sábado, 4 de fevereiro de 2017


A MAGIA DA EXPRESSÃO LITERÁRIA
OFICINA – MODULAÇÃO INTERATIVA - 01
*REGISTRO DAS PERCEPÇÕES SENSORIAIS*


Lembrem-se do que observamos no módulo 01: ‘o que existe em cada um de nós é a poesia em sua concepção psicodualista (inspiração), a reclamar materialização através de qualquer processo conhecido de comunicação humana (expressão)’. Assim, se o poeta não registra os estímulos ou reclamações do seu universo interior, está deixando de materializar – mesmo que embrionariamente - as próprias percepções sensoriais ou extrassensoriais que, em tese, poderiam dar à luz um singular poema. Isso é normal sim, e nada tem a ver, necessariamente, com a fenomenologia da paranormalidade. A existência e transitividade interior dos seres humanos são um fato. E essa transitividade deve ser registrada, nem que seja nos muros da rua como fazem os pichadores de muros e paredes. Com um batom vermelho, já registramos um haicai na camisa social branca, por eventual falta de papel e caneta. Augusto dos Anjos registrou o seu ‘Eu’ com o sangue jorrado dos próprios pulmões comprometidos pela tuberculose. Assim, pôde o autor de ‘Eu e outras poesias’ comprovar a existência de seu impulso irresistível de escrever sobre a morte, por mais indiferente ou vazio que lhe fosse o conteúdo. O que não deve acontecer em tais oportunidades é o poeta desprezar os estímulos interiores pelos avassaladores estímulos exteriores. Ele se transformaria, então, em mero espectador dos acontecimentos mais evidentes da vida. Os menos evidentes, mais belos e mais raros, estão dentro de nós mesmos.
Afonso Estebanez

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

PENITÊNCIA...


Flor desbotada do manto
rosa morta sobre a mesa
desalinho em cada canto
da casa que me despeja.

O! jardim em desencanto
ah, os pés de framboesa
os lírios secos no campo
as quimeras sem beleza.

Não tolero mais encanto
que me conte de tristeza
e hei olvidar esse pranto
e doer com mais leveza.

Mas amor! eu amo tanto
que a paixão afim viceja
na tristeza do quebranto 
que atirei na correnteza.

E o rio levou meu canto
com tamanha singeleza
que já ritmo do espanto
me fiz som da natureza.

Afonso Estebanez
LUDMILA



Por mais que pareça tão leve 
lembrança de um breve momento
é mais do que um pássaro almado
num sonho sem paz nem tormento...

É como se dentro de mim
assim como flauta no vento
uma voz que não sei bem onde
vivesse cantando tão perto
de uma dor que estava tão longe...

No peito já bronze fundido
antigo intocado na noite
perdida no rumo da aragem
como sons de cordas caladas
de alguma canção em viagem...

Na tênue plumagem da lua
seminua sobre a campina,
uma voz que não sei bem onde
talvez no rumor da neblina...
Uma dor que estava tão longe
na brisa que tange a cantiga...

Abriga minh’alma e acalanta
sem mágoa a esperança perdida!
E é tudo o que resta – uma sombra
de mim do outro lado da vida...

Afonso Estebanez
(Poema dedicado à minha filha do outro lado da vida)

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

TRABALHO COMO ESCREVENTE DE PEQUENOS PRÍNCIPES


Crônica Vencedora do 1º Concurso Literário do Tribunal Regional do Trabalho da Primeira Região – TRT-Rio – Rio de Janeiro-RJ – julho/2007

Afonso Estebanez Stael

          Trabalho como escriturário de rua de pequenos príncipes. Escrevente juramentado da última página de vida das almas que emigram para além de onde os pássaros alcançam. Bastam-me uma pequena mesa e uma cadeira, numa beira de calçada, na esquina de uma avenida ou entre os canteiros de um jardim. Meu salário depende do tamanho da ventura que o tempo lhes reservou. Se tão breve como um leve aceno de adeus ou eterno como o perfume da brisa no crepúsculo...

          Ele era nosso velho juiz de paz. Nada tão breve nem mais eterno quanto um velho juiz de paz. Quando ele me pediu que redigisse aquela carta, sentei-me à sua frente e logo percebi que suas memórias se abriam como páginas de um livro de esperança, como o espírito de Marcos abriu-se em pergaminho para o novo testamento. Que meu trabalho, então, não precisava de mais nada merecer além do sopro criador de um acendrado agradecimento, rendido a título de remição de última vontade.

