quarta-feira, 19 de abril de 2017

DA BOA NOVA DO AMOR
(V.1 Coríntios 13)


Fosse eu um gênio entre o céu e a terra
que achou a fórmula da paz no mundo,
nunca mais minha espada iria à guerra 
num tremedal de sangue tão profundo.

Mas sem amor, a morte é quem enterra
seus mortos na mortalha  do infecundo
vale de escombros tristes onde encerra
todo o aval de um caudilho moribundo.

Já o amor que mais sofre e mais padece
não se enerva e jamais se ensoberbece,
tudo suporta ou ama ou sofre e espera.

O amor me orienta ao superar outonos
ou suportar sem mágoa os desenganos
que não me afligem mais na primavera.

Afonso Estebanez
(Poema dedicado ao habilidoso poeta
J. Udine Vasconcelos
amigo em comunhão com a arte poética
que exaltamos com a fé e a fraternidade)

segunda-feira, 17 de abril de 2017

DO ABISMO DE ROSAS


Das rosas canto a mística indulgência
do hodierno epicurismo sem lamento,
num abismo de rosas vive a ausência
como dor que se dói sem sofrimento.

Do perfume de rosas sinto a essência
de eu gemer sem sofrer padecimento
como quem morre vivo da ocorrência
do amor n’um íntimo contentamento.

Já do meu berço eu concebi das rosas
de meu quarto em cortinas vaporosas
que as que eu via era somente o mito.

Mas as rosas do abismo que reinvento
são essas que da terra ao firmamento
ficam no chão, mas moram no infinito!

Afonso Estebanez
 (17.04.2017

sábado, 15 de abril de 2017

QUANDO NASCI


Quando nasci, ‘Mais Um’ era meu nome
Mais um do sangue rubro de imigrantes
Mais um com o dissonhar dos retirantes
Mais um para aditar-se ao que já come.

Mais um para igualar-se aos debutantes
Mais um ao qual louvar sem sobrenome
Mais um que por sonhar terá mais fome
Mais um que deva amar pelos amantes.

Mais um que se ajoelhe como um pobre
Mais um que se levante como um nobre
Mais um que deixe os bosques pela flor.

Mais um que um dia enseje como esteta
Mais um que um dia nasça o meu poeta,
que ame as rosas morrendo por amor...

Afonso Estebanez
ENTRE ROSAS E ESPINHOS


Eu levo a vida como o caminheiro
que afasta pedra bruta do caminho
e como o faz meu velho jardineiro
que isola a rosa íntima do espinho.


Entre rosas e espinhos ‘stou soeiro
de doer imune como eu passarinho
festejando entre o céu e o cativeiro
o reingresso dos pássaros ao ninho.


Eu levo a vida como as corredeiras
polindo pedra ao canto das ribeiras
banhando-me de mágoas sem doer.


Entre rosas e espinhos vou vivendo
tal como amei, vivi, e fui morrendo
sem me iludir do quanto vou viver.


Afonso Estebanez

quinta-feira, 13 de abril de 2017

CENTELHA

Nunca espero desta vida
o que a vida não me deu
minh'alma compadecida
é do amor que renasceu.

Corações a toda a brida
o meu nas beiras do teu
mas tu amavas dividida
sem saber qual era meu.

Montanhas a fé remove
e o amor é que comove
a centelha dessa chama

que me dói e não apaga
e me diz que não acaba
que o amor inda te ama.

Afonso Estebanez
(Poema dedicado à gentil
amiga Priscilla Basílio) 
RECONSTRUÇÃO DO POEMA 2


Reconstruir poemas para você é a oblação
de rosas de alguma primavera antecipada
no jardim do arco-íris em celeste floração.


Saiba que vivo das ternuras descortinadas
pelos campos de trigo onde primícias raras
dos meus cios maduros já desabrocharam.


Importa-me o enigma dos versos foragidos
do poema construído sob a luz da lua nova
que à noite se renova em segredo de nascer.


Poema reconstruído na maré do horizonte
na colina ou sobre os montes onde houver
a lua cheia sobre os corpos dos amantes.


Assim se faça do meu rumoroso coração
o leito vasto de você amanhecer em mim
com os vestígios do amor em construção...


Afonso Estebanez 
(Poema que dedico com carinho a amiga
Lucinha Borini Simões
como expressão de meu apreço a todos 
os membros dessa família que há tempos
reside no meu coração)
RECONSTRUÇÃO DO POEMA 1


Estou reconstruindo um poema para você
nascer em mim como renasce um pássaro
que reconstrói o ninho nos ramos da brisa.


