sábado, 18 de março de 2017

A CASA DE ENGENHO


Essa casa de engenho abandonada
guarda um segredo trágico de amor,
fora o final de uma paixão sangrada
segundo um rude escrito sem autor.

Notava-se que a noite amedrontada
num silêncio embuçava a etérea dor
se a morte dos amantes foi tramada
sem que do amor restasse desertor.

Todos da casa então foram embora.
Hoje é jazigo onde só vem a aurora
despertar do veneno seus amantes.

Ô cenário de amor shakespeariano
que mata por prazer ou desengano
e morre por impulsos provocantes!

Afonso Estebanez

segunda-feira, 13 de março de 2017

A MAGIA DA EXPRESSÃO LITERÁRIA
OFICINA – MODULAÇÃO INTERATIVA – 11
* UM PINGO DE “OS SERTÕES” *



UM PINGO DE “OS SERTÕES” – Mais do que um meticuloso resumo de autoria da notável professora, poetisa e escritora cantagalense Ruth Farah Nacif Lutterback, Um Pingo de “Os Sertões” supera a expectativa autoral de que o conteúdo desta obra significasse apenas mais uma vertente didática na introdução ao estudo de “Os Sertões” – essa inestimável herança cultural que o cantagalense *Euclydes Rodrigues Pimenta da Cunha legou à humanidade. Não se trata apenas de um “pingo” literário nos mares estagnados da literatura do pré-modernismo brasileiro. Porém, em se tratando de Euclides da Cunha, a iniciativa da professora Ruth Farah se transforma em ‘atitude-denúncia’ dotada de eficácia bastante a aumentar o volume do oceano cultural que banha os espaços continentais alcançados pela obra do autor de “Os Sertões”.

Estão aqui preservados a ordem do itinerário – A Terra, O Homem e A Luta – e a denúncia social, política, jornalística e antropológica dos contrastes culturais entre os dois “brasis” cruelmente revelados: o do sertão e o do litoral. Ruth Farah lança luzes sobre a crítica ao nacionalismo exacerbado da população litorânea que, cega para a realidade da sociedade mestiça produzida pelo deserto, agiu com ferocidade criminosa contra a própria raça: a autora chama a atenção sobre o grande tema de “Os Sertões” e sobre o tom crítico com que se analisa o que séculos de atraso e miséria são capazes de produzir em regiões geográfica e temporalmente separadas do resto do país – lideranças fanáticas, delírios coletivos e inconformismos sociais.

A intenção de Ruth Farah até poderia ter sido a de trazer a lume – numa síntese possível e fiel aos aplausos dos estudiosos – o somatório dos três elementos fundamentais da tragédia nacional que, jornalisticamente relatada por Euclides da Cunha nas páginas de “Os Sertões”, ainda hoje haveria de levar a consciência da sociedade brasileira ao patíbulo do tribunal de julgamento da História, por crime coletivo contra a humanidade. Aos nossos olhos, Ruth Farah o conseguiu ao expor, com transparência e evidente conhecimento de causa, os fatos, os importantes questionamentos e as grandes formulações sociológicas, antropológicas, históricas e políticas, para que compreendamos, com espírito mais crítico, o país de antes e de depois da República, segundo os embriões sócio-políticos revelados por Euclides através do processo de DENÚNCIA contra a realidade brasileira, então ainda deitada no berço esplêndido do romantismo decadente.

Da síntese da autora extrai-se ainda o que a partir de 1902 (publicação de “Os Sertões”) tornar-se-ia evidente na literatura brasileira, como os traços e condições reais do sertanejo, o ‘jagunço’, o ‘cangaceiro’, a ‘sub-raça’ do nordeste brasileiro: o herói determinista que resiste à tragédia de seu destino fatalista e irreversível.
É inevitável a constatação de que “Os Sertões” é uma das obras-primas da literatura brasileira. Como repórter de O Estado de São Paulo, Euclides da Cunha testemunhou a Campanha de Canudos, uma luta sangrenta contra os fanáticos que, chefiados por Antônio Conselheiro, ‘ameaçavam’ a segurança das povoações vizinhas. Mas em “Os Sertões”, admiráveis foram os estudos da terra e do homem do sertão nordestino, de suas ATITUDES na demonstração da capacidade de resistência.

