segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

NÃO ACORDEM MINHA MORTE


Não acordem minha morte
que descansa adormecida.
E que à alma não importe
se a morte é sono da vida.

Minha carne não acordem
e nem do sangue exaurido
o fluído que em desordem
deixa-me o corpo esvaído.

Deem pó para minh’alma
que de mais nada precisa
senão do canto da calma
que de amor não agoniza.

Não acordem minha vida
que está só desacordada 
e que a alma amortecida 
só me acorde despertada.

E da morte não desperte
a minh’alma adormecida
e da vida ainda me reste
o outro lado desta vida...

Afonso Estebanez

domingo, 22 de janeiro de 2017

FLAGRANTE DE AMOR IMPRÓPRIO


Quantas vezes fui pecador reincidente
ao me flagrar à sós na beira do oceano
exilado no hospício do amor penitente
da paixão delinquente  sem fito profano.
 
Frequentemente a vida me julgou insano
se eu tentava vencer a morte subjacente
no condoente funeral  de um desengano
que se cria nascer do amor sobrevivente.
 
A sós eu cria ser  minh’alma esse deserto
na linha do horizonte cruelmente incerto
para espalhar aos ventos os delitos meus
 
e eu nem mesmo podia cogitar que assim
o exílio voluntário desse amante em mim
era uma forma de falar a sós com Deus!...
 
Afonso Estebanez
(Carinhosamente dedicado à amiga
Lenice Ebert Maziero, por mérito).

sábado, 21 de janeiro de 2017

MEESTRIA A LEONORA DE PROENÇA
(Cantiga de Amigo)



Um dia brisa no campo
um dia a asa no vento
enviei meu pensamento
ferido de desencanto...

Leonora, Leonora,
ess’amor assi non fora
qu’outro bem me fora tanto?

Uma vez brisa soprada
uma vez asa partida
minha ilusão tam velida
voará desencontrada...

Leonora, min tormenta!
Non torn’ess’amor qu’eu senta
em coita tam desamada...

Leonora, eu cuidaria
desse amor com tal desvelo
qu’outro bem pra merecê-lo
de ser mor que o meu teria.

Mays se vós visseis, Senhor,
com tal coita mia dor,
dess’amor vos morreria...

Quanto mais a dor doesse
mais esse amor veveria...

Afonso Estebanez
(Do livro Antologia Poética do
Grupo Salina de Niterói – 1969)
ONDE VIVEM AS CANTIGAS



Preciso de que me fales
onde guardas o silêncio
o mistério guarda onde 
os segredos do relento
e na brisa destes vales
preciso de que me fales
das horas de desalento

e que luz veio do olhar
onde vive o teu silêncio
no segredo da alvorada
da brisa solta no vento
é preciso que me digas
onde vivem as cantigas
já perdidas pelo tempo

será no choro dos rios
nas flautas anoitecidas
nas ameias das garoas 
na saudade da partida
é preciso que aconteça
e o amor ainda mereça
retornar à minha vida.

Afonso Estebanez
(Poema dedicado à poetisa 
Clau Assi )

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

CRÔNICA POÉTICA
DOS HERDEIROS DE GARVAIA
(Modo 1)



Vocal denan vocal
flan hyat sobremal
lãs cinch vacals te do:
a, e, i, o, u, so.

Hás de cantar á veira do rio,
ó son d’as olinas do campo frolido...

Cornet deu a Paay Charinho
passarinho trobador.

Muy sem vergonha irey per u for
ora com graça de vós, mya senhor.

Dom Diniz, oh lavrador!
Encheu o reino de cantar d’amigo
as midonetes de louçã senhor.
Encheu o Tejo e o d’Entre-Douro-e-Minho,
o Alentejo, a Península, a Ocitânia e o Pireneus...
Oh, Pireneus! Prazer-pesar morrer cantor:
– quer’eu em maneira proençal
fazer agora esse cantar d’amor!

Afonso Estebanez
CRÔNICA POÉTICA
DOS HERDEIROS DE GARVAIA
(Modo 2)



(Oh, Pireneus! Prazer-pesar morrer cantor:
– quer’eu em maneira proençal
fazer agora esse cantar d’amor!)

Encheu a Torre do Tombo
encheu a Torre de Pisa
a Torre Velha da outra Banda
encheu a Torre de Eiffel
mais a Torre de Belém...
Encheu a Torre de Londres
mais a Torre de Babel
e a Torre de Quixeramobim
(se é que havia torre de Quixeramobim)
e não havendo mais torre
nem na terra nem no céu,
encheu a Torre do Reino
que era Torre de Marfim...

Encheu de dobles mazdobles do bom riir
daquela grei
que El-Rei em trobas não sabia mais
ser rei:
– se fosse assi que ela veese
das que Alá sou, ca o non sey...

Afonso Estebanez 
CRÔNICA POÉTICA
DOS HERDEIROS DE GARVAIA
(Modo 3)



(– se fosse assi que ela veesse
das que Alá sou, ca o non sey...)

