sábado, 18 de fevereiro de 2017

CREDO DE AMOR ETERNO


Eu creio na ressurreição da vida
como forma de superar a morte
da repressão ao fraco desta lida
pela casta egoísta do mais forte.

Creio na aventurança concebida
mesmo doada como a boa sorte
que tenho na morada prometida
onde haja fé e ao amor conforte.

Eu creio na “medida do possível”
de seres despojados de vontade
de duvidar da mística do inferno.

E creio que é possível para Deus
realizar alguns dos sonhos meus
como sagrar o meu amor eterno.

Afonso Estebanez

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

A MAGIA DA EXPRESSÃO LITERÁRIA
OFICINA – MODULAÇÃO INTERATIVA - 06
*A INICIAÇÃO DE MARY LOVELY*


Vemos que seu impulso poético inicial já emergiu. E emergiu exatamente de onde devem emergir as primeiras manifestações da alma na seara da poesia. Indague-se sempe: “Morreria, se não me fosse permitido escrever?”. Principalmente isto, diz Rainer Maria Rilke – já citado aqui – em ‘Cartas a um Jovem Poeta’. “Na hora mais tranquila da noite – continua o mais autorizado poeta da língua alemã do século XX – faça a si esta pergunta: ‘Sou de fato obrigado a escrever?’ (...). A sua existência, mesmo na hora mais indiferente e vazia, deve tornar-se sinal e testemunho de tal impulso. Aproxime-se, então, da natureza. Depois procure como se fosse o primeiro (ser) a dizer o que vê, vive, ama e perde. Não escreva poesias de amor. Evite, de início, os temas demasiado comuns: são os mais difíceis. Nos assuntos em que tradições seguras, às vezes brilhantes, se mostram em grande número, o poeta só pode realizar obra pessoal na plena maturidade da sua força. Fuja dos grandes assuntos e aproveite aqueles que o dia-a-dia lhe oferece. Fale das suas tristezas e ou alegrias, dos seus desejos, dos pensamentos que o tocam da sua fé na beleza. Utilize, para se exprimir, os objetos que o rodeiam, as imagens dos seus sonhos, as suas lembranças. Se o cotidiano lhe parece pobre, não o acuse: acuse-se a si próprio de não ser muito poeta para extrair as suas riquezas. Para o criador nada é pobre, não há lugares mesquinhos e indiferentes. Mesmo num cárcere cujas paredes abafassem todos os ruídos do universo, não lhe ficaria sempre a sua infância, essa preciosa, essa esplêndida riqueza, esse tesouro de recordações? Volte, para esta direção, o seu espírito. Procure fazer regressar à superfície as impressões submersas desse longínquo passado. A sua solidão povoar-se-á, tornando-se nas horas incertas do dia, uma espécie de moradia fechada aos sons exteriores”. Esta é a sua seara inicial ao plantio da boa semente da poesia!...

Afonso Estebanez 
PERFUME DE DAMA DAS CAMÉLIAS


Não há no coração suficiente espaço
à paixão cortesã no leito despertada
com o perfume extasiante do regaço 
da dama das camélias penitenciada.


É místico perfume de época passada
exalado do beijo indômito do abraço
que faz do eleito sua presa libertada
do desafeto hipócrita quiçá devasso.


Perfume isento de pretérito obscuro,
só pode ver como será o amor futuro
de uma cortesã tão bela como a flor.


A dama das camélias cria a ideologia
da amorização humana e essa magia 
da ideologia de dominação do amor.


Afonso Estebanez 

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

CANÇÃO DE KÉDMA


A Kédma chegou-me aqui
do lado esquerdo do peito
e deixou-me uma canção.
Foi tão suave o que ouvi:
o canto do amor-perfeito
entre o peito e o coração.

Nem precisei entendê-la!
Era a voz do cancioneiro
que há nas harpas do luar.
Foi o dom de conhecê-la
e a canção do jardineiro
que escuta a rosa cantar.

E ela é tão doce e louçã
como a fada concebida
no perfume do jasmim.
Kédma acorda de manhã
como quem entra na vida 
pela porta de um jardim.

Docemente me convida
pra viver dentro de mim.

Afonso Estebanez
O JULGAMENTO

Submetido ao látego do julgamento 
aquele homem prestava depoimento 
sobre tudo o que sabia sobre a vida.
Falou de fé e esperança e caridade,
falou de fraternidade e de felicidade 
e dos ideais de solidariedade humana.
E não havendo mais do que falar,
calou-se como ave que cai do céu...

E recebeu então a cruel indiferença 
como sentença irrecorrível dos mortos.
De repente aquele homem tão simples
pôs-se a falar a falar a falar e a falar
COISAS DE AMOR como quem cria 
na remota possibilidade dos milagres.

