sexta-feira, 8 de setembro de 2017

SONETO DA GRATIDÃO


Apesar de minh’alma naufragada
nesse cálice amargo de orfandade
compraza a Deus a via iluminada 
que te guia da sombra à claridade...

Malgrado a desventura consolada
por velados suspiros de saudade,
apraz aos céus saber-te retornada
para ensinar o amor na eternidade...

E entre flores e lágrimas e afetos
está o adeus dos filhos prediletos
que o acaso da vida pôs dispersos...

E me coube, a despeito desse pranto,
a glória de render-te com meu canto
a gratidão que trago nestes versos...

Afonso Estebanez 

quinta-feira, 31 de agosto de 2017


A MAGIA DA EXPRESSÃO LITERÁRIA
OFICINA LITERÁRIA - MÓDULO 10
“O UNIVERSO DA LINGUAGEM”
(Metáforas)




O UNIVERSO DA LINGUAGEM
*Joaquim Moncks
“Amigo e Mestre: tenho acompanhado, com encantamento, as tuas postagens. Questiono qual o papel do poeta na atualidade? E se nós estamos conseguindo ser lidos, interpretados e mais do que isso, se a nossa mensagem central e, portanto, existencial, tem sido minimamente absorvida? Mudar a direção? Parece paradoxal... Deveríamos ser poetas de uma simplicidade franciscana abolindo o uso de metáforas, a exemplo do nosso Mário? Não sei. Dúvidas persistem. Talvez muitos leitores não estejam dispostos a um exercício de reflexão a um nível tão profundamente abstrato. O problema situa-se na decodificação. Um saudoso abraço” 

(Cassiano Gilberto Santos Cabral, poeta, via Facebook, em 30Ago2017).

Salve poetamigo Cassiano! Todas as tuas perguntas são de difícil resposta, porque para chegar a uma boa conclusão pessoal para cada uma delas, em regra teríamos, no mínimo, que contar com pesquisas de opinião, de modo a que se pudesse adentrar a uma veracidade responsável, possivelmente utilizando dados reais com tabulações estatísticas. Este seria um caminho, apenas. Por certo haverá outros.

Quanto ao problema da "decodificação" que o poeta-leitor terá de fazer, também é um fato veraz e o teu questionamento geral contém o exercício da sabedoria. Abolir o uso das figuras de linguagem, em especial a utilização da metaforização, chega-me como impossível, porque tenho que sem a metáfora profunda (porque existe a rasa ou superficial) não se consegue chegar à poesia, no máximo à prosa poética. Ter-se-á, portanto, sem a metáfora, uma composição poética sem o comparecimento da Poesia como gênero literário. Vale dizer: apenas um derramamento verbal provindo da intuição e do sentir, assentado no intimismo lírico, o qual, por ser a consolidação verbal momentânea do que o autor deixa fluir sobre tal ou qual assunto, não chega à utilização da palavra no sentido CONOTATIVO e, sim, enclausura-se e se basta com a utilização do sentido DENOTATIVO. (São versos, somente versos, sem que a Poesia compareça esteticamente, e isso é muito comum de ocorrer em nosso meio, porque o ingênuo autor não sabe, tecnicamente, em que gênero ou espécie literária está a se comunicar).

Os dois tipos de metáforas, a de palavra e a de imagem têm este condão: dar ao conjunto de palavras do poema, através da subversão do sentido original dos vocábulos utilizados, criando conotações que levam ao patamar estético do Novo (daí o estranhamento) em ideias e em linguagem. Quanto ao Mário Quintana, muito cuidado, não há nenhuma "simplicidade franciscana" em sua poética. As peças poéticas referentes à sua maturidade em Poesia (a partir dos seus 70 anos, em 1976) não são, a meu ver, assim tão simples, e comparecem em seu espírito como resultado da utilização da ironia como pedra-de-toque utilizando certa singeleza verbal que constrói, repentinamente, uma metáfora de imagem utilizando vocábulos sem a pretensão de complicar a cuca do poeta-leitor. no entanto, concordo que tanto Manuel Bandeira quanto Quintana não foram ‘rebuscados’ (quanto à utilização de vocábulos de difícil entendimento) como parece ser o caso de João Cabral, Drummond ou Murilo Mendes; de Fernando Pessoa (que cria o poema pensando a partir dos conceituais léxico-morfológicos do idioma de Shakespeare, mesmo quando transpõe essas ideias e temáticas para o idioma português) ou Ezra Pound, Elliot e Blake, na poesia de língua inglesa.