          Pequenos príncipes nunca pretendem de mim, mero escrevente do evangelho secreto das almas, desempenho que devesse ir muito mais além de onde os pássaros alcançam. Como nosso velho juiz de paz, eles esperam registro das coisas simples da vida como um caso de amor vivido para sempre. Era assim entre os antigos colonos da fazenda de meu avô. Lembrar-me destas coisas é mais do que reler as páginas desarquivadas de uma velha cartilha de alfabetização à luz da lamparina à querosene. Como acender com um tição o cigarro de palha no final de uma história debulhada à beira do fogão de lenha. Ou emprestar a montaria à noite para um mensageiro levar a notícia da passagem de um parente distante que morreu em pleno estágio terminal de uma saudade. E sempre havia nisso uma sensação de recompensa como a do velho jardineiro que não necessita de que as rosas lhe agradeçam.

          Ele apenas queria que eu redigisse aquela carta.  Era muito pouco para quem testemunhou as aventuras e desventuras da desvairada geração de 30. Para quem aquele tempo não deu muita chance de sacar seu lenço branco no último duelo ao pôr-do-sol do estado novo. Para quem ajudou a tomar a si a honra do martírio pessoal da emancipação daquele pequeno município, atordoado ainda pelo doping-crack da burguesia cafeeira. Para quem, no celibato das honrarias pessoais, rendeu-se ao ímpeto de abrir os braços no alto da montanha e esbravejar ao vento da integração política para que soprasse a favor de nossas esperanças. No tempo em que fazer política por aquelas bandas era como engrossar fileiras de alguma cruzada santa para receber a bênção papal na clandestinidade.

          Deixei-me ficar ali parado, perplexo, ouvindo e registrando atentamente o segredo daquela receita de extremado afeto caboclo-português. Era tão pouco o que eu podia fazer ao pé daquela gigantesca sequóia de sabedoria emigrada por instinto de além-mar até nosso desconhecido santuário de palmeiras onde canta o sabiá. Ele queria apenas que eu redigisse aquela carta, para agradecer a tantos quantos a ele mais deviam. A ele, que até aquele certo dia de certo mês de algum certo ano passado, ainda ignorava que a ponte de safena que lhe introduziram no peito foi para conter a torrente de solidariedade que lhe transbordava o coração, aonde vinham matar a sede os iniciados do apego às grandes causas do amor ao próximo, os colegiais da educação política de resultados coletivos e os neófitos da consagração pessoal através do aplauso popular discreto e silencioso. Ele, que por isso mesmo foi recuperado, porque nasceu com a alma vestida de cabelos brancos, para trazer para nossas vidas o destino dos grandes sacerdotes.

          Desde as épocas jamais remotas aquele pequeno príncipe foi o melhor guardião de vinte e quatro horas por dia que a cidadela da liberdade já aplaudiu. Sua única obra múltipla nasceu perpétua como um testemunho bizantino para a História. No alto das colinas de nossas esperanças, ergueu aquela cruz de braços abertos para os quatro horizontes de nosso verde vale. Para iluminar mais longe do que os faróis de todos os depois de amanhãs...

          Talvez seja por isso que aquela espécie de seringueira florescida no marco inicial de nosso itinerário simbolize um estágio primário da vida além da morte. Bem mais além de onde os pássaros alcançam. Onde o sangue alviverde das amazônicas não se ressente do holocausto apocalíptico. Onde as flores selvagens submetidas na mortalha do inferno prematuro cumprem seu destino inexorável de renascer entre os espaços dos paralelepípedos.

          Foi assim que pude ver o meu pequeno príncipe pela última vez. Caminhando como um flamboyant multiplicado ao longo daquela rua. Cabelos brancos, distribuindo cumprimentos e versículos proféticos de vida eterna ou jogando amarelinha de afeto público no seu mais íntimo parque infantil. Ele e sua bengala curvada ao peso daqueles bem vividos oitenta e oito anos.

          Mas ele só queria que eu redigisse aquela carta. Que acabei não redigindo. Não tive como desincumbir-me daquele encantamento. Acho que não deu tempo de me contar tudo sobre todos os dias de solidariedade que nos dedicou e que Deus, para marcar as suas obras, fez de prata cada fio de cabelo com que ele distribuiu a todos nós a sua paz.

          Um de nós desistiu. Tenho que fui eu.  Não estive mais com ele. Nem ele a mim me procurou. Penso que simplesmente aconteceu. E é esta agora a única maneira que me acudiu de levar a termo a redação daquela carta, numa escritura que não podia pertencer apenas a alguns. Mas a todos nós...


          Afinal, somos todos responsáveis por aquilo que cativamos. Exupéry diria que o personagem que me gratificou com o salário desta crônica era um desses pequenos príncipes que regressou ao seu planeta de origem. Levado pela revoada dos pássaros selvagens. No dia em que isso aconteceu, soubemos que nosso pequeno príncipe aproveitou para evadir-se, pássaro selvagem que emigrou....