Froissart deu a Fernão Lopes
que passou para Deschamps
que passou para Boccaccio
que passou para Chaucer
que passou para Villon
que passou a Dom Manuel
que mandou passar a D(i)ante
o que dantes já sabia...

Raquel, Francesca... Quimera!
– Nessun maggior dolore
che recordarsi Del tempo
fellice nella miséria.

Ó naturaleza Del dire!
Ó Lauras! Ó Eneidas! Ó Beatrizes!
Amantes infelizes, posto que amadas,
Desamadas porém, pois que felizes!
O leito de Procusto, a língua e o látego.
A concepção mundana sublimada.
O parto natural, “la prima-donna”.
Umbral da renascença latinada...

Afonso Estebanez 
CRÔNICA POÉTICA
DOS HERDEIROS DE GARVAIA
(Modo 4)



(O parto natural, “la prima-donna”.
Umbral da renascença latinada...)

Petrarca estava no Lácio.
Tomara-lhe o laço Virgílio que roubou o sono de Horácio
que acordara Quintiliano que tirara Tito lívido
do dormitorium romano...
Pé de ouvido ouvira Ovídio
Tacitamente chamar a Tácito de cicerone de Cícero.
O que deu a Bessarion o contorno bizantim
do gazel do buono stil adornado de latim.

Langue d’oc! Oh, Bernardim!
Ó crisfalbernardimento!
Bom mesmo é botar na língua
um cantar de veira de rio
ó son d’as oliñas ó vento
rimas leixas no jardim...
Êh, esperança coisificada
do Eu virado pra dentro (doeu)
só contemplado por Mim...

Afonso Estebanez 
CRÔNICA POÉTICA
DOS HERDEIROS DE GARVAIA
(Modo 5)



... Falar de veira de rio
rir-beirão que se dizia
da língua que se falava
se falava e se entendia...

Bernardimente se ouvia
a quem gilvicentemente
falasse samirandando
e ouvisse ferreiramente:

– Floresça, fale, cante, ouça-se e viva
a portuguesa língua e, lá onde for,
vá senhora de si, soberba e altiva...

Afonso Estebanez 
CRÔNICA POÉTICA
DOS HERDEIROS DE GARVAIA
(Modo 6)



Cegado, “peregrino vago errante
vendo nações linguagens e costumes
céus vários qualidades diferentes”...

Arma virunque cano Troiae... pá!
Não que virasse o cano da arma... pá!
E virou a História como queria ao viraire o vira-vira
das páginas da Odisséia
e dividiu a crônica de El-Rei em aC. e dC.
Pelo Mártir do Góçgota... pá!

Viu o auto da barca do inferno do alto da barca.
Navegou do alto ao baixo Nilo sem o selo ou a alforria.
Perdeu-se no alto e no baixo meretrício do Bairro Alto.
Embebedou-se no Alto e Baixo Leblon dos goliardos turistóides.
Foi tentado 40 dias no Alto Pavão e 40 noites no Baixo Pavãozinho.
Conheceu a Cidade Alta e a Baixa do Sapateiro
E naufragou no extremo oriente da vida como quem recebe
a extrema unção,
porque era chegada a hora de pagar pedágio a São Tanáz
para escapar do barco que levava ao alto da boceta de Pandora.
Êta hora! Êta hora...

Afonso Estebanez 
CRÔNICA POÉTICA
DOS HERDEIROS DE GARVAIA
(Modo 7)


O gajo escreveu na guerra
o que homem nenhum logrou
escrever durante a paz...
Perdeu um olho na terra
porque enxergava demais.

? E si subesse da margarina
da carolina
da gasolina
da cocaína
da marijuana
da coca-cola
do macunaíma
da malunacama...

? E si subesse da veiby, a sol
veiby
veiby...

? E si subesse di sum paulo
? E si subesse da capei, a lua...
? E si tumasse um sorvete
? E si tumasse um pileque
daquela canção do roberto...
? E si subesse inglês
da américa do sul...
? E si subesse brasileirim
a praga tupiniquim...

? E si subesse da urticária do ortega...
? E dum andu-sarará da bolívia...
? E du pique-nique no pico de itabira
(na época havia pico de Itabira)
? E si subesse de mim...

upa-lelê
upa-lalá
believe or not, pá!...

Afonso Estebanez 
CRÔNICA POÉTICA
DOS HERDEIROS DE GARVAIA
(Modo 8)



Mas o provedor da Cochinchina
não tinha lá essa maturidade
aristocrítica
para saber se todo esse manancial
consumolingüístico
que faz da carta de Caminha
o melhor achabundismo nativista
já cultivado na terra do em-que-se-plantando-nela-
tudo-dá!...
– Até políticos bananas e alices...

A medo vivo, a medo escrevo, a medo falo,
a medo digo. Hei medo do que falo só comigo.
Mas inda a medo ciodo, a medo calo...


Afonso Estebanez