quarta-feira, 24 de maio de 2017

QUANDO VIER A PRIMAVERA

Quando o verão no cálido poente
parecer-te o pintor da primavera
não te esqueças amor, é evidente
que exaurimos a última quimera.

Se o outono vier-te resplendente
qual o éden florido que te espera
não te iludas amor, é imprudente
colher fruto que o viço degenera.

Não podes enflorar o teu inverno
feito miragens em deserto eterno
de oásis secos entre os espinhais.

Ah, meu amor! a aura já sombria,
confessa a flor, como na profecia,
que a primavera não existe mais!


Afonso Estebanez
(24.05.2017)

domingo, 21 de maio de 2017

MINHA TERNURINHA


Minha pretinha é ternura
com pedacinhos de gente
que vem de raça tão pura
que me fala com a mente.

Com seu carinho me cura
do mal-estar permanente
e ela sempre me procura
com pena pelo que sente.

Quando ela fica tristonha
procura na minha fronha
um jeitinho de me olhar...

Assim quando ela se cala,
sei de tudo o que me fala
sem que tenha que falar.

Afonso Estebanez Stael
(Kênia - Raça: Pinscher - 4 aninhos)

quinta-feira, 18 de maio de 2017

SALÁRIO MÍNIMO



pão duro de forma
forjado no forno
abafado da fórmula

dízima periódica
da justiça fundiária
trafegando em carro-forte
à prova de bala

clarão interrompido
que a conquista do ridículo
contagia

eco da senha do grito de greve
batido
no muro de um beco sem saída

palavra de passe da angústia solidária
das máquinas perfiladas sobre a mesa
de jantar dos balanços de vísceras
e perdas e danos e lucros e cifras

recessão da liberdade
que perdeu o barco
da travessia humana...

Afonso Estebanez
(Em memória do poeta Cesar de Araujo
um companheiro/solidário/inesquecível)

terça-feira, 16 de maio de 2017

“ERA UMA VEZ...” TINHA RAZÃO


Não sei se posso acreditar na história
conforme os cânones da atual cultura
viciada em que varramos da memória
presságios das quimeras sem tortura.

Era uma vez numa explosão de glória
o imperador mãos limpas e alma pura
curvou o império à herança transitória
de ser seu próprio herói sem ditadura.

Era uma vez uma nação sem “ismos”,
uma nação sem truque ou casuísmos
até que um dia ‘Era uma vez’ não era.

Trocando a farda é a mesma ditadura
pois que sabemos quando é aventura
que não pode sonhar sem primavera!

Afonso Estebanez
(16.05.2017)

segunda-feira, 15 de maio de 2017

CAIXINHA DE MÚSICA

Descobri no porão da casa antiga
u’a caixinha de música antiquada
que consertei saudoso da cantiga
que deixava vovó tão encantada.

Minha mãe me beijou agradecida
eis sorrindo citou-me relembrada
que a caixinha de música perdida
era a do berço em noite fatigada.

Era dia das mães do que contava
fingindo ser feliz quando chorava
e a caixinha lembrava da viuvez.

Era a primeira vez na minha vida
que eu via com a alma deprimida
mamãe chorar pela primeira vez.


Afonso Estebanez
(dedicado à minha mãe insubstituível
Francisca Estebanez Satel
‘in memoriam’ – 14.05.2017)

domingo, 14 de maio de 2017

TEOREMA DO SONETO


Soneto é como um místico teorema
de afirmação que pode ser provada
a arquitetura adversa a um sistema
prescrito à renascença despertada.

Nos oito versos dou abrigo ao tema
que vou expondo em lírica jornada,
tijolo com tijolo, eis que um poema
vibra ao som da palavra rejuntada.

Nenhuma obra emerge de palavras
usadas numa condição de escravas 
das quais retira o senso de função.

Por isso é que o engenho do soneto 
conta com um obreiro no meu peito
honrando meus projetos de paixão.

 Afonso Estebanez
(13.05.2017)
O PERFIL DA ROSA – MINICRÔNICA POÉTICA


Uma rosa me respondeu: “... Eu sou a rosa entre as rosas dos abismos do coração. A pastora das rosas em sua trajetória de vida. Não sou uma lenda nem uma ninfa nem uma fada nem um mito nem um mero símbolo da cultura humana. Eu existo há milênios como espírito criador consagrado à perfeição artística, espiritual, científica e filosófica. Não tenho princípio nem fim em mim mesma. Sou passageira do tempo infinito, feita da pura matéria prima da inocência. Ferida pelos espinhos, pairo sobre a morte e meu sangue dá policromia às rosas que me são consagradas. Tenho o poder de conduzir paixões humanas, desvendar segredos de amor e anunciar a chegada das primaveras. Nas páginas inconsúteis de minhas pétalas os poetas escrevem para sempre suas histórias de amor intangível. Deus me deu a beleza dos místicos jardins florescidos entre o céu e a terra, a quintessência da luz do sol e o mel dos frutos perfumados de minhas entranhas. Portanto, eu existo. Existo, meu poeta! porque sou a tua resposta sem pergunta!".
Afonso Estebanez

sábado, 13 de maio de 2017

OS RIOS CORRIAM CALMOS


Além de sete colinas
setenta léguas além
ainda há risos na casa
e lá não mora ninguém...