A exposição de Ruth Farah deixa claro que “Os Sertões” foram uma obra que até hoje incomoda. Provoca e instiga. Estimula a pesquisa, a investigação da verdade, as reações contra o conformismo, as idéias de renovação de valores, os questionamentos político-sociais e a busca de soluções.

Estamos, assim, diante de um Euclides da Cunha cienticifista, historicista e naturalista – de um lado – que rompeu com o imperialismo literário da época – de outro lado – e, em suma, deu início a uma análise científica sem precedentes em benefício dos aspectos mais importantes da sociedade brasileira. Nossos incondicionais aplausos...

Afonso Estebanez
Cônsul de Poetas del Mundo para Cantagalo/RJ

*RUTH FARAH NACIF LUTTERBACK (1932-2017), mais conhecida apenas como Ruth Farah, escritora, trovadora emérita, professora e incentivadora da cultura regional, nasceu no município de Cantagalo-RJ em 11 de abril de 1932. Seus três amores culturais: Cantagalo, Educação e Euclides da Cunha. Já participou do Colóquio Internacional “Caminhos da Memória” e recebeu convite da UNESCO pela sua opinião sobre a Paz Mundial expressa em versos. Seu nome muito festejado se encontra em várias Antologias Literárias, entre as quais a “Devemos Ver com os Olhos Livres”, com destaque para “Um Pingo de os Sertões”, ressaltando a memória literária legada por Euclides da Cunha, obra lançada em 2009, com apresentação de capa pelo poeta e escritor  cantagalense Afonso Estebanez Stael, Cônsul de Poetas del Mundo em Cantagalo. Ruth Farah foi Delegada da UBT (União Brasileira de Trovadores) em Cantagalo. Faleceu em 21 de fevereiro de 2017 e continua sendo celebrada em todos os movimentos culturais promovidos na cidade.


CANTAGALO PRESS POEM


Minha sombra cativa do cipreste
dos teus muros e ruas – rei deposto
na torre desse exílio – que me reste
ao menos a lembrança do teu rosto...

Se regressar por lei me for imposto
aqui estarei rendido em solo agreste
senhor do resto apenas recomposto
da glória que meu canto te reveste.

Se uma esperança acaso derradeira
reclamar em minh’alma forasteira
o regaço materno que me estreitas...

Tua paz calará os meus protestos
e para sempre deitará meus restos
nesse vale de luz em que te deitas!

Afonso Estebanez

(O autor foi incluído por decreto municipal
“Filho Ilustre de Cantagalo” entre várias
autoridades, escritores e artistas consagrados,
e representa sua cidade natal no Movimento
de “Poetas del Mundo”com representação
na Argentina, Bolívia, Brasil, Chile,
Equador, França, Suíça e Espanha).
SENSAÇÕES ANÍMICAS


Vem ver a noite dando à luz a lua
vem ver a aurora anêmica ao luar
vem ver o alvorecer que só recua
depois que expele o ímpeto solar.

Vem ver a praia rejeitando mortos
que a raça intolerante põe no mar
vem ver a saga dos desvios tortos
vem ter um pesadelo sem sonhar.

E ver a farda ser o pão das traças
caindo as máscaras dos generais
vem ver a babelização das raças,
vem ver um arrotar de vendavais.

Vem ver o mar beber a água suja
que já se vê dos fétidos mirantes,
vem ver os designers da garatuja
que imita o ícone dos almirantes.

O mar está bebendo o nosso Rio
que está com água suja de beber
vem ver esses calígulas sem brio
que nos tiram o brio sem morrer!

Afonso Estebanez

domingo, 12 de março de 2017

MORRER PARA FICAR


Foi para pôr os fados no destino
que renasci para bordar poemas
com a alma marcada de menino
tão cedo já remindo suas penas.

Não sei se ainda tenho desatino
ofensas inocentes ou pequenas
que devam ser tiradas do divino
solar de onde lúcida me acenas.

Se for para viver um pouco mais
do que vivi dos velhos carnavais
eu vou morrer para jamais voltar.

E vou morrer se tanto for preciso
sabendo que tu estás no paraíso
à espera de eu morrer para ficar.

Afonso Estebanez
SONETO DA REVELAÇÃO


Andei na vida atrás de uma resposta
que aclarasse a pergunta que me fiz
se minha pobre infância hoje remota
inda é meu dom de envelhecer feliz.

Eu sempre sustentei a alma exposta
como a lâmpada acesa do aprendiz,
a ver se habita mesmo uma suposta
mágoa no amor que oculta a cicatriz.

