domingo, 1 de junho de 2014

COMO A ALMA

COMO A ALMA

Cai a chuva de alma leve
nas ribeiras de alma fria.
Cala a ave o canto breve
cala a flor e o fim do dia.

Tanto faz a chuva esteja
só na aragem do jardim.
Essa brisa que me beija
fica bem dentro de mim.

Cai a noite e seu trajeto
vira alfombra enluarada
como a mágica do afeto
nos olhos da namorada.

Cai a aurora e vai a lua
no meu sonho rotineiro
de ficar minh’alma nua
no calor do travesseiro.

Cai a chuva e cai a vida
onde cai tanta saudade.
E minh’alma anoitecida
é uma eterna claridade!

Afonso Estebanez
(Poema dedicado a Giannina Costa
– passageira do feliz amanhecer)

INSTINTO DE FLOR

INSTINTO DE FLOR

Minha alegria termina
no começo da tristeza
de ficar sem a menina
que habita tua beleza.

Alguma rosa germina
no cinzel da natureza
da tua parte feminina
contornada de leveza.

Uma rosa me alucina
o sentido da nobreza
teu desejo me fascina
e o fascínio te deseja.

A beleza me domina
os delírios da pureza
e no aroma da resina
germina a tua beleza.

Afonso Estebanez

poema em pedaços

poema em pedaços

todo dia é um dia santo
todo dia vem o pássaro
todo dia é meu encanto
todo dia é meu cansaço

todo início é de começo
todo início é de destino
todo início tem o termo
todo início tem espinho

todo resto é de epitáfio
todo resto foi de quem
todo resto é de pedaço
todo resto de ninguém

toda noite é coisa e tal
toda noite é vai e vem
toda noite com aurora
toda noite me faz bem

todo verso eu escrevia
tanto verso na calçada
a todos passei a limpo
na memória rasurada.

(mas esse ponto final
eu não havia previsto
como um vício natural
de todo verso maldito)

Afonso Estebanez
(Homenagem a Paulo Leminski)

WISKY COM LEMINSKI

WISKY COM LEMINSKI

O que adianta trocar de posição na cama
ou o autorretrato de Van Gogh na parede,
o Cosme à esquerda e à direita o Damião
se o peixe foi feito para o buraco da rede? 

O que adianta trocar de lado o travesseiro
se os medos da insônia me amam do outro lado?
O que adianta vedar os dois olhos da Gioconda
se a Madona ainda assim me espia
em qualquer lado onde me esconda?

O que adianta rezar se rezo sempre para o santo errado?
O que adianta estar aqui domingo como se fosse sábado?
Mais de mil vezes o raio-que-o-parta me partiu,
mais que isso, o diabo-que-o-carregue me levou
e os acabei mandado todos para a puta-que-pariu...

Já fui assaltado pelo bando de meus ímpetos
levei porrada de meu próprio anjo-da-guarda
malgrado o círio, a fé, a missa, a reza, a esmola
a comunhão e a santa palma...
O que adiantou manter a calma
se a solidão não me devolve a alma?...

Afonso Estebanez

SONETO DO PERDÃO

SONETO DO PERDÃO

Perdoa-me por ter-te amado tanto
e a ponto de perder-me de paixão...
Perdoa-me ter padecido o quanto
mereceu padecer meu coração...

Perdoa-me ao menos por enquanto
até que em mim pereça essa ilusão
de morrer docemente pelo encanto
de viver sepultado em teu perdão...

Perdoa se te amei tão loucamente
com tanto amor e tão perdidamente
contente em desfazer o que não fiz...

Perdoa-me também e eternamente
pelo sonho que a vida te consente
e deixa-me pensar que fui feliz...

Afonso Estebanez
(Homenagem a J. G. de Araújo Jorge)