sábado, 29 de novembro de 2008

CANTIGA PARA LUÍSA M. A.


CANTIGA PARA LUÍSA M. A.


Tu podes trazer saudades
das estrelas de onde vens
das rosas que só tu sabes
do universo de teus bens.

São rosas de nosso amor
desse amor que já o tens
e o perfume de uma flor
do berçário de teus bens.

Uma estrela mensageira
via-luz de onde provéns.
Uma aurora medianeira
como fonte de teus bens.

Fonte mística do ventre
cálido orvalho da brisa
e uma rosa para sempre
no amanhecer de Luísa.

Tu podes trazer saudade
da morada de onde vens
também toda a claridade
da alvorada de teus bens.

Afonso Estebanez

UM SONETO PARA AUGUSTO DOS ANJOS


UM SONETO
PARA AUGUSTO DOS ANJOS

Ser ou não ser é a questão da vida
que a espécie fratricida desvendou
gerando a flor do bem numa ferida
que a gênese do mal jamais curou.

Quanta pena de mim chora fingida
como se fosse pranto o que penou.
Mas é somente a dor compadecida
penando pela dor que não causou.

A luz que me acendia agora apaga
a mão que me feria inda me afaga
amor de bem-querer não é paixão.

Meu ser ainda é o lobo de meu ser
pela pátria não posso mais morrer
o amor, enterrem no meu coração.

A. Estebanez

poema em pedaços


poema em pedaços

todo dia é um dia santo
todo dia vem o pássaro
todo dia é meu encanto
todo dia é meu cansaço

todo início é de começo
todo início é de destino
todo início tem o termo
todo início tem espinho

todo resto é de epitáfio
todo resto foi de quem
todo resto é de pedaço
todo resto de ninguém

toda noite é coisa e tal
toda noite é vai e vem
toda noite com aurora
toda noite me faz bem

todo verso eu escrevia
tanto verso na calçada
a todos passei a limpo
na memória rasurada.

(mas esse ponto final
eu não havia previsto
como um vício natural
de todo verso maldito)

A. Estebanez
(Homenagem a Paulo Leminski)

BENDITA TODA (A) DOR


BENDITA TODA (A) DOR

Bendita a sensação
de estar ferido pela amargura letal
de uma paixão mal resolvida.
Porque o amor será fênix
renascida...

Maldita a sensação
de ser feliz pela doçura eventual
de uma paixão bem resolvida...
Porque o amor será causa
da ferida...

Bem-aventurada toda (a) insanidade
e toda (a) ferida que se cura pela dor
porque dela será toda (a) eternidade
que se gloria da reparação do amor...

A. Estebanez

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

BARCAROLA


BARCAROLA

Era um reflexo de prata
de dançarina a bailar
na superfície das águas
das águas frias do mar...

Era uma nau desenhada
pelas mãos da preamar
na superfície das águas
das águas frias do mar...

Quanto mais a treva fria
encobria a luz do mar,
era luz feita das águas
impossível de apagar...

E nem a nave de guerra
que foi deixado passar
apagou a luz das águas
refletida sobre o mar...

Era luz, não se apagava
com as ressacas do mar,
já que era luz refletida
não deixava de brilhar...

Eram milhares de flores
de luz nas ondas do mar
no jardim frio das águas
embriagadas de dançar...

Era a luz de minha vida
que a noite quis apagar...
Deixei meu sonho então
espalhado sobre o mar...

A. Estebanez

AVE DE EMIGRAÇÃO


AVE DE EMIGRAÇÃO

Minha vida é o impulso da certeza
de um pássaro que emigra do deserto
e traça o vôo noturno de uma estrela
pelos mares de luzes do universo...

Pensarão que minha alma é suscetível
de um breve pouso n’algum porto adverso
onde ancoram os restos impossíveis
da loucura intangível que professo...

Mas os meus rios rolarão sem trégua
até que a paz consuma os seus vestígios
e os ventos se apascentem sobre as águas
e o mar se acalme sobre meus sentidos...

Nenhum rumor se elevará da noite
nem mesmo um sopro escapará da brisa
por onde o corpo durma e a alma escute
uma canção que nunca foi ouvida...

Serei a luz da sombra fugidia
alma emigrada de minh’alma afim...
E todos pensarão que é agonia
a exaltação do amor dentro de mim!