Por último: cada autor escolhe o perfil de seu leitor, se culto, mediano ou primário. Há público para cada composição poética. A Poesia nasce em decorrência de como o autor do poema observa os fatos da realidade e o traveste como proposta verbal, porque cada qual vê o mundo segundo o vê ou o concebe individualmente. Ao demais, não é o autor quem dá vida ao poema, e sim o poeta-leitor, quando se apossa do poema e o traz ao mundo dos fatos como se fora verdade plena. E todos nós sabemos que o "poeta é um fingidor" que se locupleta do inconsciente coletivo e trabalha – para forjar o poema – utilizando-se da farsa, da fantasia e do sonho presentes no seu estro criador. Tudo depende de sua capacidade inventiva. Enfim, todo poema é abstração pejada de inverdades, pois não pertence aos territórios do mundo real, mas o leitor dará a este o sentido que a ele aprouver, segundo o seu patamar de conhecimentos e de leitura do mundo, fazendo dele a sua verdade salvadora. Se bem que não é o autor que escolhe o seu público, e sim o leitor quem escolhe o seu poeta, por entender que ele fala a sua linguagem.

Portanto, o importante mesmo é escrever e publicar. O porvir dirá quem agradou a quem e o que por eles foi absorvido para possíveis aplicações no universo individual da sensibilidade e da consciência. Escreve sem medo. Parece-me ser esta a única escolha consciente que pertine ao escriba. Quem sabe fosse útil trazer ao plano da realidade pensamental o aforismo de William Blake: “Quem nunca altera a sua opinião é como a água parada e começa a criar répteis no espírito.”.

– Do livro inédito OFICINA DO VERSO: O Exercício do Sentir Poético, vol. 02; 2015/17. 

*Joaquim Moncks, escritor e poeta, Acadêmico Titular da Cadeira 19, patronímica de Cezimbra Jacques da Academia Rio-Grandense de Letras (ARL) e Titular Acadêmico da Academia Sul-Brasileira de Letras, Oficial da Polícia Militar da Brigada Militar do Rio Grande do Sul, Mora em Porto Alegre, Rio Grande do Sul. Dados biográficos de 16 de agosto de 2017.

COMENTÁRIOS SOBRE O AUTOR:

Afonso Estebanez Stael: Maravilhoso texto, exuberantemente elucidativo e eficaz dos pontos de vista literário, educacional e pedagógico. Encantado, vamos divulgar esta pérola literária que nos traz à luz, neste momento de desmonte, pela mídia, da língua portuguesa falada e escrita, o nome venturoso de Joaquim Monks a quem agradeço, aplaudo e reverencio pela amizade e pelo seu "O UNIVERSO DA LINGUAGEM".

Ligia Lacerda: “Este texto é esplêndido! Muito bem elaborado, embasado e de fácil compreensão. Leitura útil e prazerosa”

Sandra L. Stabile: “Muito bom o texto amigo , estava precisando de ler esse texto para responder a algumas questões que me fizeram”.

Antonio Luis Alves: “Para ler uma vez, continuar lendo e sempre encontrando alguma coisa nova. Este texto tem essa maravilha de encantando sempre”.

Elias Borges: “Certa vez Millôr, explicando a necessidade da metáfora, proferiu: ‘O fogo da paixão, como qualquer outro fogo, não vive sem oxigênio’. Parabéns pela clareza, amigo Joaquim Moncks. Hoje observo que você já se permite dizer que há poetas e poetas”.

Cassiano Gilberto Santos Cabral: “Moncks: agradeço a aula magistral notabilizando conhecimento e inspiração sublimada. És mestre de todos nós e é muito bom saber que nos apontas a direção dos ventos. Com certeza, a decodificação pertence ao público que ė o nosso interprete. Concordo que o não uso da metafora reduz o alcance mágico da poesia. És profundo e notável, amigo, e eu me sinto honrado com a tua amizade e deferência”.

