sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

CRÔNICA POÉTICA
DOS HERDEIROS DE GARVAIA
(Modo 7)


O gajo escreveu na guerra
o que homem nenhum logrou
escrever durante a paz...
Perdeu um olho na terra
porque enxergava demais.

? E si subesse da margarina
da carolina
da gasolina
da cocaína
da marijuana
da coca-cola
do macunaíma
da malunacama...

? E si subesse da veiby, a sol
veiby
veiby...

? E si subesse di sum paulo
? E si subesse da capei, a lua...
? E si tumasse um sorvete
? E si tumasse um pileque
daquela canção do roberto...
? E si subesse inglês
da américa do sul...
? E si subesse brasileirim
a praga tupiniquim...

? E si subesse da urticária do ortega...
? E dum andu-sarará da bolívia...
? E du pique-nique no pico de itabira
(na época havia pico de Itabira)
? E si subesse de mim...

upa-lelê
upa-lalá
believe or not, pá!...

Afonso Estebanez 
CRÔNICA POÉTICA
DOS HERDEIROS DE GARVAIA
(Modo 8)



Mas o provedor da Cochinchina
não tinha lá essa maturidade
aristocrítica
para saber se todo esse manancial
consumolingüístico
que faz da carta de Caminha
o melhor achabundismo nativista
já cultivado na terra do em-que-se-plantando-nela-
tudo-dá!...
– Até políticos bananas e alices...

A medo vivo, a medo escrevo, a medo falo,
a medo digo. Hei medo do que falo só comigo.
Mas inda a medo ciodo, a medo calo...


Afonso Estebanez 
CRÔNICA POÉTICA
DOS HERDEIROS DE GARVAIA
(Modo 9)



A boca não é cárcere da língua
nem os dentes muralha da palavra...
Oh, cantai! Mas não canteis apenas uma época,
que o tempo é a estalagem do futuro dissidente
onde tereis somente descoberto o caminho para a América.

Fui cúmplice de Laura nos triunfos de Petrarca,
de Tétis conheci o que de Eneida o Virgílio ignorava.
Eu amava Beatriz no leito de todas as mulheres
que a Dante contemplá-las era só o que bastava...

Mais louco do que Tasso tolerante como Gôngora divino como Herrera.
Mais sincero que Miranda mais puro que Anchieta e belo como Marini.
Mais humilde que Montaigne e sábio como Zurara
mais austero que Ferrera.
Corajoso como Bellay, paciente como Shakespeare e fiel como Guarini.

Se vos parece muito e preferis ser apenas um Restelo,
ao menos o estudo com o vosso desterro cumulado
deveis deixar em paz ao modernismo bem-te-vi
que o inexorável romantismo inda não é chegado...


Afonso Estebanez 
CRÔNICA POÉTICA
DOS HERDE IROS DE GARVAIA
(Modo 10)



Perguntai a Glauceste, a Daliana,
a Critilo, a Minésio, a Doroteu,
perguntai ao Gonzaga, a Juliana,
perguntai a Marília de Dirceu...

Sabei dos conjurados matastásios,
das nisas pastoris e alcimodontes,
se os ventos que bafejam estes vales
não bafejam primeiro o trás-os-montes?

Sim, que para lisonja do cuidado
testemunhas serão de meu gemido
este monte, aquele vale, aquele prado...

O negro a galope
atrás o chicote
seu grito de morte...
Meninos, eu vi!...

Eu vi o menino correndo...
Vi muitos e muitos galopes.
Vi o rei dar um golpe no tempo
e um trote no Solano Lopes...

Afonso Estebanez 

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

CRÔNICA POÉTICA
DOS HERDE IROS DE GARVAIA
(Modo 11)



Meninos, eu vi!...
Meninos, eu li!...

Eu vi a Breve Crônica
de Como Dom Paio Correia tomou este Reino de Algarve aos Mouros
sem que os Errantes Encavalgados da Cruzada Santa tombassem
de tão exaustos ou de Mau Súbito Ante a Visão do Cavaleiro Túndalo.

Eu li o “Poema Americano Dedicado à Magestade
do Muito Alto e Muito Poderoso Príncipe e Senhor Dom Pedro II,
Venerável Grã-Imperador Constitucional 
e Defensor Perpétuo do Brasil”...

? Meninos, e quem não leu...
? Meninos, e quem não viu... 
Subir tanto que desceu...
Oh, meninos do Brasil!...

