sexta-feira, 28 de novembro de 2008

AMAR DO VERBO AMOR


AMAR DO VERBO AMOR

O amor não se conjuga no passado.
Contudo, se o amor de Deus passar...
Amor é instinto humano sublimado
e instintos não se podem conjugar...

Não amo amor que deva ser amado
segundo me convenha o verbo amar...
O amor é graça e nasce conjugado
como o fascínio que me traz o mar...

O amor é dom e nunca se ressente
do menos-que-perfeito do presente
nem do perfume se ressente a flor.

Juro por todo o amor que me doeu
que tanto que me dói ainda é meu
o presente de amar do verbo amor...

A. Estebanez

ALMA DE PÁSSARO


ALMA DE PÁSSARO

Eu não sou maior
e nem sou menor
sou apenas como
adjunto do modo
eu somente podo
o resto é o pomo.

Nada é diferente
todo dia sempre
faz o outro igual
e nem é demora
o vagar da hora
refratária ao sol.

Há a água turva
há além a curva
onde o dia vaza
há a água funda
a luz é profunda
a alma é a casa.

Às vezes me falo
às vezes eu calo
para me escutar
e sei pelo vento
e pelo momento
de como cantar.

O eu vem à tona
o amor é carona
e vaga a viagem
a flor é a espécie
na rosa acontece
o resto é aragem...

A. Estebanez

A VIDA NA CONTRAMÃO


A VIDA NA CONTRAMÃO

Não me embebedo com nada
porém me embriago de tudo
quanto mais me dão porrada
quanto mais me tenho mudo

Minha alma anda para frente
mas meu eu sempre pra trás
o que eu sonho é indiferente
quando peço o amor me traz

Minha vida anda embriagada
entre a aurora e a escuridão
bate em portas sem entrada
e quando entra é contramão

E esse mundo é tão deserto
que a noite me dorme acesa
com temor de não dar certo
meu despertar sem tristeza

E assim meus dias se calam
como as noites sobre o mar
como as rosas que só falam
quando o amor quer escutar.

A. Estebanez

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

AMOR SAPIENS (Cena I)


AMOR SAPIENS
(Cena I)

Sinto por ti
o instinto selvagem dos rios
que percorrem a orla dos campos
e se perdem nas densas florestas
como reflexos do sexo no corpo.

Por mais que tu insistas
em desvendar o curso de minhas águas
jamais saberás onde cantam as nascentes
nem onde arrulham os seixos das fontes
nem onde as vertentes
conversam com o vento...

Nunca saberás do meu concerto de flautas
nos bambuzais nem dos bailes nas ramagens
onde os pássaros inventam
a linguagem do amor...

Nem de onde vem nem para onde vai
a brisa que te afaga sem que te percebas
cativa de uma paixão pressentida...
Mas te resta a memória perdida
entre as cinzas de uma flor...

A. Estebanez

AMOR SAPIENS (Cena II)


AMOR SAPIENS
(Cena II)

Por mais que tentes abrir as janelas
de minha vida, não verás senão fragmentos
de antigas auroras no crepúsculo de mim...
Ou de estrelas cadentes que se removeram
da via-láctea de meu destino desdobrado
em direção a horizonte nenhum...

Tudo o que sabes de mim
é o que pensas que sabes de mim.
Se me tiras o que te não dou, tiras somente
aquilo com que ficas. E o que tiras não é o amor
que permanece como o eco sufocado
na garganta da montanha...

Não podes tirar-me esse amor andarilho
que vaga noite e dia no meu vasto coração.
Não podes tomá-lo de meu peito!
Eu sou parte da comunhão dos pássaros
que tu apenas sabes de algum tempo
e nada mais...

Eu sou o reencontro
e sou o desencontro
e sou aonde vais...

A. Estebanez

AMOR SAPIENS (Cena III)


AMOR SAPIENS
(Cena III)

Vejo as flores se abrindo para o sol
e as sombras que as acolhem, nada mais.
E falo com as reses à beira do caminho
e converso com as árvores e o vento
que me respondem quando passo
e os cumprimento...

É por ti, mas não de ti
esse pressentimento de estar em mim
um pastor de sonhos que se realizam
na canção de um regato entre folhagens
na pequenina flor cativa de um abismo
ou no múltiplo instante da germinação
das orquídeas que ornam meu jardim...

