sábado, 3 de junho de 2017

ALMA DE PLEBEU

Já cheguei bêbado de muita festa
numa dança de luas embriagadas
com a alma cegada em manifesta
sensação de venturas canceladas.

Meu espírito às vezes se contesta
por eu sentar às mesas ocupadas
pela realeza azul de alma funesta
de onde já levei muitas porradas.

Rasputin, cá estou trás da cortina
alma sóbria ao bafejo da propina
extinta no crepúsculo dos nobres.

Nobres! esses agentes funerários
que eternizam jazigos milionários
exumando cadáveres dos pobres.

Afonso Estebanez

terça-feira, 30 de maio de 2017

A IDADE DA SAUDADE


A saudade se encosta na memória
e se elege guardiã de sentimentos
entre eles uma súmula da história
relativa a meus líricos momentos.

Saudade de jamais ter visto glória
por amar sem doer padecimentos
saudade de vencer sem ter vitória
qual a alegre cigarra nos relentos.

Saudade das saudades de te amar
à sombra do vinhedo e no pomar,
saudade do que quis e que não fiz.

Saudade que se mata sem morrer
saudades com saudades de te ver
mais saudoso e capaz de ser feliz.

Afonso Estebanez

domingo, 28 de maio de 2017

A DAMA DA ROSA ESCARLATE


Ela me disse: “... eu trago a tua cura
para as chagas do mal inconsciente
que não julgas ser fel e nem doçura
seja refém de algum amor doente”.

Tão evidente me era em formosura
numa dança ritmada sensualmente
que a entidade a transmitir ternura
ensejou-me provar o amor ardente:

“Podes beijar-me!”- disse. “A cigana
é chama de paixão sem ser profana
como a alma embriagada de pudor.

Cunha a rosa escarlate num poema
que o perfume dissipa o teu dilema
se tua causa for um grande amor!”.

Afonso Estebanez

sábado, 27 de maio de 2017

AO CREPÚSCULO 


Amada, esse crepúsculo da vida
é a nossa noite sepultando o dia
que envia à melancólica partida  
mais tristeza do que melancolia.

Vivemos numa aurora desistida
entre os astros sem aura luzidia
em nostálgica sensação provida  
mais de delírio que de nostalgia.

Nós perdemos a bússola celeste
a carta náutica de nossos mares
o júbilo de quem está chegando.

Amor, quiçá do luto se nos reste
a saudade dos cios nos pomares   
e a lida de vivermos navegando.

Afonso Estebanez

quarta-feira, 24 de maio de 2017

QUANDO VIER A PRIMAVERA

Quando o verão no cálido poente
parecer-te o pintor da primavera
não te esqueças amor, é evidente
que exaurimos a última quimera.

Se o outono vier-te resplendente
qual o éden florido que te espera
não te iludas amor, é imprudente
colher fruto que o viço degenera.

Não podes enflorar o teu inverno
feito miragens em deserto eterno
de oásis secos entre os espinhais.

Ah, meu amor! a aura já sombria,
confessa a flor, como na profecia,
que a primavera não existe mais!


Afonso Estebanez
(24.05.2017)

domingo, 21 de maio de 2017

MINHA TERNURINHA


Minha pretinha é ternura
com pedacinhos de gente
que vem de raça tão pura
que me fala com a mente.

Com seu carinho me cura
do mal-estar permanente
e ela sempre me procura
com pena pelo que sente.

Quando ela fica tristonha
procura na minha fronha
um jeitinho de me olhar...

Assim quando ela se cala,
sei de tudo o que me fala
sem que tenha que falar.

Afonso Estebanez Stael
(Kênia - Raça: Pinscher - 4 aninhos)

quinta-feira, 18 de maio de 2017

SALÁRIO MÍNIMO



pão duro de forma
forjado no forno
abafado da fórmula

dízima periódica
da justiça fundiária
trafegando em carro-forte
à prova de bala

clarão interrompido
que a conquista do ridículo
contagia

eco da senha do grito de greve
batido
no muro de um beco sem saída

palavra de passe da angústia solidária
das máquinas perfiladas sobre a mesa
de jantar dos balanços de vísceras
e perdas e danos e lucros e cifras

recessão da liberdade
que perdeu o barco
da travessia humana...