E aquele tribunal acabou acreditando
nele porque falou do que nem sabia. 
E aquela foi a única vez em sua vida
que aquele homem falou de amor
com infinita sabedoria...

Julis Calderon d'Estéfan
(Heterônimo de Afonso Estebanez)

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

DEMAGOLOGIA DO DISCURSO NACIONAL 


Se é mais fácil
um camelo passar no fundo de uma agulha
um bom ladrão roubar o paraíso
o galo cantar três vezes
sem que alguém haja mentido
do que adentrar no reino dos céus
um rico
um pulha
ou um político...

O condomínio do meu edifício
o porteiro e aquele síndico antipático
são a expressão mais-que-perfeita
da comunhão de idéias publicadas
no DO de 21 de dezembro de 1964.

Se todos os homens
nascem livres e iguais perante a lei
com direito ao trabalho e à justiça
dotados de razão e consciência,
comigo vai ser assim:

... os negros passarão a usar o elevador social
o jogo-de-bicho será legalizado
controlarei a chuva no nordeste
imporei os preços dos produtos de exportação
proclamarei anistiados os escravos exilados
nas masmorras servis do ventre livre
condecorarei os cavalos dos republicanos
farei chegar a general o soldado raso
tal e qual o Bateau Mouche naufragou
escandalosamente por acaso.

... Ninguém será mantido na escravidão
ou submetido a qualquer forma de tortura
injustamente preso ou acusado de qualquer
delito por mera presunção até que prove
a inocência violada...
Eu lhes asseguro:

.. que essa dívida externa não será mais paga
com o sorriso desdentado da fome patriótica.
Que nossas filhas irão virgens para o altar
que todos os caminhos irão dar em Roma
que nossas mães hão de sempre sofrer num paraíso
que a autoridade papal será sempre infalível
que fazer um discurso deste era preciso!

E lhes asseguramos
que as nações estão decididas a reafirmar a fé
nos direitos fundamentais do ser humano,
cerzindo a paz com os laços insuspeitos
da autodeterminação dos povos
com liberdade, igualdade e fraternidade...

Do povo se ouvirá o herói-cobrado retumbante
às margens do Ipiranga ainda tão plácidas...
A ti, correligionária amada! Serei fiel ao menos
até que a morte nos separe. Os meus testículos-de-cão
serão eternamente teus...
Liga não, mês que vem a inflação será contida
e daremos tudo aos pobres para emprestar a Deus!

E lhes asseguro mais:
Quem cometer delito contra a natureza
será punido
com pena
de prisão de quinze dias a três meses
(apenas).

Porque a justiça é falha, mas não tarda!
– assim falava Zaratustra,
porque dizia Virgulino
que Maria Bonita é quem mandava.

Mas lhes asseguro ainda:
os governantes não são de constranger o povo
após haver-lhe reduzido com medidas provisórias
a fonte constitucional de resistência...
... Nunca no GATILHO
... Nem na usURPAÇÃO
... Nem após simbólica ameaça
de lhe causarem condição injusta
no cárcere privado
da liberdade anônima de expressão...
... Nem mesmo pelo enforcamento
da consciência nacional
no pendão da esperança
a meio-pau!

E eu,
neste país
... de atenciosas saudações
... de ímpar consideração
... e de elevado apreço,
de escassas camisinhas
e calcinhas de veludo...

Eu prometo
se for eleito
fazer tudo-tudo pelo social...
Botar somente a cabecinha...
Atirar a primeira pedra
e (a) tirar o Zé Mané do trem
e o Severino do ca (n) gaço
onde ele sempre se meteu.
Vou ajeitar para o Raimundo
(que é meio-parente meu)
ser funcionário em Medellín...
Se por cá only love save,
? porque lá não é assim...

Todo (o) poder emana do povo
e em seu nome será exercido
até que outro mais forte se alevante...
Vou desviar essas enchentes
declarar o sertão perdido
nomear o Chico Mendes
capataz do paraíso...
Camuflar os nordestinos
pra não serem reconhecidos...

Isso eu prometo.
A causa é nobre.
Tá decidido!

Se correrem um rico e um pobre,
o rico será detido.
Comigo vai ser assim...
Vote em mim!...