Um poema que possa ao menos parecer
infinito como um beijo da luz nas águas 
da ribeira escorrendo na canção que fica.


Versos de espumas das alvas cachoeiras
ou de uma luz noturna que ao luar reflita
a paz de sua história reescrita nas estrelas.


Na parte proibida do amor em reencontro 
do lado oculto de meus anjos profanados
a face consentida da magia desse encanto.


De sementes fluindo em mim como cristais
de chuva nas vidraças da alma despertada
pelo toque da manhã que boceja na janela.


Poema reconstruído de carícias para você
adormecer em mim como chama resolvida
que se apaga no pó das cinzas sem morrer.


Afonso Estebanez
(Dedicado com carinho a amiga
Lucia Cristina Borini Simões
em reconhecimento à uma amizade há tempos
considerada ponte de nossa admiração)

terça-feira, 11 de abril de 2017

SONETO À MODA DO ABERDEEN


Nem do vão tombadilho o manso pegureiro
Nem o expungir do sangue escravo da memória
Nem o calar dos ferros no convés negreiro
Nem o silêncio tetro nos porões da História...

Nem mesmo ao fogo-morto o buzo do terreiro
Nem a oblação de Roma em toda a sua glória
Nem Prometeu remido ao brado condoreiro
Nem a paixão do Gólgota de amor à escória...

Nem as vozes d’América pelo infinito
Nem o condor do céu mandando um novo grito
Nem a dor de Ahasverus fausta de perdão...

Nem que algum dia o próprio Deus ouça e responda
Não haverá embuço que a vergonha esconda
Depois de cinco séculos de escravidão...

Afonso Estebanez
(Numa homenagem a Castro Alves)
CICATRIZES


Perdi de há muito a última quimera.
Jaz no relógio o outono que passou,
nem mais sinto sinais de primavera
nos desertos do inverno que restou.


A esperança não é nenhuma espera,
o horizonte é distante de onde estou
como a morte que não se desespera
insepulta a esperar por quem ficou.


Das cicatrizes ficam-me as ternuras
das paixões suavemente ressentidas
de pecados de amor não cometidos.


Só Deus sabe de quantas amarguras
hei me restar sangrando sem feridas 
dos funerais de sonhos não vividos...


Afonso Estebanez – 20-06-2016

segunda-feira, 10 de abril de 2017

RESGATANDO RAÍZES
(Dedicado à Família Correia de Lima)


Pelas vias do meu sangue
Reencontrei minhas raízes
Sobre a terra prometida
Aos parentes mais felizes.

Enfrentei minhas paixões
Sem perder as diretrizes
Augurando a que o amor
Não deixasse cicatrizes.

Fiz milagres de esperança
E esqueci os desenganos
Sem medo de ser criança
Do começo de meus anos.

Nos espinheiros da vida
Eu pisei sem sentir dor
Procurando aqui e além
Minhas raízes de amor.

Hoje aqui estamos juntos
Só Deus tem explicação
Para as coisas sem resposta
Que pergunta o coração...

 (Mary Lovely)
MOMENTO ÚNICO

Noite. Lua Cheia.
Brisa amena entre
Meus braços desdobrados.
Sinto o cheiro de teu fruto
E o sabor dos namorados.

Na descoberta de teus portos
Nossas mãos entrelaçadas
Como folhas de um só pomo
Uma vela entre dois barcos.

Que esse desejo me aqueça
Ao menos em pensamento
E todo o tempo me esqueça
Na memória de teus braços.

Mary Lovely
O PASSADO EXISTE...

Descartes: “penso, logo existo” em tudo,
como em tudo que excita o pensamento
quando sonho que existo, em sobretudo
se eu sonhar também for conhecimento.

Que amores guarda o meu criado-mudo
do quanto ouviu de amor e aprazimento,
já que em calar-se expressa o conteúdo
de guardar-se da ação de envolvimento.

Portanto eu penso que o passado existe
como uma escola ativa em que consiste
colher-se agora o que ontem foi outrora.

Sempre acredito em sonhos mal vividos
não lanço ao mar pesares transcorridos
eis o amor passa, mas não vai embora!


Afonso Estebanez
(Dedico este soneto a gentil amiga
Denise Moraes
pela sua generosa presença permanente
em minha página cultural)