A. Estebanez

ARRAIAL DO CABO


ARRAIAL DO CABO

O tempo que é minha hora não é hora de ninguém.
Passo e fico como traços de meus passos a caminho
de Belém...

O vento cavalga nuvens desancoradas do mar
e o mirante contando barcos junto ao cabo do arraial
à beira-mar... O vento vergando o dorso das casuarinas
entre casas e colinas navegando no luar...

E na brisa o que se vai na brisa vem no cantar
do mar-e-vento que é seu fado regressar.
De Belém ressoam sinos na concha da madrugada...
O arraial me diz do amor sem que precise dizer nada,
que trago n’alma profunda a calma desesperada...
Deixem-me aqui sepultado num coral de águas profundas
sob a areia movediça entre as algas derramadas...
E meus sonhos entre as dunas onde jaza bem mais funda
a minh’alma apaixonada...

De tanto amor já viveram que de estrelas se fizeram tantas
horas de esperanças...Ai, quem me dera pudesse morrer
de mar aberto de amor nesse arraial de lembranças...

A. Estebanez

AMOR IMPREVISÍVEL


AMOR IMPREVISÍVEL

além de mim muito mais além de mim
muito além do que muito além de mim

onde jaz sem memória o meu anônimo
amor além do acaso onde é impossível
perecer o imperecível amor de outono

no alvorecer noturno de uma flor tardia
meu desejo insensato ainda aguardaria

que da sombra o crepúsculo emergisse
e nos cobrisse a alvorada de esperança
de reviver o amor do inevitável eclipse

A. Estebanez

AMIZADE: FLOR DE ESPERANÇA


AMIZADE:
FLOR DE ESPERANÇA

Sou louco que acredita em esperança.
Sou as sístoles e diástoles das ilusões.
Reflito luzes das auroras impossíveis
reabrindo janelas azuis nos corações...

Tu me entranhas de bênçãos e divino
bafejo de ternura suave e comovente...
Exorcizas meus sonhos de fantasmas
como anjo que me fala complacente.

E és como um luminar sem sombras
abrindo portas trancadas pelo tempo.
Ave o amor que tira dos escombros
meu pássaro cantor sem banimento...

Cúmplice do bem que trago n’alma
e testemunha transitiva da memória!
Podes vir! Tua mão é minha palma
nos escritos de minha vaga história...

A. Estebanez

AMAR DO VERBO AMOR


AMAR DO VERBO AMOR

O amor não se conjuga no passado.
Contudo, se o amor de Deus passar...
Amor é instinto humano sublimado
e instintos não se podem conjugar...

Não amo amor que deva ser amado
segundo me convenha o verbo amar...
O amor é graça e nasce conjugado
como o fascínio que me traz o mar...

O amor é dom e nunca se ressente
do menos-que-perfeito do presente
nem do perfume se ressente a flor.

Juro por todo o amor que me doeu
que tanto que me dói ainda é meu
o presente de amar do verbo amor...

A. Estebanez

ALMA DE PÁSSARO


ALMA DE PÁSSARO

Eu não sou maior
e nem sou menor
sou apenas como
adjunto do modo
eu somente podo
o resto é o pomo.

Nada é diferente
todo dia sempre
faz o outro igual
e nem é demora
o vagar da hora
refratária ao sol.

Há a água turva
há além a curva
onde o dia vaza
há a água funda
a luz é profunda
a alma é a casa.

Às vezes me falo
às vezes eu calo
para me escutar
e sei pelo vento
e pelo momento
de como cantar.

O eu vem à tona
o amor é carona
e vaga a viagem
a flor é a espécie
na rosa acontece
o resto é aragem...

A. Estebanez

A VIDA NA CONTRAMÃO


A VIDA NA CONTRAMÃO

Não me embebedo com nada
porém me embriago de tudo
quanto mais me dão porrada
quanto mais me tenho mudo

Minha alma anda para frente
mas meu eu sempre pra trás
o que eu sonho é indiferente
quando peço o amor me traz

Minha vida anda embriagada
entre a aurora e a escuridão
bate em portas sem entrada
e quando entra é contramão

E esse mundo é tão deserto
que a noite me dorme acesa
com temor de não dar certo
meu despertar sem tristeza

E assim meus dias se calam
como as noites sobre o mar
como as rosas que só falam
quando o amor quer escutar.

A. Estebanez