Oscar Brisolara Parabéns: “Meu amigo e confrade Joaquim Moncks, agradeço pela lucidez do teu texto. Ouço no teu texto o clamor de uma voz que provém dos recônditos do universo, mas que apela ao meu espírito com a doçura da poesia. Meu irmão, este espaço está sempre à tua disposição. Mais uma vez, cumprimentos pela luminosidade de tuas palavras”.

Maricler De Campos Ruwer: “Texto Maravilhoso, para ser trabalhado pelos Professores de todas as Línguas e todas as áreas de Ensino.  A Mágica das Entrelinhas na Linguagem escrita! ‘O UNIVERSO DA LINGUAGEM’ - Joaquim Moncks". Paz e Luz... Mestre e o Sempre Carinho, da Cler Ruvver.

terça-feira, 29 de agosto de 2017

DEPOIMENTO DA ROSA



Não deixo minha rosa consternada
só porque meu amor ama indeciso
as rosas quase nunca pedem nada
senão o que ao amor
ao amor seja preciso...

O que dizem as rosas de uma rosa
colhida a mais formosa do jardim?
O que faz uma flor mais venturosa
ser tão bela e morar
aqui dentro de mim?...

Só porque me angustio de alegria 
não deixo minha rosa entristecida
vai a noite e na aurora vem o dia...
Não existe ir embora
na paixão pertencida
e na flor minha rosa
vai viver toda a vida...

Afonso Estebanez
(Homenagem especial à amiga
Dulce Jacob Genari – “Luamor”) 

domingo, 27 de agosto de 2017

ÚLTIMA VIAGEM


Devo empreender viagem sem demora
para onde tu me encontres sem chorar
como estar na mortalha de uma aurora
ou no lúmen do orvalho em meu olhar.

Não vejo que me assistas indo embora
com saudades do amor que vou deixar
como se nunca mais houvesse outrora
que em nós dois foi morada para amar.

Mas não foi dado a ti embarcar comigo
sem que saibas se é gozo ou é castigo
o céu de abismo aonde eu vou chegar.

Quiçá se não me houver anjo desperto
na ponto em que me for deste deserto, 
rogues a Deus que venha me buscar...

Afonso Estebanez
(Livre interpretação - 27.08.2017)

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

MEUS DIAS DE CÃO


Poetas também têm as suas fases
como é fase de sonhos a quimera,
mas se o amor é vítima de ultrajes
há que poetas podem ser capazes
de se encarnar na fase de ser fera.

Nos tripudia o quanto são vorazes
os que roubam a nossa primavera
e nos incitam expressar mordazes
a linguagem das massas eficazes
o quanto a fase é de virar pantera.

Farejam nossos cães intolerantes
o escarro dos impunes traficantes
dos poderes da pátria dominados.

Se essa fase de cão for sanidade,
então chegou o tempo da verdade
e não podemos mais ficar calados.

Afonso Estebanez
(25.08.2017)

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

ÁGUAS DO BABILÔNIA


Deus proveu-me chegar a estas águas
das quais todos os crentes vêm beber
lavando sobre as pedras suas mágoas
que as águas mais além vão remover.

Chegam aqui, morrendo sem morrer,
fantasmas de esperanças desaguadas
sobre as águas magoadas de escorrer
num remanso de mágoas represadas.

Todos chegam aqui de amor cansado
e se enxáguam à margem do passado
de águas turvas sem canto de louvor.

Deus proveu-me, porém, chegar aqui
louvando o encanto da mulher que vi
no espelho d’água refletindo o amor!

Afonso Estebanez
(Poema de louvor que dedico a amiga
Mary Salvaterra
gentil presença em minha trajetória)
- 23.08.2017 -

sábado, 19 de agosto de 2017

DO PRIMEIRO AMOR


Já adormeci meus últimos sentidos
já acortinei meus velhos aposentos
mas não esqueço os dias exauridos
à véspera de meus encantamentos.

