quinta-feira, 30 de março de 2017

PASTOREIO V


Numa vida eu fui pastor
noutra vida fui a ovelha
hoje sou como centelha
de dar paz ao desamor.
Pastor, eu tive o relento
ovelha, os fios do vento
com um sopro de calor.

Hoje sou meu jardineiro
cortejando a minha flor,
a quem dei o meu amor
na orla do meu canteiro.
Lá restei-me ao coração
que foi vinho e foi o pão
do convívio hospitaleiro.

E quando recorro ao fim
sobre o vazio dos meios
e seus meros devaneios
de rosa nascida em mim
vejo que nada é perfeito
ou talvez seja meu peito
algum canto de jardim...

Afonso Estebanez

quarta-feira, 29 de março de 2017

A MAGIA DA EXPRESSÃO LITERÁRIA
OFICINA – MODULAÇÃO INTERATIVA - 14
*A POESIA NO SANGUE DO UNIVERSO* 


O texto que ora privilegio – “A POESIA NO SANGUE DO UNIVERSO” - é afirmação de uma percepção incomum da poesia nos tempos atuais, merecendo ser lido, refletido, compartilhado e divulgado no âmbito das iniciativas para credenciamento da arte da poesia. Aproveito para levar o belo e oportuno texto de Sheilla Corrêa, por manifestação do grupo “Sulla Fernandes Poesia” para o blogger da Magia da Expressão Literária - oficina - ao qual espero se incorpore, bem como se integre à nossa página de natureza cultural. Fico agradecido ao grupo “Sulla Fernandes Poesia” pelo envio desta pérola!

 “A POESIA NO SANGUE DO UNIVERSO” POR SHEILA CORRÊA - “A Poesia é um vírus de sentimento, de percepção aguda, de energia premonitiva, que circula na veia do universo. E se infiltra às vezes como soda cáustica, carcomendo as hemáceas das certezas ideológicas, explodindo as plaquetas da manipulação dos espíritos, das vontades e das consciências. Ao Poeta, com a seringa na mão, não cabe controle, não cabem indicativos de comportamento; não adiantam sangrias para livrarem-se de sua contaminação. Poeta perturba a ordem no rebanho, simplesmente por não entender a linguagem do berrante. Ele brinca com o berrante. Usa-o como caneta para escrever poesia no capim. Espia curioso na boca do berrante, quebra-o em pedacinhos só para ver o que tem dentro. Poeta fica louco, como Holderline; se mata, como Mishima; xinga heróis da Pátria, como Benigna; expõe-se à violência e ao exílio, como os poetas palestinos. Sem nem saber por que razão faz isso. Faz porque faz. A minha grande pergunta para a sociedade é esta: E agora? A Modernidade Eletrônica chegou e ainda estamos aqui, riscando na pedra da alma. O que é que vocês vão fazer com a gente? Vão nos usar como brinquedinhos de controle remoto? Vão nos paralisar à guisa de símbolos midiáticos? Vão nos fragmentar para cabermos no site? Bom! Se vão fazer isso tudo, façam com cuidado, porque a gente tem vírus”.

Sheilla Corrêa
(Colaboração Interativa de “Sulla Fagundes Poesia”).

Afonso Estebanez
VIDENTE


Tudo claro como o raio
e simples como a serpente
evidente como a morte
que há na sorte da vidente.
A cruz à beira da estrada
porteira que não se move
o cantar das corredeiras
tão cansado me comove.

E meu corpo hirto na relva,
horto de eras ao relento
pensamentos nos abrigos
dos remoinhos do vento.
Cerca de arame farpado
e esse entulho no jardim
milho novo replantado
nas vertentes de alecrim.

Duas ovelhas no aprisco,
um cão magro na cadela
dois jacintos pendurados
nos dois lados da janela.
Tudo certo como a morte
esperando simplesmente
evidente quanto a sorte
desse escorte da vidente....

Afonso Estebanez

terça-feira, 28 de março de 2017

HAIKAIS


Do seio materno
goteja o leite aquecido...
Nascente de amor.

Querias um homem,
mas fazes de mim um deus
na cruz de teus braços.

Saciada de beijos,
entregas-me, enfim, a taça
do teu melhor vinho!

Soutien no leito...
Onde o refúgio dos pássaros
distantes do ninho?

Afonso Estebanez
HAIKAIS


Milagre da vida.
O sêmen alcança o óvulo.
O embrião, a luz!

Ceia de Natal.
Na cabeceira da mesa,
o lugar vazio...

Ah, de beijo em beijo,
quero ver onde vai dar
teu mapa de sardas...

Dorme... Os seios nus...
Pulsa uma cruz nos calvários
da minha paixão...

Plantando em teu corpo,
lanço sementes de beijos
no alto das colinas...

Afonso Estebanez 
HAIKAIS


Maktube... Atração
pelo amor que não se sabe.
Mas se reconhece.

Aquela libélula
pousada na orquídea roxa.
A mulher ausente...

Refúgio de lágrimas,
meu velho salgueiro ensina-me
a chorar sozinho...

Decepado o tronco,
o carvalho renasceu
em forma de berço.

Afonso Estebanez
HAIKAIS


Para que as flores
se me feres com espinhos
quando te dou rosas?

Ah, nunca dei rosas
sem ferir com os espinhos...
Celerado amor!