Afonso Estebanez 

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

A MAGIA DA EXPRESSÃO LITERÁRIA
OFICINA – MODULAÇÃO INTERATIVA - 05
*UM MERGULHO NA ALMA*


Sempre respondo a quem me pergunta: nada mais difícil de definir do que as obras de arte, que a Rainer Maria Rilke – um dos mais importantes poetas de língua alemã do século XX – pareciam ‘seres misteriosos cuja vida imperecível acompanha nossa vida efêmera’ (in Cartas a um Jovem Poeta). A propósito de algum aconselhamento em face de alguns textos, preferimos adotar a postura do Rilke quando instado – por um jovem poeta – a fazê-lo: ‘Ninguém – enfatiza o autor de ‘Duineser Elegien’ - pode dar-lhe conselhos nem ajudá-lo – ninguém! Só existe um caminho: penetre em si mesmo e procure a necessidade que o faz escrever. Observe se esta necessidade tem raízes nas profundezas do seu coração (...). Examine-se a fundo, até achar a mais profunda resposta (...). E se lhe vierem versos deste regresso a si próprio, deste mergulho no seu cosmo, não pensará em indagar se são bons ou não (...), porque desfrutará deles como de uma posse natural, como de uma de suas formas de vida e expressão. Uma obra de arte é boa quando nasce por necessidade. É a natureza de sua origem que a julga’. Então, este o conselho: ‘mergulhe em si próprio e sonde as profundidades de onde jorra a sua vida. Só desta maneira encontrará resposta à pergunta: “Devo criar?”. De tal resposta recolha o som, sem desvirtuar o sentido. Talvez chegue à conclusão de que a arte o chama. Neste caso, aceite o seu destino e siga-o, com o seu peso e a sua majestade, sem jamais exigir uma recompensa que possa vir de fora. (...) Que mais poderei acrescentar? Acredito ter abordado o essencial. No fundo, apenas fiz questão de aconselhar a quem me pergunta, a progredir segundo a sua lei, de modo grave e sereno. Não lhe seria possível perturbar mais violentamente a sua evolução do que dirigindo o seu olhar ‘para fora’, do que esperando ‘de fora’ as respostas que apenas o seu sentimento mais secreto, na hora mais silenciosa, poderá talvez proporcionar-lhe’.

Afonso Estebanez
DÉJÀ VU: MÉMOIRE D'AMOUR


Não vou contrariar o dogma da vida
se a vida afaga o desafio de morrer,
se a profecia imperecível prometida
faz renascer o amor eterno de viver.

Aquela cena amargamente repetida
no mesmo sonho se reflete para ver
da paixão que vivi agora ressentida
o despedir na solidão do entardecer.

É místico ao amor eternizar o tempo
desatendendo o fatalismo desatento
que desta vida pela morte me desfiz.

E minha amada me jaz vívida na luz,
se do lado da morte ainda me seduz
do outro lado da vida ela me faz feliz.

Afonso Estebanez

domingo, 12 de fevereiro de 2017

SEGREDOS DA INSÔNIA


Até que a noite faça agonizar-me o sono
meu coração ainda insiste em pressentir
ruídos de batidas nos porões da insônia...
Mas sei que me é possível resistir!

São pesadelos reencarnados do passado
morto... Fantasmas de navios ancorados
nos cais abandonados das ilhas de mim...
E sei que me é possível resistir!

Até que em morte acorde e eu adormeça
ainda sinto adormecidas sensações de ti...
De um lugar assombrado em minha vida
de onde sei que é possível resistir!

Ô, mulher-menina que perdi na infância
canção de bem-querer do quanto padeci...
Uma certa saudade vadia sem distância
e ainda assim me é possível resistir!

Até que essa lembrança enfim me esqueça
há noites de desterro do amor que não vivi.
Pode ser exaustão de luz na lâmpada acesa...
E ainda assim me é possível resistir!

Contorno a direção da porta, transtornado.
Pode ser um carteiro noturno e devo abrir.
Pode ser o domingo retornando ao sábado...
E ainda sei que me é possível resistir!

Talvez um corpo astral de aeronauta ainda
meu duplo que retorna antes de prosseguir
na fé dos missionários da esperança finda...
E ainda me é possível resistir!

Porém vou levantar-me lentamente agora
e reescrever os últimos versos que escrevi.
Depois vou caminhar devagar até a porta...
Pois não é mais possível resistir!

Permitir que me banhe a claridade do luar
como a alvorada inaugural o ultimo porvir.
Por trás do reposteiro um anjo me convida
e não é mais possível resistir!

Guardo as fotografias dos parentes mortos.
Depois conforto meus sentidos sem sentir...
Os versos falam já transcritos na memória
que é quase impossível resistir!

E antes que o coração em cânticos pereça
devo afinal abrir a porta, morrer e desistir...
Como a hora desiste do relógio sonolento
sem tempo agora para resistir!

Eu me absolvo de afogar-me em lágrimas
se é para sempre que esta noite vou partir...
Vou perder-me entre a linha do horizonte
e viver e sonhar e morrer sem resistir!

Como vivem os lírios dos campos...
Como sonham os pássaros da paz...
Como ama o amor os desencantos...
E morrem os heróis sem desistir...