À exaustão transpus mil cordilheiras
e os rústicos agrestes das fronteiras
onde houvesse uma rosa no jardim.

Embalde! Eu já aprendi com a idade
a despeito da ausência da saudade,
que tudo estava aqui dentro de mim!

Afonso Estebanez

sexta-feira, 10 de março de 2017


A MAGIA DA EXPRESSÃO LITERÁRIA
OFICINA – MODULAÇÃO INTERATIVA - 11
*REPASSANDO ‘POEMA x POESIA’*


O estágio mais importante de nossos estudos iniciais nossos acompanhantes já devem ter alcançado: a CONSCIÊNCIA e o RECONHECIMENTO de que ‘Poesia & Poema’ são muito mais importantes do que as espécies, os gêneros ou as formas fixas que os possam identificar ou distinguir. Já elaboramos o mencionado Módulo 05 exatamente sobre o assunto levantado, que já foi postado. Mas são os Módulos 05/06 exatamente que têm a função de DESCOMPLICAR DEFINITIVAMENTE essa questão, mesmo que com as inevitáveis conceituações de ordem técnica. Após, nos embrenharemos no ‘sertão e veredas’ das milhares de formas – MILHARES MESMO – de ESCREVER POEMAS SEM MEDO. Temos lembrado que ‘poema e poesia’ estão quase sempre onde menos esperamos: num bilhete de despedida para o trabalho, numa redação escolar, nos olhos do sapo, numa florzinha do jardim, na sombra noturna de uma árvore, na brisa passageira, na água fervendo na panela, no barulho da vassoura recolhendo o lixinho do quintal... e, às vezes, até no ronco noturno da pessoa amada. Em tudo estão o poema e a poesia! Mas se essa ‘dupla’ divina estiver no seu atento coração, nada mais sublime. É só celebrar de forma que convença mais a sua própria alma do que a dos outros...

Afonso Estebanez
ALMA EXTINTA
A extinção é quando a alma perdida
nunca mais vai sentir que se perdeu
na perdição da ausência consentida
como flor sem perfume que nasceu.

Perdeu o ‘affair’ da solidão bandida,
a referência que em sonhar lhe deu
a consciência de reencontrar a vida
no resultado infausto que escolheu.

A alma extinta é ave que não canta
e é a sombra que nunca se levanta
do chão onde se banha a claridade.

Não sabe nada do que menos sabe
só pelo amor que ainda se lhe cabe
qual a fé a esperança e a caridade!

Afonso Estebanez

quinta-feira, 9 de março de 2017

SUSPEIÇÃO


Dirigiu-se ao confessionário
tão casta mulher pertencida,
o confessor, um missionário
de passagem despercebida.

Ela assim desfia um rosário
de um só pecado pela vida:
tinha no amor concubinário
o ‘nunca estar’ arrependida.

Eis a colônia que ele usava
expôs com quem ela ficava
renega a pena e diz porque:

“É que me diz a consciência
não cumprir essa penitência
porque meu amante é você!”.

Afonso Estebanez

quarta-feira, 8 de março de 2017

DO PRIMEIRO MANDAMENTO


Não visiteis ninguém
para não serdes visitados.
A ninguém deis vossa luz
para não serdes apagados.

Nem ao próximo como a vós mesmos
nem aos vossos irmãos enfermos
nem vossas mães nem vossos pais.

Não visiteis nenhum abrigo
nosocômio ou rendez-vous.
A nenhuma reunião patética.
Deixai em paz os deserdados
que deverão morrer como nasceram
– de alma nua e esperança histérica.
Como a herança transmissível
da miséria sociogenética.

Essa fome de amor
não é vossa descoberta.
Nem Freud quis saber de nada sobre ética.
É da deformação atípico-cromossômica
dos bastardos retransmitir o vírus da apatia
na segregação euroafroasiáticolatinoamericana
como moléstia de grandeza
desprezível.
A miséria fatalista
passa... Mas a herança miserável fica.
A solidariedade humana abraça.
Mas vosso amor não ratifica.

Os flagelados terceiromundistas não necessitam
de vossos cacoetes anacrônicos de culpa
nem da quebra de protocolo de vosso
faustoso exílio
de gabinete.

Distanciai-vos dos necessitados
para que eles não vos peçam nada.
Não visiteis os órfãos de esperança
nem os filhos de conflitos
entre pais de alma
currada...

