um tempo em que o segredo do coração era que nossos corações nos pertenciam, mas ainda não sabíamos. Um tempo em que o silêncio de meu pranto me ensinava a escutar os sinos tocarem na catedral do coração amado. Um tempo em que o amor era o salário que Deus me pagava em dobro pelo penoso ofício de sonhar. Um tempo em que o coração falava de sentimentos que somente a alma podia perceber, como a ternura que se deita no espírito da paz tal como a ave que se aninha nos ramos da brisa. Meu coração andava onde andava o coração amado, de tal sorte que, pulsando juntos, nossos corações entoavam uma canção de amor inesquecível. Então eu sou um sobrevivente dos tempos de felicidade...

Afonso Estebanez
CREDO DE AMOR ETERNO


Eu creio na ressurreição da vida
como forma de superar a morte
da repressão ao fraco desta lida
pela casta egoísta do mais forte.

Creio na aventurança concebida
mesmo doada como a boa sorte
que tenho na morada prometida
onde haja fé e ao amor conforte.

Eu creio na “medida do possível”
de seres despojados de vontade
de duvidar da mística do inferno.

E creio que é possível para Deus
realizar alguns dos sonhos meus
como sagrar o meu amor eterno.

Afonso Estebanez

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

A MAGIA DA EXPRESSÃO LITERÁRIA
OFICINA – MODULAÇÃO INTERATIVA - 06
*A INICIAÇÃO DE MARY LOVELY*


Vemos que seu impulso poético inicial já emergiu. E emergiu exatamente de onde devem emergir as primeiras manifestações da alma na seara da poesia. Indague-se sempe: “Morreria, se não me fosse permitido escrever?”. Principalmente isto, diz Rainer Maria Rilke – já citado aqui – em ‘Cartas a um Jovem Poeta’. “Na hora mais tranquila da noite – continua o mais autorizado poeta da língua alemã do século XX – faça a si esta pergunta: ‘Sou de fato obrigado a escrever?’ (...). A sua existência, mesmo na hora mais indiferente e vazia, deve tornar-se sinal e testemunho de tal impulso. Aproxime-se, então, da natureza. Depois procure como se fosse o primeiro (ser) a dizer o que vê, vive, ama e perde. Não escreva poesias de amor. Evite, de início, os temas demasiado comuns: são os mais difíceis. Nos assuntos em que tradições seguras, às vezes brilhantes, se mostram em grande número, o poeta só pode realizar obra pessoal na plena maturidade da sua força. Fuja dos grandes assuntos e aproveite aqueles que o dia-a-dia lhe oferece. Fale das suas tristezas e ou alegrias, dos seus desejos, dos pensamentos que o tocam da sua fé na beleza. Utilize, para se exprimir, os objetos que o rodeiam, as imagens dos seus sonhos, as suas lembranças. Se o cotidiano lhe parece pobre, não o acuse: acuse-se a si próprio de não ser muito poeta para extrair as suas riquezas. Para o criador nada é pobre, não há lugares mesquinhos e indiferentes. Mesmo num cárcere cujas paredes abafassem todos os ruídos do universo, não lhe ficaria sempre a sua infância, essa preciosa, essa esplêndida riqueza, esse tesouro de recordações? Volte, para esta direção, o seu espírito. Procure fazer regressar à superfície as impressões submersas desse longínquo passado. A sua solidão povoar-se-á, tornando-se nas horas incertas do dia, uma espécie de moradia fechada aos sons exteriores”. Esta é a sua seara inicial ao plantio da boa semente da poesia!...

Afonso Estebanez 
PERFUME DE DAMA DAS CAMÉLIAS


Não há no coração suficiente espaço
à paixão cortesã no leito despertada
com o perfume extasiante do regaço 
da dama das camélias penitenciada.


É místico perfume de época passada
exalado do beijo indômito do abraço
que faz do eleito sua presa libertada
do desafeto hipócrita quiçá devasso.


Perfume isento de pretérito obscuro,
só pode ver como será o amor futuro
de uma cortesã tão bela como a flor.


A dama das camélias cria a ideologia
da amorização humana e essa magia 
da ideologia de dominação do amor.


Afonso Estebanez 

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

CANÇÃO DE KÉDMA


A Kédma chegou-me aqui
do lado esquerdo do peito
e deixou-me uma canção.
Foi tão suave o que ouvi:
o canto do amor-perfeito
entre o peito e o coração.

Nem precisei entendê-la!
Era a voz do cancioneiro
que há nas harpas do luar.
Foi o dom de conhecê-la
e a canção do jardineiro
que escuta a rosa cantar.

E ela é tão doce e louçã
como a fada concebida
no perfume do jasmim.
Kédma acorda de manhã
como quem entra na vida 
pela porta de um jardim.

Docemente me convida
pra viver dentro de mim.