Afonso Estebanez 
CRÔNICA POÉTICA
DOS HERDEIROS DE GARVAIA
(Modo 12)




Meninos, eu vi!...

O rio caudaloso onde todos vêm beber:
o quilombo e a nobreza apeada do poder...
da ermida a esguia sombra e a noite na mortalha...
o abutre da casa-grande e o cordeiro da senzala...
o falcão da catedral e a andorinha campesina...
a pomba do espírito santo e a ave de rapina...
a serpente rastejante e o condor – fênix do céu...
o descontente do rei e os contentes do bordel...
o escravocrata lapidado a golpes de melodrama...
o burguês bayroniano literomaníaco de spleen...
o cangambá morossoca tedesco-sorobacana...
o corvo republicano do golpe de Aberdeen...

O dia da lembrança de morrer...
Deixar a vida como deixa o tédio
do deserto o poente caminheiro...
A pálpebra demente
o delirium tremens
o longo pesadelo
a face macilenta
esse infinito anelo
o desespero pálido
o anêmico azevedo
o lati-sem-fúndio
a placidez do lago
a solidão do ermo
o tremedal profundo...

Afonso Estebanez 
O TREM


O trem é como um túnel de emergência
por onde escapam os salvados
de um terremoto.
Ninguém transporta nada além
da própria condição de sobrevivente.

Não é a máquina
que torna a viagem possível.
É essa concordância tácita
com repartir misérias e grandezas
em alta velocidade.
É como se todos duvidassem
da multiplicação dos pães , no entanto,
aguardassem a hora do milagre...

Cada um é vítima e carrasco,
autor e cúmplice da história comum.
Pernas se misturam, se desgarram,
se cruzam e se repartem
num ritual de corpos coletivos
que se movem solidários.

Todos se reconhecem pela angústia
que não está na face eletromecânica.
Mas na roupa, no embrulho, na marmita,
Na mala, na mochila, no sapato vagabundo...
O mendigo percorre o tempo sobre rodas
com um saco de estopa sobre os ombros
como princípio e fim de cada um.


A noiva comprime as coxas e se curva
sobre o assento de ferro cromado
para ocultar a virgindade psicológica

ou a esperança que possivelmente
seja rara entre as princesas da Inglaterra.

Um grupo de soldados e conscritos
espreme o corpo de uma prostituta
que os alimenta de calo e leite.
A paisagem noturna engole a máquina
como a um rio o mar aberto.

Adolescentes operárias riem
de suas relações concubinárias
com o salário-mínimo obsceno.
O menino desembrulha um pedaço de pão
e janta solitário...

A máquina metálica se torce
e se contorce como besta amordaçada.
Serpente que engoliu uma república
regida pelo desgoverno.
Embarca-se. Não se pergunta nada.
Não se olha para os lados. Pensa-se baixo
para não acordar a máquina
de seu programa de viagem.
Não se pode baldear em movimento.
Ame-a ou deixe-a. Mas não se força a porta.
Não se quebram vidros.
Não se arranham bancos.

Os mais fortes oprimem os mais fracos
como se estendem pernas para o baleiro
cair com a boca amarga sobre balas doces.

Uma estudante atirada no leito da via férrea.
Uma sexagenária, acometida de mal súbito,
morrendo por falta de socorro médico.
Um sujeito toma o jornal do jornaleiro
lê todas todas as manchetes e o devolve.
Um pivete retalhando a bolsa de uma jovem.
Um pingente colhido pelo poste...

O trem è o intestino da metrópole:
operários, soldados, meretrizes,
palhaços, estudantes, vendedores,
loucos, ladrões, crianças, suicidas...
Foram todos engolidos pelas fábricas,
Motores, edifícios, construções...
Marca-passos de ouro dos banqueiros,
despejados aqui como desejos
substâncias de angústias e paixões...

Eventualmente o vômito da morte.
Luzes. Sangue. Letreiros luminosos.
Gemidos. Sirenes. Vermelha escuridão.
Miolos espalhados sobre os trilhos.
Flores carnívoras. Corpos mutilados.
Olhos gritando pela boca calada.

Os caçadores de troféu assistem
à colocação daquilo tudo perfilado
na plataforma,
como num ritual olímpico...

Mandaram desconstruir os troncos
e trocar o maquinista que morreu
e levantar a rede que tombou
e vir nova composição diretamente
do New York Citybank
e haverá protestos e discursos e projetos
e substituirão leis novas por leis velhas
e também leis velhas por leis novas
e vão até condecorar a máquina:
“Made in Bananas...”.

