terça-feira, 29 de agosto de 2017

DEPOIMENTO DA ROSA



Não deixo minha rosa consternada
só porque meu amor ama indeciso
as rosas quase nunca pedem nada
senão o que ao amor
ao amor seja preciso...

O que dizem as rosas de uma rosa
colhida a mais formosa do jardim?
O que faz uma flor mais venturosa
ser tão bela e morar
aqui dentro de mim?...

Só porque me angustio de alegria 
não deixo minha rosa entristecida
vai a noite e na aurora vem o dia...
Não existe ir embora
na paixão pertencida
e na flor minha rosa
vai viver toda a vida...

Afonso Estebanez
(Homenagem especial à amiga
Dulce Jacob Genari – “Luamor”) 

domingo, 27 de agosto de 2017

ÚLTIMA VIAGEM


Devo empreender viagem sem demora
para onde tu me encontres sem chorar
como estar na mortalha de uma aurora
ou no lúmen do orvalho em meu olhar.

Não vejo que me assistas indo embora
com saudades do amor que vou deixar
como se nunca mais houvesse outrora
que em nós dois foi morada para amar.

Mas não foi dado a ti embarcar comigo
sem que saibas se é gozo ou é castigo
o céu de abismo aonde eu vou chegar.

Quiçá se não me houver anjo desperto
na ponto em que me for deste deserto, 
rogues a Deus que venha me buscar...

Afonso Estebanez
(Livre interpretação - 27.08.2017)

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

MEUS DIAS DE CÃO


Poetas também têm as suas fases
como é fase de sonhos a quimera,
mas se o amor é vítima de ultrajes
há que poetas podem ser capazes
de se encarnar na fase de ser fera.

Nos tripudia o quanto são vorazes
os que roubam a nossa primavera
e nos incitam expressar mordazes
a linguagem das massas eficazes
o quanto a fase é de virar pantera.

Farejam nossos cães intolerantes
o escarro dos impunes traficantes
dos poderes da pátria dominados.

Se essa fase de cão for sanidade,
então chegou o tempo da verdade
e não podemos mais ficar calados.

Afonso Estebanez
(25.08.2017)

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

ÁGUAS DO BABILÔNIA


Deus proveu-me chegar a estas águas
das quais todos os crentes vêm beber
lavando sobre as pedras suas mágoas
que as águas mais além vão remover.

Chegam aqui, morrendo sem morrer,
fantasmas de esperanças desaguadas
sobre as águas magoadas de escorrer
num remanso de mágoas represadas.

Todos chegam aqui de amor cansado
e se enxáguam à margem do passado
de águas turvas sem canto de louvor.

Deus proveu-me, porém, chegar aqui
louvando o encanto da mulher que vi
no espelho d’água refletindo o amor!

Afonso Estebanez
(Poema de louvor que dedico a amiga
Mary Salvaterra
gentil presença em minha trajetória)
- 23.08.2017 -

sábado, 19 de agosto de 2017

DO PRIMEIRO AMOR


Já adormeci meus últimos sentidos
já acortinei meus velhos aposentos
mas não esqueço os dias exauridos
à véspera de meus encantamentos.

E até hoje caminho entre quimeras
nas cinzas das extintas primaveras
exumadas do pó dos pensamentos.

Meu calendário removeu setembro
de seu tempo infinito de esplendor
e dos amores só de um me lembro:
o que me deu a aurora de uma flor.

Vou violar meu portal de desalento
furtar de mim a flor daquele tempo
e devolvê-la ao meu primeiro amor.

Afonso Estebanez
(Peça lírica que dedico a minha irmã
Catarina Maria E. Stael
doce companhia mineira de minha
infância distraída– 19.08.2017)

domingo, 13 de agosto de 2017

TEMPOS MÁGICOS


Quão foram mágicos aqueles dias
em que do céu me vinhas abraçar
como deusa das minhas fantasias
onde tamanho amor vinha sonhar.

Com teu olhar de estrelas luzidias
vias minha alma para além do mar
num poente de aquarelas fugidias
que eu via do convés do teu olhar.

Não te lembrar seria um sacrilégio
da alma cativa de algum sortilégio
que só o amor consegue desfazer.

Agora quando já passado o tempo
ainda há sonho de contentamento
que me jubila de não te esquecer.