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

DUETO DE CONCEPÇÃO DA FLOR


Sob o viço do amor pelo amor pressentido
de súbito veio à luz das entranhas do nada
a semente da flor de um amor não perdido
no rescaldo das cinzas da chama apagada.

Talvez de algum deserto ainda não sabido 
por nós dois percebido ao final da jornada 
a semente brotou como o sonho cumprido
desde a aurora do outono da vida passada.

E em silêncio morremos com esse segredo
convertendo paixões num ritual sem medo
até que a flor se exulte eterna na alvorada

Até que o passamento ao fim seja sem dor 
enquanto a exaltação da morte seja o amor
que se ufana de amar tua alma apaixonada!


Afonso Estebanez & Analuz Carvalho
(Concebido em 29/01/2017)

sábado, 28 de janeiro de 2017

MEUS ANJOS FALAM

Quando meu anjo te fala
teu anjo fica em silencio.
Quando meu anjo se cala
teu anjo fala o que penso.

Quando teu anjo me fala
meu anjo fica em silencio.
Quando teu anjo se cala
meu anjo fala o que penso.

Tudo o que teu anjo fala
meu anjo fala em silêncio.
Cada anjo então se cala
para falar o que penso.

Tudo o que meu anjo fala
teu anjo fala em silêncio.
O anjo que então se cala
é o que fala o que penso.

Anjos são dois dialetos
de uma única linguagem
quando falam dos afetos
no silêncio da mensagem.

Eles são esses dois lados
das canções e seu cantor
que juntos falam calados:
“Como te amo, meu amor!”.

Afonso Estebanez
FLAGRANTE DE AMOR


Quantas vezes fui pecador reincidente
ao me flagrar à sós na beira do oceano
exilado no hospício do amor penitente
da paixão delinquente sem fito profano.

Frequentemente a vida me julgou insano
se eu tentava vencer a morte subjacente
no condoente funeral de um desengano
que se cria nascer do amor sobrevivente.

A sós eu cria ser minh’alma esse deserto
na linha do horizonte cruelmente incerto
para espalhar aos ventos os delitos meus

e eu nem mesmo podia cogitar que assim
o exílio voluntário desse amante em mim
era uma forma de falar a sós com Deus!...


Afonso Estebanez
(Carinhosamente dedicado à amiga
Lenice Ebert Maziero, por mérito).

‘DOCEPOEMA’:
UM TRIBUTO A CORA CORALINA


Eu sou o amor fiel das coisas simples
das conversas da brisa com a aurora.
Os realces dos brilhos sem requintes
que há nos rubis dos brincos 
das amoras...
E eu sou a flor servil daqueles pomos
que saciam os sonhos das quimeras,
os frutos de verão dos meus outonos
entre o último estio 
e as primaveras...
Guardo no corpo de jardins agrestes
as linhas de um poema à flor da pele 
escrito pelas mãos do amor silvestre
para que em mim o amor
mais se revele...
Fiz com saudade a ponte da subida
deixei rosas na encosta das colinas.
Com coisas simples confeitei a vida
na doce lida de ser 
Cora Coralina...

Afonso Estebanez
(Dedicado à comunidade *Poemas à Flor
da Pele* - Ger. Poetisa Soninha Porto/BR)
DEPOIS DA FESTA



É preciso, pelo menos uma vez na vida, 
ser o último a deixar a festa... 
Dispensar os convidados antes de chegar a aurora. 
Exorcizar os aposentos com galhinhos de arruda. 
Desligar o som, fechar janelas e cortinas, 
desenlaçar os reposteiros, 
varrer da memória a algazarra das crianças 
na calçada... 
Dissipar o perfume das adolescentes. 
Dispensar as frivolidades dos últimos abraços. 
Recolocar no jarro aquela rosa 
que esqueceram sobre a mesa. 
E, finalmente, quando a noite 
trouxer de volta o silêncio numeroso, 
apagar definitivamente a luz... 
Depois dormir... 
Sonhar... 
Despertar... 
Viver... Viver...
Depois dormir... 
E morrer... Como quem morre
definitivamente... 
Para não incomodar 
ninguém...

Afonso Estebanez
CAMINHANDO COMIGO


Se minhas rosas não ouvirem mais
o que delas compus como canção,
é tempo de convir que estes sinais
são contornos finais de uma ilusão.

Vou levando nos sonhos terminais
restos mortais das luas sem clarão 
dessas noites já mortas nos beirais
do alpendrado sem luz do coração.

Jamais fui nada além de jardineiro.
Nunca me vi além de meu canteiro
que ao invés de martírio foi paixão.

Peno de minhas rosas indo embora
vou caminhar sozinho pela aurora, 
que andar sozinho não é solidão!

Afonso Estebanez