Mas nada disso adiantará,
porque não é a máquina
que faz possível a viagem.
É essa concordância tácita
com repartir misérias e grandezas
em alta velocidade.

O trem prosseguirá curando
a claustrofobia da Zona Sul
a esperança mal amada
o tédio dos aviões
o cansaço da porrada
o atraso da menstruação
a mulher abandonada
a prece não atendida
a comida requentada
o parto mal sucedido
a vida desajustada
a exploração consentida
o assalto à mão armada...
E tudo o mais
E mais nada!

Afonso Estebanez

(in “Canto de Abrição – 1988)

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

AMOR AO VINHO DE ROSAS


Esta noite
tu me permitirás ajardinar teu corpo
nos mais esconsos roseirais de amor 
em bosques sublimados no conforto 
de aviar espinhos sem ferir-te a flor...

Esta noite
procriarei em teus fecundos ninhos
de aves marinhas de plantão no céu...
Ah, rosa ausente dos cruéis espinhos!
Vinho de rosas com sabor de mel...

Esta noite
tomar-te-ei o amor que me suaviza
a alma sem nenhum ressentimento... 
Verei teu corpo com o olhar da brisa
e o tocarei só com as mãos do vento... 

Mas esta noite
quero-te o gozo múltiplo e esvaído
como as últimas lágrimas sem dor...
Só a dor de um calvário consumido
no inexorável instante desse amor!

Afonso Estebanez 
BARCAROLA

Era um reflexo de prata
de dançarina a bailar
na superfície das águas
das águas frias do mar...

Era uma nau desenhada
pelas mãos da preamar
na superfície das águas
das águas frias do mar...

Quanto mais a treva fria
encobria a luz do mar,
era luz feita das águas
impossível de apagar...

E nem a nave de guerra
que foi deixado passar
apagou a luz das águas
refletida sobre o mar...

Era luz, não se apagava
com as ressacas do mar,
já que era luz refletida
não deixava de brilhar...

Eram milhares de flores
de luz nas ondas do mar 
no jardim frio das águas
embriagadas de dançar...

Era a luz de minha vida
que a noite quis apagar...
Então deixei o meu sonho 
espalhado sobre o mar...

Afonso Estebanez
OFTALMOPOEM


O exame de fundo do meu olhar
responde ao resultado positivo
de cascatas de bruma sobre o mar:
cataratas de luz de um paraíso
como flautas de espumas do sorriso
numa canção tão simples de cantar...

Eu tomo teus olhos para enxergar
como cego que enxerga sem motivo
pelo simples prazer de navegar:
no mar imaginário do impossível
ainda que enxergar seja possível
como a última forma de te amar...

Afonso Estebanez
O INFERNO DO CÉU



Em parte somos feitos mais de sonhos
e em parte mais de morte e pesadelos...
Em parte entre conselhos de serpentes
que mentem como a face dos espelhos.

Flores não sangram sob seus espinhos.
Rosas nem sabem quando vão morrer...
Calam-se os ninhos quase indiferentes
se é para sempre quando amanhecer...

Amor é dom que não celebra a morte
é a flauta gêmea das canções da vida
que suaviza como o êxtase das almas
e acalma o coração que ainda agoniza...

Não há inferno onde um grão de amor
viceja em forma de uma flor qualquer...
Ah, luz do arco-íris dos portais do céu!
Oh, véu da flor de quando o amor vier!

Inferno é a dor que queima sem amor.
O amor é fogo que arde sem queimar.
Amor que amarga e dói e permanece.
Chama que a alma aquece sem tocar.

Malgrado tudo existe essa esperança
de que o sonho de luto dos enfermos
seja apenas lembrança desse inferno
que jaz eterno dentro de nós mesmos.

Afonso Estebanez 

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

NÃO DIGAM QUE SÓ FALEI DE FLORES


Nunca me envaideci da estranha ideologia
que me apraz da tortura lúdica sem dores
dos meus amores não desfeitos da magia.
E não venham dizer que só falei de flores!

Naqueles tempos nossa arma era a poesia
que persuadia o algoz a nos dever favores
mercê do vinho envenenado que eu servia
e não venham dizer que só falei de flores!

Não era permitido andar em pensamentos
sob suspeita de quaisquer ressentimentos
e não venham dizer que só falei de flores!

Disse de nós – a prostituta envergonhada
dos poetas proscritos na alma desarmada
e não venham dizer que só falei de flores!


Afonso Estebanez