terça-feira, 15 de novembro de 2016

A FÊNIX DE HIROSHIMA

Oh, flor do céu tão cândida e tão pura!
Ô, fênix dos escombros de Hiroshima!
Devolva o desamor à dor da sepultura
e ao seu algoz o horror dessa chacina! 

A dor que dói da guerra é a dor futura
e a rosa que a dor lembra é a matutina
por quem dobram os sinos é a ternura:
a fênix dos escombros de Hiroshima!

Por quem dobram os sinos é candura:
a fênix dos escombros de Hiroshima! 
A rosa ensangüentada estava impura 
nos escombros da aurora vespertina!

Ah, flor do céu tão baça e tão escura!
Prenúncio dos crepúsculos em ruína!
Devolva a paz ao mundo com doçura: 
a fênix dos escombros de Hiroshima!

Afonso Estebanez
(Poema de 1970 – Inédito. Homenagem 
às vítimas do holocausto de 06/08/1945. 
AQUELE TEMPO ERA DE AÇÚCAR
AQUELE TEMPO ERA DE AÇÚCAR
Criança,
ama com fé e orgulho
a terra em que nasceste!
Será que não verás
país nenhum como este?

Houve um tempo em que a escola
era uma casa de aprendiz de amor à pátria.

Os muros eram feitos de melado e rapadura.
A professora tinha lábios de sorvete de morango
e o hino nacional era cantado à marselhesa
ao pé do mastro onde a bandeira tremulava
como um troféu entre as muralhas da Bastilha.

O chão de nossa rua era de açúcar
as calçadas de torrões de chocolate
e a chuva no telhado era baunilha...
Não havia entrelinhas na cartilha
e cada herói jazia em seu lugar.

Nossos pais, de bem pouco suspeitavam
Nem a Voz do Brasil nada informava
sobre trilhas e ardis de vis tropeiros
caminhos das Bandeiras de piratas
e Capitães d’América e Mandrakes trapaceiros,
fazendeiros vestidos de jagunço de gravata,
lobisomens de araque e coronéis aventureiros
garimpeiros do Conde de Assumar...

Ah, nas crinas prateadas dos canaviais
a lua não se casa mais com o luar...
O vento deu lugar à brisa peregrina
fugitiva do fogo das usinas
tocadas pelo braço servil dos samurais.
Não têm nome de heróis os bóias-frias.

Nas galerias os heróis são generais.
A História apelidou de Tiradentes
o mártir solitário de certa independência
de quem jamais ouviu falar Coimbra,
cujo nome não consta nos compêndios
de Sorbonne...

Aqui onde nascemos e vivemos
a História dá nome às avenidas
e os becos-sem-saída não têm nome!

Porque este é o Mundo de Mrlboro
do cavalo furioso de fundo de quintal
do alpinismo genital do coiote extasiado...
Ah, o cacoete do nacionalismo alcoólico.
Oh, o cigarro top-model e o sexo oral...

O manifesto cívico e moral
do arquivo oficial da ditadura
nas entrelinhas da cartilha descartável
nas aulas de melado e rapadura...

O chão de nossa rua era de açúcar,
calçadas de torrões de chocolate...
A praça da matriz de caramelo
iluminada com bolinhas de sorvete...

Criança,
ama com fé e orgulho
a terra em que nasceste!
Será, será que não verás
país nenhum como este?


Afonso Estebanez
(Poema premiado no I Torneio Municipal 
de Poesia Falada de Itaocara-RJ em 1992)

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

A MENSAGEM

Desliza um pingo de chuva
na folha do pessegueiro...
Na maré do olhar vazante
o horizonte mensageiro...
Descendo a encosta do monte
o cavalo e o cavaleiro.

Um arcanjo a toda a brida
ou um raio perdigueiro...
Rumor de brisa nas águas
o cavalo e o cavaleiro...
O vento em plena algazarra
liberto do cativeiro.

Escorrem pela planície
o cavalo e o cavaleiro
transpondo portal adentro
soergue o punhal guerreiro...
Serpentes relampejando
nos olhos do cavaleiro...

Desliza um pingo de sangue
na folha do pessegueiro...
Na maré do olhar vazante
o horizonte traiçoeiro...
E a noite devora o monte
o cavalo e o cavaleiro...

Afonso Estebanez 
CENTELHA


Nunca espero desta vida
o que a vida não me deu
minh'alma compadecida
é do amor que renasceu.

