terça-feira, 7 de outubro de 2014

CRÔNICA POÉTICA DOS HERDEIROS DE GARVAIA (Modo 12)


Meninos, eu vi!...

O rio caudaloso onde todos vêm beber:
o quilombo e a nobreza apeada do poder...
da ermida a esguia sombra e a noite na mortalha...
o abutre da casa-grande e o cordeiro da senzala...
o falcão da catedral e a andorinha campesina...
a pomba do espírito santo e a ave de rapina...
a serpente rastejante e o condor – fênix do céu...
o descontente do rei e os contentes do bordel...
o escravocrata lapidado a golpes de melodrama...
o burguês bayroniano literomaníaco de spleen...
o cangambá morossoca tedesco-sorobacana...
o corvo republicano do golpe de Aberdeen...

O dia da lembrança de morrer...
Deixar a vida como deixa o tédio
do deserto o poente caminheiro...
A pálpebra demente
o delirium tremens
o longo pesadelo
a face macilenta
esse infinito anelo
o desespero pálido
o anêmico azevedo
o lati-sem-fúndio
a placidez do lago
a solidão do ermo
o tremedal profundo...

Afonso Estebanez


CRÔNICA POÉTICA DOS HERDEIROS DE GARVAIA (Modo 11)


Meninos, eu vi!...
Meninos, eu li!...

Eu vi a Breve Crônica
de Como Dom Paio Correia tomou este Reino de Algarve aos Mouros
sem que os Errantes Encavalgados da Cruzada Santa tombassem
de tão exaustos ou de Mau Súbito Ante a Visão do Cavaleiro Túndalo.

Eu li o “Poema Americano Dedicado à Magestade
do Muito Alto e Muito Poderoso Príncipe e Senhor Dom Pedro II,
Venerável Grã-Imperador Constitucional
e Defensor Perpétuo do Brasil”...

? Meninos, e quem não leu...
? Meninos, e quem não viu...
Subir tanto que desceu...
Oh, meninos do Brasil!...

Afonso Estebanez

CRÔNICA POÉTICA DOS HERDE IROS DE GARVAIA (Modo 10)



Perguntai a Glauceste, a Daliana,
a Critilo, a Minésio, a Doroteu,
perguntai ao Gonzaga, a Juliana,
perguntai a Marília de Dirceu...

Sabei dos conjurados matastásios,
das nisas pastoris e alcimodontes,
se os ventos que bafejam estes vales
não bafejam primeiro o trás-os-montes?

Sim, que para lisonja do cuidado
testemunhas serão de meu gemido
este monte, aquele vale, aquele prado...

O negro a galope
atrás o chicote
seu grito de morte...
Meninos, eu vi!...

Eu vi o menino correndo...
Vi muitos e muitos galopes.
Vi o rei dar um golpe no tempo
e um trote no Solano Lopes...

Afonso Estebanez

CRÔNICA POÉTICA DOS HERDEIROS DE GARVAIA (Modo 9)




A boca não é cárcere da língua
nem os dentes muralha da palavra...
Oh, cantai! Mas não canteis apenas uma época,
que o tempo é a estalagem do futuro dissidente
onde tereis somente descoberto o caminho para a América.

Fui cúmplice de Laura nos triunfos de Petrarca,
de Tétis conheci o que de Eneida o Virgílio ignorava.
Eu amava Beatriz no leito de todas as mulheres
que a Dante contemplá-las era só o que bastava...

Mais louco do que Tasso tolerante como Gôngora divino como Herrera.
Mais sincero que Miranda mais puro que Anchieta e belo como Marini.
Mais humilde que Montaigne e sábio como Zurara
mais austero que Ferrera.
Corajoso como Bellay, paciente como Shakespeare e fiel como Guarini.

Se vos parece muito e preferis ser apenas um Restelo,
ao menos o estudo com o vosso desterro cumulado
deveis deixar em paz ao modernismo bem-te-vi
que o inexorável romantismo inda não é chegado...


Afonso Estebanez


CRÔNICA POÉTICA DOS HERDEIROS DE GARVAIA (Modo 8)



Mas o provedor da Cochinchina
não tinha lá essa maturidade
aristocrítica
para saber se todo esse manancial
consumolingüístico
que faz da carta de Caminha
o melhor achabundismo nativista
já cultivado na terra do em-que-se-plantando-nela-
tudo-dá!...
– Até políticos bananas e alices...

A medo vivo, a medo escrevo, a medo falo,
a medo digo. Hei medo do que falo só comigo.
Mas inda a medo ciodo, a medo calo...


Afonso Estebanez

CRÔNICA POÉTICA DOS HERDEIROS DE GARVAIA (Modo 7)



O gajo escreveu na guerra
o que homem nenhum logrou
escrever durante a paz...
Perdeu um olho na terra
porque enxergava demais.

? E si subesse da margarina
da carolina
da gasolina
da cocaína
da marijuana
da coca-cola
do macunaíma
da malunacama...

? E si subesse da veiby, a sol
veiby
veiby...

? E si subesse di sum paulo
? E si subesse da capei, a lua...
? E si tumasse um sorvete
? E si tumasse um pileque
daquela canção do roberto...
? E si subesse inglês
da américa do sul...
? E si subesse brasileirim
a praga tupiniquim...

? E si subesse da urticária do ortega...
? E dum andu-sarará da bolívia...
? E du pique-nique no pico de itabira
(na época havia pico de Itabira)
? E si subesse de mim...

upa-lelê
upa-lalá
believe or not, pá!...

Afonso Estebanez