Afonso Estebanez
(Em memória do poeta Cesar de Araujo
um companheiro/solidário/inesquecível)

terça-feira, 16 de maio de 2017

“ERA UMA VEZ...” TINHA RAZÃO


Não sei se posso acreditar na história
conforme os cânones da atual cultura
viciada em que varramos da memória
presságios das quimeras sem tortura.

Era uma vez numa explosão de glória
o imperador mãos limpas e alma pura
curvou o império à herança transitória
de ser seu próprio herói sem ditadura.

Era uma vez uma nação sem “ismos”,
uma nação sem truque ou casuísmos
até que um dia ‘Era uma vez’ não era.

Trocando a farda é a mesma ditadura
pois que sabemos quando é aventura
que não pode sonhar sem primavera!

Afonso Estebanez
(16.05.2017)

segunda-feira, 15 de maio de 2017

CAIXINHA DE MÚSICA

Descobri no porão da casa antiga
u’a caixinha de música antiquada
que consertei saudoso da cantiga
que deixava vovó tão encantada.

Minha mãe me beijou agradecida
eis sorrindo citou-me relembrada
que a caixinha de música perdida
era a do berço em noite fatigada.

Era dia das mães do que contava
fingindo ser feliz quando chorava
e a caixinha lembrava da viuvez.

Era a primeira vez na minha vida
que eu via com a alma deprimida
mamãe chorar pela primeira vez.


Afonso Estebanez
(dedicado à minha mãe insubstituível
Francisca Estebanez Satel
‘in memoriam’ – 14.05.2017)

domingo, 14 de maio de 2017

TEOREMA DO SONETO


Soneto é como um místico teorema
de afirmação que pode ser provada
a arquitetura adversa a um sistema
prescrito à renascença despertada.

Nos oito versos dou abrigo ao tema
que vou expondo em lírica jornada,
tijolo com tijolo, eis que um poema
vibra ao som da palavra rejuntada.

Nenhuma obra emerge de palavras
usadas numa condição de escravas 
das quais retira o senso de função.

Por isso é que o engenho do soneto 
conta com um obreiro no meu peito
honrando meus projetos de paixão.

 Afonso Estebanez
(13.05.2017)
O PERFIL DA ROSA – MINICRÔNICA POÉTICA


Uma rosa me respondeu: “... Eu sou a rosa entre as rosas dos abismos do coração. A pastora das rosas em sua trajetória de vida. Não sou uma lenda nem uma ninfa nem uma fada nem um mito nem um mero símbolo da cultura humana. Eu existo há milênios como espírito criador consagrado à perfeição artística, espiritual, científica e filosófica. Não tenho princípio nem fim em mim mesma. Sou passageira do tempo infinito, feita da pura matéria prima da inocência. Ferida pelos espinhos, pairo sobre a morte e meu sangue dá policromia às rosas que me são consagradas. Tenho o poder de conduzir paixões humanas, desvendar segredos de amor e anunciar a chegada das primaveras. Nas páginas inconsúteis de minhas pétalas os poetas escrevem para sempre suas histórias de amor intangível. Deus me deu a beleza dos místicos jardins florescidos entre o céu e a terra, a quintessência da luz do sol e o mel dos frutos perfumados de minhas entranhas. Portanto, eu existo. Existo, meu poeta! porque sou a tua resposta sem pergunta!".
Afonso Estebanez

sábado, 13 de maio de 2017

OS RIOS CORRIAM CALMOS


Além de sete colinas
setenta léguas além
ainda há risos na casa
e lá não mora ninguém...

Ouviam-se pés macios
deslizando no assoalho
leves folhas se roçando
cristalizadas de orvalho.

Minha mãe punha o café
com odor de flor selvagem
– seiva da lenha no fogo –
no cheiro doce da aragem.

Meu pai montava a cavalo
cintava o relho e partia
galopando pelos campos
como quem raiava o dia.

Parecia que seu canto
ditava o rumo do vento
e que as curvas do caminho
seguiam seu pensamento.

Era um domador de nuvens
nos umbrais das atalaias
um barqueiro de colinas
em verdes mares sem praias.

E os rios passavam lentos
em minhas tardes amenas
levando meus dias calmos
em suas águas serenas...

Afonso Estebanez
(Poema dedicado a meu pai Manoel Stael)