Corações a toda a brida
o meu nas beiras do teu
mas tu amavas dividida
sem saber qual era meu.

Montanhas a fé remove
e o amor é que comove
a centelha dessa chama

que me dói e não apaga
e me diz que não acaba
que o amor inda te ama.

Afonso Estebanez
(Poema dedicado à gentil
amiga Priscilla Basílio) 
CANTINHO DA SAUDADE

Ela soltou-se de um sonho
como quem acorda o beijo
no instante da eternidade.

A todo o instante suponho
ser um sonho meu ensejo 
de sonhar de ser verdade.

E ela se apegou ao sonho
e me fez sentir num beijo
impressões de eternidade.

Mas ela perdeu meu sono
e eu durmo com o desejo
num cantinho da saudade.


Afonso Estebanez
(Poema dedicado à amiga
Karolina Barbosa – “Karol”) 
UMA FLOR AINDA ME RESTA

Meu coração ainda não pulsou refeito
daquele amor ferido que me despojou
do sonho reluzido que restou desfeito
no jazigo do peito onde me confinou.


Do cântico do mar insone se fez leito
a noite de penar onde me deito e vou
no destino dos barcos a tirar proveito
a despeito dos dias que a maré levou.


Só eu posso tirar o véu da eternidade
a alma exaurir com infinita liberdade
e só viver o bem que por amor eu fiz.


Fez-me a vida partícula do universo,
ou pólen da palavra na raiz do verso
o oráculo que faz a flor nascer feliz.

Afonso Estebanez
AMOR (DE) LÍRIO

Um suspiro solitário
à luz extinta do círio
ou gemido libertário
calado na flor do lírio.

É amor ou é martírio
padecer involuntário
ou é sonho de delírio
é o gozo do calvário.

É o céu e é o inferno
É o lado mais eterno
da loucura na razão...

É o cativo ou o liberto
o lado duplo do afeto
no abismo do coração...

Afonso Estebanez 
A ROSA E O TEMPO

Esta é a mão da minha alma,
mão que planta e colhe flor!
É minh’alma é minha palma
é concha em forma de amor.

Esta é a rosa que traz calma
malgrado o espinho da dor!
É flor que atine sem trauma 
para a cruz de um desamor.

Esta é a flor do pensamento
onde o amor chega discreto
como um raio de esperança.

Rosa é um jardim do tempo
em que o meu amor secreto
jaz-me eterno na lembrança.

Afonso Estebanez
A FOTO NA PAREDE

Meu retrato na parede
só traz uma novidade:
o fundo tinto de verde
ficou tinto de saudade.

O olhar pálido de sede
no poço da eternidade
é a luz filtrada na rede
da grade da liberdade.

Uma ruga me comove
de ter restado na vida
do nada que me ficou.

E só o sonho se move
na retina amanhecida
desta foto que restou. 

Afonso Estebanez
(Dedicado com muito carinho 
à amiga Lucia Borini Simões) 
DOER DE AMOR

Esse amor dói tanto
que me faz de fome
devorar meu pranto
que o doer consome.

Mas viver o encanto
de eu sonhar insone
me faz ver o quanto
é o doer sem nome.

O doer dos carinhos
prazer dos espinhos
das rosas sem dor...

O doer que convém
o doer que faz bem
ao doer-se de amor.


Afonso Estebanez 
(Dedicado a Giseli Estebanez) 
DOCEMENTE AMARGO

Teu amor é como a pluma
de uma luz na madrugada
não ama aurora nenhuma
que não a luz da alvorada...

Meu amor foi uma escuna
sem partida nem chegada
na noite escura da bruma
de uma dor não dissipada...

Teu amor é como os rios
conduzindo meus navios
que se perderam do mar...

E o amor doeu-me tanto
como dói só por encanto
pelo encanto de te amar...

Afonso Estebanez
CANÇÃO BALDIA

Às vezes tenho saudade
da saudade que não tive
de morar com liberdade
onde livre nunca estive.

Às vezes tanta saudade
não é tanta por um triz:
pois que a tal felicidade
só me quis quase feliz.

Fui quase feliz em tudo
fui e sou sem vanidade
do que serei sobretudo
a despeito da saudade.

Partir foi quase preciso
sumindo na eternidade
não me fora teu sorriso
enganar essa saudade...

Afonso Estebanez
(Poema dedicado à notável poetisa
carioca Soninha Porto – 08/02/09