Afonso Estebanez
(Homenagem carinhosa a amiga
Maria de Lourdes Carvalho
que cativou minha admiração pelo
valor dedicado à minha poemática)

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

AMOR DESABITADO


Preciso dissipar tantas lembranças
de castelos de amor não habitados
e povoar de nascentes esperanças
meu coração de sonhos saturados.

Urge que meus amores inventados
pareçam-me fugazes semelhanças
com estátuas de seres encantados
pela crença inocente das crianças.

Exumem de minh’alma a sensação
dos vendavais de amor no coração
desde quando viver não tinha estio.

É preciso que eu finde do meu jeito
sem flores de pesar dentro do peito
que Deus não deixa perecer vazio!

Afonso Estebanez
(09.08.2017 – 1º da convalescença)

segunda-feira, 24 de julho de 2017

AO TE LEMBRARES DE MIM...


Quando te lembrares de mim
não necessitarei da memória
trancada no fundo da gaveta
ou das recordações restadas
na pena separada da caneta.

O ressonho dos teus sonhos
não te lembrará quem fomos
quando te lembrares de mim.

E serei tua manhã de manhã
na soleira de meu doce olhar
para fitar na tua luz ausente
o destino de reviver em mim.

E já terei reescrito a história
de tanto amor não resolvido
nas pétalas das rosas secas
que tu deixaste desfolhadas
na saudade do meu jardim...

Afonso Estebanez
(Dedicado a Maria Eduarda Marques Francisco
minha 500ª amiga adicionada em Dez.13.2008) 

quinta-feira, 29 de junho de 2017

SOBREVIVENTE DOS TEMPOS DE FELICIDADE


Porque o amor é misericordioso é que ainda sou um sobrevivente dos tempos de felicidade. Um tempo em que o segredo do coração era que nossos corações nos pertenciam, mas ainda não sabíamos. Um tempo em que o silêncio de meu pranto me ensinava a escutar os sinos tocarem na catedral do coração amado. Um tempo em que o amor era o salário que Deus me pagava em dobro pelo penoso ofício de sonhar. Um tempo em que o coração falava de sentimentos que somente a alma podia perceber, como a ternura que se deita no espírito da paz tal como a ave que se aninha nos ramos da brisa. Meu coração andava onde andava o coração amado, de tal sorte que, pulsando juntos, nossos corações entoavam uma canção de amor inesquecível. Então eu sou um sobrevivente dos tempos de felicidade...
Afonso Estebanez
MALMEQUERES, BEM-ME-QUER?
(haikais)





Virtudes humanas
são como os frutos mais altos...
Colhem-se a pedradas.

E para que as flores,
se me feres com espinhos
quando te dou rosas?

Barcos... Ah, os barcos!
Açoitam com suas quilhas
as ondas que os beijam!

Visitei o amigo
para celebrar a paz.
E perdi a minha...

Refúgio de lágrimas,
meu velho salgueiro ensina-me
a chorar sozinho...

 Afonso Estebanez  

domingo, 18 de junho de 2017

DESCAMINHOS


Eu sabia que há cem caminhos nesta vida
que entre todos só um chega à felicidade.
E eu escolhi só um, mas n‘alma apetecida
há dos noventa e nove inúmera saudade.

Saudade das paixões de minha mocidade
de uma canção secreta que ficou perdida
dos cândidos amores ledos sem maldade
saudade de uma aflita escolha preterida.

Já sabia também haver dos descaminhos
triste saudade empática dos passarinhos
que o ninho deixam sob cânticos de paz.

Por saudade eu sabia até do que não sei,
como uma valsa triste que jamais dancei
mas dançaria se vivesse um pouco mais.

Afonso Estebanez
(Baseado in “Encontro Marcado”
de Fernando Sabino -18.06.2017 - 20:30)

quinta-feira, 15 de junho de 2017


PROPOSTA SEM RESPOSTA

Na mão do lado esquerdo que te abraça
meu coração se apressa em vã proposta
mas o teu ponto cego em vão me enlaça 
e me apraz de esperanças sem resposta.

E eu só propunha ao teu amor por graça
servir o afeto que em meu peito encosta
tal qual saudade enferma que não passa
até que eu volte em prantos à tua porta.

Mas tanta ausência ao fim mais desatina
minha aparência inquieta que me inclina
a me embrenhar em teu prazer sem véu.

Pois se ao mundo não nos for dado amar 
vibraremos do amor que há além do mar 
ou no oceano de estrelas que há no céu!

Afonso Estebanez
(15.06.2017)