Afonso Estebanez
O JULGAMENTO

Submetido ao látego do julgamento 
aquele homem prestava depoimento 
sobre tudo o que sabia sobre a vida.
Falou de fé e esperança e caridade,
falou de fraternidade e de felicidade 
e dos ideais de solidariedade humana.
E não havendo mais do que falar,
calou-se como ave que cai do céu...

E recebeu então a cruel indiferença 
como sentença irrecorrível dos mortos.
De repente aquele homem tão simples
pôs-se a falar a falar a falar e a falar
COISAS DE AMOR como quem cria 
na remota possibilidade dos milagres.

E aquele tribunal acabou acreditando
nele porque falou do que nem sabia. 
E aquela foi a única vez em sua vida
que aquele homem falou de amor
com infinita sabedoria...

Julis Calderon d'Estéfan
(Heterônimo de Afonso Estebanez)

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

DEMAGOLOGIA DO DISCURSO NACIONAL 


Se é mais fácil
um camelo passar no fundo de uma agulha
um bom ladrão roubar o paraíso
o galo cantar três vezes
sem que alguém haja mentido
do que adentrar no reino dos céus
um rico
um pulha
ou um político...

O condomínio do meu edifício
o porteiro e aquele síndico antipático
são a expressão mais-que-perfeita
da comunhão de idéias publicadas
no DO de 21 de dezembro de 1964.

Se todos os homens
nascem livres e iguais perante a lei
com direito ao trabalho e à justiça
dotados de razão e consciência,
comigo vai ser assim:

... os negros passarão a usar o elevador social
o jogo-de-bicho será legalizado
controlarei a chuva no nordeste
imporei os preços dos produtos de exportação
proclamarei anistiados os escravos exilados
nas masmorras servis do ventre livre
condecorarei os cavalos dos republicanos
farei chegar a general o soldado raso
tal e qual o Bateau Mouche naufragou
escandalosamente por acaso.

... Ninguém será mantido na escravidão
ou submetido a qualquer forma de tortura
injustamente preso ou acusado de qualquer
delito por mera presunção até que prove
a inocência violada...
Eu lhes asseguro:

.. que essa dívida externa não será mais paga
com o sorriso desdentado da fome patriótica.
Que nossas filhas irão virgens para o altar
que todos os caminhos irão dar em Roma
que nossas mães hão de sempre sofrer num paraíso
que a autoridade papal será sempre infalível
que fazer um discurso deste era preciso!

E lhes asseguramos
que as nações estão decididas a reafirmar a fé
nos direitos fundamentais do ser humano,
cerzindo a paz com os laços insuspeitos
da autodeterminação dos povos
com liberdade, igualdade e fraternidade...

Do povo se ouvirá o herói-cobrado retumbante
às margens do Ipiranga ainda tão plácidas...
A ti, correligionária amada! Serei fiel ao menos
até que a morte nos separe. Os meus testículos-de-cão
serão eternamente teus...
Liga não, mês que vem a inflação será contida
e daremos tudo aos pobres para emprestar a Deus!

E lhes asseguro mais:
Quem cometer delito contra a natureza
será punido
com pena
de prisão de quinze dias a três meses
(apenas).

Porque a justiça é falha, mas não tarda!
– assim falava Zaratustra,
porque dizia Virgulino
que Maria Bonita é quem mandava.

Mas lhes asseguro ainda:
os governantes não são de constranger o povo
após haver-lhe reduzido com medidas provisórias
a fonte constitucional de resistência...
... Nunca no GATILHO
... Nem na usURPAÇÃO
... Nem após simbólica ameaça
de lhe causarem condição injusta
no cárcere privado
da liberdade anônima de expressão...
... Nem mesmo pelo enforcamento
da consciência nacional
no pendão da esperança
a meio-pau!

E eu,
neste país
... de atenciosas saudações
... de ímpar consideração
... e de elevado apreço,
de escassas camisinhas
e calcinhas de veludo...

Eu prometo
se for eleito
fazer tudo-tudo pelo social...
Botar somente a cabecinha...
Atirar a primeira pedra
e (a) tirar o Zé Mané do trem
e o Severino do ca (n) gaço
onde ele sempre se meteu.
Vou ajeitar para o Raimundo
(que é meio-parente meu)
ser funcionário em Medellín...
Se por cá only love save,
? porque lá não é assim...

Todo (o) poder emana do povo
e em seu nome será exercido
até que outro mais forte se alevante...
Vou desviar essas enchentes
declarar o sertão perdido
nomear o Chico Mendes
capataz do paraíso...
Camuflar os nordestinos
pra não serem reconhecidos...

Isso eu prometo.
A causa é nobre.
Tá decidido!

Se correrem um rico e um pobre,
o rico será detido.
Comigo vai ser assim...
Vote em mim!...

Afonso Estebanez