E até hoje caminho entre quimeras
nas cinzas das extintas primaveras
exumadas do pó dos pensamentos.

Meu calendário removeu setembro
de seu tempo infinito de esplendor
e dos amores só de um me lembro:
o que me deu a aurora de uma flor.

Vou violar meu portal de desalento
furtar de mim a flor daquele tempo
e devolvê-la ao meu primeiro amor.

Afonso Estebanez
(Peça lírica que dedico a minha irmã
Catarina Maria E. Stael
doce companhia mineira de minha
infância distraída– 19.08.2017)

domingo, 13 de agosto de 2017

TEMPOS MÁGICOS


Quão foram mágicos aqueles dias
em que do céu me vinhas abraçar
como deusa das minhas fantasias
onde tamanho amor vinha sonhar.

Com teu olhar de estrelas luzidias
vias minha alma para além do mar
num poente de aquarelas fugidias
que eu via do convés do teu olhar.

Não te lembrar seria um sacrilégio
da alma cativa de algum sortilégio
que só o amor consegue desfazer.

Agora quando já passado o tempo
ainda há sonho de contentamento
que me jubila de não te esquecer.


Afonso Estebanez
(Homenagem carinhosa a amiga
Maria de Lourdes Carvalho
que cativou minha admiração pelo
valor dedicado à minha poemática)

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

AMOR DESABITADO


Preciso dissipar tantas lembranças
de castelos de amor não habitados
e povoar de nascentes esperanças
meu coração de sonhos saturados.

Urge que meus amores inventados
pareçam-me fugazes semelhanças
com estátuas de seres encantados
pela crença inocente das crianças.

Exumem de minh’alma a sensação
dos vendavais de amor no coração
desde quando viver não tinha estio.

É preciso que eu finde do meu jeito
sem flores de pesar dentro do peito
que Deus não deixa perecer vazio!

Afonso Estebanez
(09.08.2017 – 1º da convalescença)

segunda-feira, 24 de julho de 2017

AO TE LEMBRARES DE MIM...


Quando te lembrares de mim
não necessitarei da memória
trancada no fundo da gaveta
ou das recordações restadas
na pena separada da caneta.

O ressonho dos teus sonhos
não te lembrará quem fomos
quando te lembrares de mim.

E serei tua manhã de manhã
na soleira de meu doce olhar
para fitar na tua luz ausente
o destino de reviver em mim.

E já terei reescrito a história
de tanto amor não resolvido
nas pétalas das rosas secas
que tu deixaste desfolhadas
na saudade do meu jardim...

Afonso Estebanez
(Dedicado a Maria Eduarda Marques Francisco
minha 500ª amiga adicionada em Dez.13.2008) 

quinta-feira, 29 de junho de 2017

SOBREVIVENTE DOS TEMPOS DE FELICIDADE


Porque o amor é misericordioso é que ainda sou um sobrevivente dos tempos de felicidade. Um tempo em que o segredo do coração era que nossos corações nos pertenciam, mas ainda não sabíamos. Um tempo em que o silêncio de meu pranto me ensinava a escutar os sinos tocarem na catedral do coração amado. Um tempo em que o amor era o salário que Deus me pagava em dobro pelo penoso ofício de sonhar. Um tempo em que o coração falava de sentimentos que somente a alma podia perceber, como a ternura que se deita no espírito da paz tal como a ave que se aninha nos ramos da brisa. Meu coração andava onde andava o coração amado, de tal sorte que, pulsando juntos, nossos corações entoavam uma canção de amor inesquecível. Então eu sou um sobrevivente dos tempos de felicidade...
Afonso Estebanez
MALMEQUERES, BEM-ME-QUER?
(haikais)





Virtudes humanas
são como os frutos mais altos...
Colhem-se a pedradas.

E para que as flores,
se me feres com espinhos
quando te dou rosas?

Barcos... Ah, os barcos!
Açoitam com suas quilhas
as ondas que os beijam!

Visitei o amigo
para celebrar a paz.
E perdi a minha...

Refúgio de lágrimas,
meu velho salgueiro ensina-me
a chorar sozinho...

 Afonso Estebanez