Ouviam-se pés macios
deslizando no assoalho
leves folhas se roçando
cristalizadas de orvalho.

Minha mãe punha o café
com odor de flor selvagem
– seiva da lenha no fogo –
no cheiro doce da aragem.

Meu pai montava a cavalo
cintava o relho e partia
galopando pelos campos
como quem raiava o dia.

Parecia que seu canto
ditava o rumo do vento
e que as curvas do caminho
seguiam seu pensamento.

Era um domador de nuvens
nos umbrais das atalaias
um barqueiro de colinas
em verdes mares sem praias.

E os rios passavam lentos
em minhas tardes amenas
levando meus dias calmos
em suas águas serenas...

Afonso Estebanez
(Poema dedicado a meu pai Manoel Stael) 

sexta-feira, 12 de maio de 2017

SE A MENTE É CEGA...


Utópico enxergar se a mente é cega
ao que a alma não pode interpretar
face a face no espelho, não enxerga
quem pena sob a máscara do olhar.

O amor é dom que não se desapega
do lúmen que o habilita a enxergar
e evidente é que o amor se entrega
como os astros nos braços do luar.

À mente cega os olhos são cortinas
cerradas às mensagens das retinas
insensíveis às mágoas da cegueira.

À mente cega os olhos são algemas
impróprias à alvorada dos poemas
esvaídos do olhar da companheira.

Afonso Estebanez
(12.05.2017)

quarta-feira, 10 de maio de 2017

MÃE... SIMPLESMENTE MÃE


Mãe de muitos, mãe de poucos.
Não preciso lembrar os nomes.
O meu primeiro príncipe,
Um menino abandonado numa pediatria
Internado há oito meses, não recebia visitas...
Agarrava-se em meu jaleco
Chamando-me de “MÃE” ...
Não, não sou sua mãe
Apenas cuido de você meu pequeno príncipe.
E o menino raquítico, com osteoporose exposta,
Dizia-me: “você, você é minha MÃE”,
É você quem me dá comida e carinho...
Ah, as lágrimas banhavam minha face...
Ah, como eu queria um pequeno príncipe
Mas ainda não era a hora, esperei, esperei,
Senti dores de parto, contrações, tremores...
Eu queria mesmo ser mãe
Mãe dos simples e dos pobres
Mãe dos que nada têm e dos que tudo têm
Mãe do silêncio
Mãe dos doentes e dos sãos
Mãe de quem nada fez
Mãe que sorri
Mãe que pressente
Mãe sem ter gerado, Mãe de coração
MÂE, simplesmente Mãe...

Mary Lovely

terça-feira, 9 de maio de 2017

TOQUE DO SILÊNCIO
(Por um policial morto em missão)


“Herói de guerra e paz sem armistício”
a inscrição que ao probo induz chorar
pela função de honrar o compromisso
ainda que morra ou tenha que matar.

Opõe-lhe o próprio estado um artifício
que a hierarquia impõe-lhe concordar
cumprir missões de extremo sacrifício
sem que arrogue antever se vai voltar.

Ninguém suporta mais ter o heroísmo
de um agente sangrado no eufemismo
do hipócrita sistema inda em vigência.

Eis se no toque do silêncio há encanto,
é de uma glória de morrer sem pranto
por não privar ninguém da inocência!

Afonso Estebanez
(09.05.2017)

domingo, 7 de maio de 2017

AUSÊNCIA DE AMOR PRESENTE


É prudente que estejas só dormindo
pois n’alma suavemente despertada
é que verás meu coração bem-vindo
pulsar no peito astral de sua amada.

Tu pensarás que foi um sonho lindo
ou nem vais crer que fostes visitada
febril o corpo e o teu olhar sorrindo
para minh’alma em ti transfigurada.

Prudente que me estejas esperando
quando o hálito da brisa te beijando
soprar que além da vida é teu lugar.

É onde nunca mais vais ter saudade
que a luz do amor provê imunidade
até que eu morra para te encontrar.

Afonso Estebanez
(Inspirado em texto da amável
escritora e amiga especial
Analuz Carvalho
07.05.2017)