Deixai que a brisa à noite lhes afague a fronte
como as pálidas mãos de Verônica à face do martírio.
Não vos aproximeis demais dos que são loucos
para que não vos possam transmitir
o seu delírio irreversível...

Esquecei-vos das prostitutas.
Não as importuneis com vossa gonocele diluvial
disfarçada com lacinhos de fita das caixinhas de bombons.
Não lhes presenteeis com esse celibato quaresmal
cheirando a sebo de biblioteca do reino medieval.
Deixai as belas com seus troponemos de estimação
e as feias de acantose nos braços de Melpigui...
Vossas ânforas seminíferas não contêm
as propriedades eritromicinais
do beijo fálico e penetrante
nem a afrodisia do abraço antibotrópico
do misantropo amante.

Secretamente buscaríeis nos prostíbulos
vosso cupio dissolvi numa casta Guiccioli
ou numa pérfida Madame Bovary.
Mas as Jocastas não estão ali.
Elas estão pelas cidades cenográficas do mundo:
televisões jornais revistas cassinos de subúrbio jogos clandestinos
apart-hotéis de luxo estúdios jantares de embaixadas shopping-centers jockey’s club e mais outros desbundes
de rameiras miladyzadas...

Definitivamente, nada!
Não visiteis a mais ninguém e nem a mulher amada...
Nenhuma rua nenhum parque nem cidade nem país.
Nem o Iraque devastado nem a zona desmilitarizada.
Nem os bosques de Viena ou de Dexville Notch.
Nem as muralhas da China ou as torres da Bastilha.
Nem os muros das lamentações de Parati.
Nem o muro ainda envergonhado
de Berlim...

Não visiteis
nenhuma universidade.
Nem a dos eruditos sábados dos botequins.
Nem os devotos jardineiros suburbanos
que cultivam as flores casuais
renascidas indifentemente
na fenda das calçadas
municipais...

Deixai as flores para as borboletas
e aferrolhai as portas de vossos aposentos
que ao vosso domicílio a brisa não invada
com o perfume renovado das heras rastejantes
dos jardins abandonados...

Mas se por causa da décima primeira praga
tiverdes que deixar a casa não pichada pelo anjo
e não houver nenhum perfume como o incenso do jasmim
ou qualquer coisa assim...

Luminosa manhã!
Visitareis primeiro a vós mesmos.
Depois retribuireis a própria visita
num gesto contraditório em favor da paz que urinastes no horizonte perdido da infância...

Pela paz
das nossas mulheres e crianças violentadas
pela paz eventual do divino instante do desvio de trajeto da bala perdida... consentida... transmitida... retransmitida... homicida...
pela paz concebível por trás da venda inconcebível da justiça
pela paz afogada no dilúvio de lágrimas de nossos pais
pela paz que perdeu o barco da travessia humana
da corda da forca que não arrebentou na hora
da contramão da esperança sem freios
do moribundo que a morte esqueceu
do apito final do jogo perdido
da gargalhada comprada
que o palhaço devia
e não deu...

E finalmente visitareis os mais próximos de vós mesmos
se não houver enfermos que vos peçam votos.
Então a vossa mãe e só então ao vosso pai
principalmente se já estiverem mortos.

Mas na hora da visita obrigatória
a Deus... Ah, gente! É aí que a coisa vai pegar...
A gente vai ter que ajoelhar se não puder
e implorar
e chorar
e pedir
e orar
e ir
até onde Deus quiser!

Afonso Estebanez
“SOBRE O AMOR”

Não escreva poema sobre o amor
mesmo que pelo amor seja capaz
e tente, como um pássaro cantor,
tirar do instinto um cântico de paz.

Escreva sobre o mar e seu rumor
a lembrança que nunca se desfaz
ou sobre a infância farta do sabor
do qual o amor ainda se compraz.

O tema vai além da compreensão
o amor é infenso ao foro da razão
eis não é simples fonte de prazer.

O amor não é ofício e nem alento
é o talento divino é o fundamento
do amor a que foi dado conceber!

Afonso Estebanez
SENSAÇÕES
Não gosto de movimentos.
A não ser dos sentimentos
de amores de uma mulher.


Não gosto de movimentos.
Senão de nuvens e ventos
quando passa uma mulher.


Não gosto de movimentos.
Senão daqueles momentos
do prazer de uma mulher!

Afonso Estebanez