O que levas de mim não está naquilo
que tuas mãos alcançam!
E o que tuas mãos alcançam não está
na ânsia de alcançar...O que não levas
de mim é o que está consubstanciado
no incógnito perfume de uma sombra
ou no código não decifrado na memória
da arrebentação da brisa nos canaviais
ou dos sonhos que de manhã
já não te lembras mais...

A. Estebanez

AMOR SAPIENS (Cena IV)


AMOR SAPIENS
(Cena IV)

Não é verdade o que te dizem
as palavras que eu te não disse.
O travesseiro que à noite dividimos
não guarda vestígios de meus sonhos emigrados.
Por trás de cada porta devassada de meu sono
há sempre outra ainda não ultrapassada
como horizontes sucessivos das manhãs
que o sol deixa intocadas...

E tu me amas como tens amado
a todos os teus amores através de mim...
Então eu sou o cordeiro de tuas culpas,
remidas na ternura onde germinam as sementes
que meus impulsos desesperados derramam
nas veredas secretas de tuas pastagens
de amor comprometido...

Tu me acolhes em tuas entranhas
e eu me vejo renascer num pomar de romãs
onde o canteiro de teu sangue ameniza
com flores de antecipada primavera
o outono de meu sonho não cumprido...

A. Estebanez

AMOR SAPIENS (Cena V)


AMOR SAPIENS
(Cena V)

... E no entanto, sei tudo de ti
como sei de teus segredos obscuros
revelados através da escura sombra
de teus amotinados pesadelos...
Com quem andas, com quem te perdes
com quem te encontras
para te desencontrar...

Sei tudo de ti...
Como a luz do sol o sabe de sua flor
oculta em cada canto do jardim...

O meu amor contudo
é como o gamo assustado
que sempre procura o abrigo
nos bosques de teu ventre...
Ô, alcova que me aquece!

Vencido o imenso vale da noite,
emigrará nos claros raios da aurora
deixando a relva quente e macia
como lembrança de um sonho
que o tempo adormece...

A. Estebanez

terça-feira, 25 de novembro de 2008

CANÇÃO DE KÉDMA


CANÇÃO DE KÉDMA

A Kédma chegou-me aqui
do lado esquerdo do peito
e deixou-me uma canção...
Foi tão suave o que ouvi:
o canto do amor-perfeito
entre o peito e o coração...

Nem precisei entendê-la!
Era a voz do cancioneiro
que há nas harpas do luar...
Foi o dom de conhecê-la
e a canção do jardineiro
que escuta a rosa cantar...

E ela é tão doce e louçã
como a fada concebida
no perfume do jasmim...
Kédma acorda de manhã
como quem entra na vida
pela porta de um jardim...

Docemente me convida
pra viver dentro de mim...

A. Estebanez

ANJO MEU


ANJO MEU

Nem alegre nem tristonho
nem chegada nem partida
anjo meu leva meu sonho
mas me deixa minha vida.

Anjo chora quando canta
anjo canta quando chora
anjo meu me desencanta
se me fica ou vai embora.

Algumas vezes me acena
como se estivesse vindo...
Mas é um anjo com pena
da pena de estar partindo.

Quase nunca compreendo
anjo quase compreendido
Mas às vezes não entendo
porque anjo anda perdido...

A. Estebanez

A MENSAGEM


A MENSAGEM

Desliza um pingo de chuva
na folha do pessegueiro...
Na maré do olhar vazante
o horizonte mensageiro...
Descendo a encosta do monte
o cavalo e o cavaleiro.

Um arcanjo a toda a brida
ou um raio perdigueiro...
Rumor de brisa nas águas
o cavalo e o cavaleiro...
O vento em plena algazarra
liberto do cativeiro.

Escorrem pela planície
o cavalo e o cavaleiro
transpondo portal adentro
soergue o punhal guerreiro...
Serpentes relampejando
nos olhos do cavaleiro...

Desliza um pingo de sangue
na folha do pessegueiro...
Na maré do olhar vazante
o horizonte traiçoeiro...
E a noite devora o monte
o cavalo e o cavaleiro...

A. Estebanez

domingo, 23 de novembro de 2008

PERCURSO DE AMOR

PERCURSO DE AMOR

Meus olhos
são praias rasas
de um profundo
mar de amor
que derrama
suas mágoas
no rumor vasto
das águas
na areia e morre
sem dor...

Dos teus navios
de sonhos
sou mais
que o navegador.
Meus olhos
são escotilhas
entreabertas
para as ilhas
do teu percurso
de amor...


Afonso Estebanez