Deixa-me tocar
com as mãos a tua boca...
Eu sei colher rosas!

Pétala cor púrpura
no linho branco do leito...
O primeiro amor.

Afonso Estebanez
HAIKAIS


E a lua reflete
nas águas calmas do lago
um cisne de prata...

Deus pôs as estrelas
no céu... E quem pôs a lua
no fundo das águas?

Inverno... E ainda colho
no tronco daquele corpo
dois pomos maduros.

Teu aniversário.
As rosas são sempre iguais...
Porém, nunca as mesmas.

Afonso Estebanez
HAIKAIS


O menino morto.
A mulher tece o quimono
com fios de lágrimas...

Numa casa em Kioto.
A dor discreta... Na esteira,
o menino morto.

Sol nascente... As mãos
do dia vão desdobrando
a luz da alvorada...

Sol poente... As mãos
da noite vão redobrando
a luz do crepúsculo...

Afonso Estebanez
JUDAS


Os que venderam a fórmula
da bomba e da talidomida
mataram mais do que Judas
com o beijo da traição.

O Mestre expiou-se na forca,
mas os discípulos, não!

Os mercadores de armas
os caçadores de índios...
Todos renegam a forca.
Os sadânicos satãs
os fratricidas armados
os algozes travestidos
de juízes da multidão...

Todos mataram mais cristos
do que o mestre vendilhão...
Mas se passam naturalmente
por Judas – o bom ladrão!

Afonso Estebanez
(Poema dedicado à poetisa de Poetas Del Mundo
– MEG KLOPPER)

segunda-feira, 27 de março de 2017

A MAGIA DA EXPRESSÃO LITERÁRIA
OFICINA – MODULAÇÃO INTERATIVA - 13
*FASCINAÇÃO PELA DESCOBERTA DA POESIA*


Ouvi de uma ilustre amiga virtual: “Aprendi a gostar de poemas no dia em que percebi que era possível fazer poesia na prosa e que a poesia vai além daqueles versinhos que eu nunca gostei de fazer, quando as professoras da escola pediam. Poesia pra mim também é um jeito de ver a vida, uma maneira diferente e reveladora de entender (ou não) o mundo. Tem um livro do qual eu gosto muito que adverte: “Quando nem Freud explica, tente a poesia”, em que Ulisses Tavares seleciona poemas que passam por temas estudados pela psicanálise. É fascinante ver que, às vezes, mesmo antes da criação da psicanálise, os poetas conseguiam expressar em versos conceitos tão difíceis de entender racionalmente ou logicamente”. Uma poetisa, de quem prefaciei o primeiro livro de poemas, indagou-me sobre a arte de escrever sem medo: "NÃO SERIA EXATAMENTE ESTA A ESSÊNCIA DA ARTE DE ESCREVER (SEM MEDO), SEJA A COMUNICAÇÃO ENTRE NOSSO INCONSCIENTE (A CAVERNA) E AS EMOÇÕES NELE CONTIDAS E A VIDA CONSCIENTE E, POR CONSEGUINTE, O ATO DE ESCREVER EM SI? COMUNICAÇÃO ESTA QUE SE DÁ POR “BRECHAS" POR ONDE ESCAPAM NOSSAS SENSAÇÕES E ENCONTRAM A LUZ ONDE SE MANIFESTAM AS PALAVRAS ESCRITAS? A NECESSÁRIA INTER-RELAÇÃO ENTRE O MUNDO “ESCURO" DE NOSSAS PROJEÇÕES INCONSCIENTES E O MUNDO DA LUZ POR ONDE ESCAPAM EMOÇÕES, REPRESENTAÇÕES E IDEIAS?”... Isto mesmo! – uma atitude do potencial das forças interiores (inconscientes, psíquicas ou espirituais) que se materializa ‘conscientemente’ em espécie poética (propósito estético). Fazer poema não é um ofício de prerrogativa acadêmica. É uma ATITUDE DA INDIVIDUALIDADE HUMANA. É consequência da descoberta de si mesmo. Não é para ser discutido nem criticado, desde que a crítica é ‘julgamento de valores’, nem sempre objetivo. Os valores da renascença dos séculos XIV a XVI somente foram julgados e reconhecidos a partir da segunda metade do século XIX: Ernest Hemingway, Gertrude Stein, William Faulkner. S. Eliot, Virginia Woolf, James Joyce, Mário de Sá-Carneiro, Fernando Pessoa, Cesar Vallejo, Pablo Neruda, Franz Kafka, Marcel Proust ou Vladimir Maiakovski. Atitude!

Afonso Estebanez

domingo, 26 de março de 2017

VALSA DE VERSOS
(Hendecassilábicos)


Não quero uma valsa que seja plangente
que engana a nobreza se for orquestrada
mas quero uma valsa que seja indolente,
decerto ao compasso da pátria enlutada.

Se morto, eu espero o silêncio eloquente
do amor descontente da vida engessada,
nem quero uma valsa dançada por gente
de ação indecente em torpeza enterrada.

Sepultem meu corpo no outeiro das aves
sem valsa que imite seus cantos suaves,
e chega do estresse dos sonhos mortais.

Eu quero uma valsa embriagada de azul
da altura das nuvens do céu de Stambul
bem onde o infinito me alumbre de paz...

Afonso Estebanez