Afonso Estebanez
BENDITA TODA (A) DOR


Bendita a sensação
de estar ferido pela amargura letal
de uma paixão mal resolvida.
Porque o amor será fênix
renascida...

Maldita a sensação
de ser feliz pela doçura eventual
de uma paixão bem resolvida...
Porque o amor será causa
da ferida...

Bem-aventurada toda (a) insanidade
e toda (a) ferida que se cura pela dor
porque dela será toda (a) eternidade
que se gloria da reparação do amor...

Afonso Estebanez 
ROTEIRO DA SOBREMORTE


A gente não era esta carne
a gente não era este espinho
a gente não era esta nave...
De repente assumiu-se caminho.


Ela veio estevando através do universo
e a nós associou o joio dos espíritos
(centelhas subitâneas das divinas subjeções)
e a gente entrou como flor na manhã ou
súbita janela deflorada pelo dia...

E como era um só roteiro
sem destino luz nem som
Ela então inconcebível 
concebeu-se Armagedom....

Em tudo Ela punha a agonia do amor
na espera.
Os raios de alabastro do sol recém-nascido
tecendo cordões umbilicais no ventre das colinas
o mar ensaiando pulmões ao sopro do vento nas velas
as feras gritando no túnel da noite
ou nascendo uma flor.
E o mistério enredava atos sestros de amor
donde vinham à luz
fantasmas e bastardos e negros e brancos
– os irmãos.

E a gente ia surgindo
da manhã amanhecida
– bom dia, minha amada!
– bom dia, minha vida!

... ia por aí reconhecendo tudo
como se Ela fosse apenas isso
que antecede as lucipotentes primaveras...

A submissão da terra sob os pés
milhões de rotas subjacentes nos passos dos meninos
a ilusão sativa nas constelações dos caminheiros
o luxo de poder julgar irmão o verdadeiros irmão
perder a vida dando nome às pedras
dar uma rosa livre ao mundo que a rejeita...

Mas é tempo de antiflora
sob tanques de antivida
e a liberdade é lançada
sob patas de corrida...

A vida, antes de tudo 
é reconhecer...

o que se toca como quem fecunda
o que se encontra onde tudo está perdido
o que tange os rebanhos para os campos
exorciza com fuligem a manhã dos operários
o que conduz à guerra os comungados da pátria
na conquista do após-as-conseqüências...


A mão que solta a esperança
no céu escasso da ilha
ave que parte e regressa
à nossa espécie andarilha...

Foi Ela quem traçou à espécie
a porta concessória da agonística
no embate pela igualha mal provada
e pôs setas cruzadas nos caminhos:
– gente pra montar leis timocratas
– coisa pra fazer o pão dos ricos
– gente pra mandar na coisa escrava
– coisa pra poder haver os mitos...

Há gente que sempre ganha
no jogo bilateral
de repente a roda pára
todo o mundo fica igual...

... caminhos do após acontecido
milhões de primaveras saturadas
virgens inseminadas por enguias soltas
em tempo estéril de estiagem
onde são murchas as romãs rubras da carne
e é morta a flor
e é morto o pólen
e os pássaros são mortos.
A esperança... evento interrompido
como a raça humana num centauro.



E a gente sabe que é a Morte
interrompendo o caminho...

Ma de longe eu reconheço
a doce face da amiga
que pôs no termo da carne
as auroras do infinito
e na noite do universo
a alvorada do meu grito:

– bom dia, minha amada
minha vida, minha sorte...
E vou jogar-me nos braços
da Vida de minha Morte...

Afonso Estebanez

A MAGIA DA EXPRESSÃO LITERÁRIA
OFICINA – MODULAÇÃO INTERATIVA - 04
*INTERAGINDO COM A POESIA*
Estimados amigos poetas de jornada, mantenham-se em ‘estado de graça’, tolerância e paciência. É tudo de que alguém precisa para encontrar a poesia. É algo parecido com uma relação de amor predestinado... Se não encontrarem a poesia, a poesia os encontrará. Com certeza. As suas expectativas e reconhecido esforço no ofício de construir poemas é uma forma nobre de interagir com a poesia. E poesia é uma verdade ínsita na alma humana. É um fato consumado a cada instante. É sístole e diástole da alma. E quando os dois se encontrarem – poeta e poesia - haverá celebração. Grande é a alegria de encontrá-la aqui na Oficina. Há algum tempo dedicamos um poema a alguns parceiros do ofício de sonhar, por sentimento de gratidão que ainda perdura no coração face à bondade e desprendimento de alguns na divulgação de suas obras. Agradecidos pela cordialidade e amplitude de sua confiança e consideração...

Afonso Estebanez