terça-feira, 7 de outubro de 2014

CRÔNICA POÉTICA DOS HERDEIROS DE GARVAIA (Modo 6)



Cegado, “peregrino vago errante
vendo nações linguagens e costumes
céus vários qualidades diferentes”...

Arma virunque cano Troiae... pá!
Não que virasse o cano da arma... pá!
E virou a História como queria ao viraire o vira-vira
das páginas da Odisséia
e dividiu a crônica de El-Rei em aC. e dC.
Pelo Mártir do Góçgota... pá!

Viu o auto da barca do inferno do alto da barca.
Navegou do alto ao baixo Nilo sem o selo ou a alforria.
Perdeu-se no alto e no baixo meretrício do Bairro Alto.
Embebedou-se no Alto e Baixo Leblon dos goliardos turistóides.
Foi tentado 40 dias no Alto Pavão e 40 noites no Baixo Pavãozinho.
Conheceu a Cidade Alta e a Baixa do Sapateiro
E naufragou no extremo oriente da vida como quem recebe
a extrema unção,
porque era chegada a hora de pagar pedágio a São Tanáz
para escapar do barco que levava ao alto da boceta de Pandora.
Êta hora! Êta hora...

Afonso Estebanez

CRÔNICA POÉTICA DOS HERDEIROS DE GARVAIA (Modo 5)


... Falar de veira de rio
rir-beirão que se dizia
da língua que se falava
se falava e se entendia...

Bernardimente se ouvia
a quem gilvicentemente
falasse samirandando
e ouvisse ferreiramente:

– Floresça, fale, cante, ouça-se e viva
a portuguesa língua e, lá onde for,
vá senhora de si, soberba e altiva...

Afonso Estebanez


CRÔNICA POÉTICA DOS HERDEIROS DE GARVAIA (Modo 4)


(O parto natural, “la prima-donna”.
Umbral da renascença latinada...)

Petrarca estava no Lácio.
Tomara-lhe o laço Virgílio que roubou o sono de Horácio
que acordara Quintiliano que tirara Tito lívido
do dormitorium romano...
Pé de ouvido ouvira Ovídio
Tacitamente chamar a Tácito de cicerone de Cícero.
O que deu a Bessarion o contorno bizantim
do gazel do buono stil adornado de latim.

Langue d’oc! Oh, Bernardim!
Ó crisfalbernardimento!
Bom mesmo é botar na língua
um cantar de veira de rio
ó son d’as oliñas ó vento
rimas leixas no jardim...
Êh, esperança coisificada
do Eu virado pra dentro (doeu)
só contemplado por Mim...

Afonso Estebanez


CRÔNICA POÉTICA DOS HERDEIROS DE GARVAIA (Modo 3)



(– se fosse assi que ela veesse
das que Alá sou, ca o non sey...)

Froissart deu a Fernão Lopes
que passou para Deschamps
que passou para Boccaccio
que passou para Chaucer
que passou para Villon
que passou a Dom Manuel
que mandou passar a D(i)ante
o que dantes já sabia...

Raquel, Francesca... Quimera!
– Nessun maggior dolore
che recordarsi Del tempo
fellice nella miséria.

Ó naturaleza Del dire!
Ó Lauras! Ó Eneidas! Ó Beatrizes!
Amantes infelizes, posto que amadas,
Desamadas porém, pois que felizes!
O leito de Procusto, a língua e o látego.
A concepção mundana sublimada.
O parto natural, “la prima-donna”.
Umbral da renascença latinada...

Afonso Estebanez


CRÔNICA POÉTICA DOS HERDEIROS DE GARVAIA (Modo 2)



(Oh, Pireneus! Prazer-pesar morrer cantor:
– quer’eu em maneira proençal
fazer agora esse cantar d’amor!)

Encheu a Torre do Tombo
encheu a Torre de Pisa
a Torre Velha da outra Banda
encheu a Torre de Eiffel
mais a Torre de Belém...
Encheu a Torre de Londres
mais a Torre de Babel
e a Torre de Quixeramobim
(se é que havia torre de Quixeramobim)
e não havendo mais torre
nem na terra nem no céu,
encheu a Torre do Reino
que era Torre de Marfim...

Encheu de dobles mazdobles do bom riir
daquela grei
que El-Rei em trobas não sabia mais
ser rei:
– se fosse assi que ela veese
das que Alá sou, ca o non sey...

Afonso Estebanez

CRÔNICA POÉTICA DOS HERDEIROS DE GARVAIA (Modo 1)



Vocal denan vocal
flan hyat sobremal
lãs cinch vacals te do:
a, e, i, o, u, so.

Hás de cantar á veira do rio,
ó son d’as olinas do campo frolido...

Cornet deu a Paay Charinho
passarinho trobador.

Muy sem vergonha irey per u for
ora com graça de vós, mya senhor.

Dom Diniz, oh lavrador!
Encheu o reino de cantar d’amigo
as midonetes de louçã senhor.
Encheu o Tejo e o d’Entre-Douro-e-Minho,
o Alentejo, a Península, a Ocitânia e o Pireneus...
Oh, Pireneus! Prazer-pesar morrer cantor:
– quer’eu em maneira proençal
fazer agora esse cantar d’amor!

Afonso Estebanez