segunda-feira, 14 de novembro de 2016

SONETO DA INFIDELIDADE


Em nada ao meu amor serei atento,
antes, só por descaso e desencanto
que mesmo seja meu o teu encanto
dele me desencante o pensamento.

Não viverei por ele um só momento
e de tristeza hei de calar meu canto 
e cantar de alegria com meu pranto
o seu prazer ou descontentamento.

Tomara esse feliz de quem não ama
talvez a vida, sonho de quem morre
assim mais cedo um dia me procure

e dele eu fale que sequer foi chama
e não sendo infinito a quem socorre
não me seja infinito ainda que dure.

Afonso Estebanez
(Réplica ao ‘Soneto da Fidelidade’
De Vinicius de Moraes)
SONETO DA IMPERFEIÇÃO

É possível que esse mar
de tanto bater na encosta
pare no âmago da forma
d’alma perfeita da rocha

E é possível que o vento
degrane tanto o rochedo
que esbarre no substrato
do ser de pedra perfeito.

E tanto comigo mesmo 
vou lutar estando preso
libertar meu ser preciso.

O que for remanescente 
(o que dói e se ressente) 
nem sempre é definitivo.

Afonso Estebanez 
SONETO DA ESPERANÇA

Há coisas que não cabem neste mundo.
No mundo há coisas que não pode haver.
Descabe o enigma de meu ser profundo
nas coisas que me invadem sem caber...

Há lágrimas de amor em que me inundo.
Há mágoas que me inundam sem poder.
Cabe em minh’alma grito tão mais fundo
que o pranto de quem chora sem querer...

Não conheço ninguém que tenha amado
sem martírio ou quem sabe transportado
toda a paixão do mundo numa cruz...

Mas se couber no mundo uma criança
pode o mundo caber numa esperança
como o final do túnel numa luz!

Afonso Estebanez
SONETO DA GRATIDÃO


Apesar de minh’alma naufragada
nesse cálice amargo de orfandade
compraza a Deus a via iluminada 
que te guia da sombra à claridade...

Malgrado a desventura consolada
por velados suspiros de saudade,
apraz aos céus saber-te retornada
para ensinar o amor na eternidade...

E entre flores e lágrimas e afetos
está o adeus dos filhos prediletos
que o acaso da vida pôs dispersos...

E me coube, a despeito desse pranto,
a glória de render-te com meu canto
a gratidão que trago nestes versos...

Afonso Estebanez 
SONETO DA ESPERA


O coração tem que esperar, mais nada!
Inda que a espera exaure a vida inteira
até que emprenhe o banho de alvorada
a luz das águas remansosas da ribeira...

O amor tem que esperar essa chegada!
Inda que chegue ao nunca do amanhã,
até que soem os clarins da madrugada
no ouvido íntimo dos sinos da manhã...

Sonhos são deuses surdos, nada mais!
E para deuses não existem horizontes
em que o amor desponte eternamente...

Sonhos de amor são brisas sazonais... 
Às vezes partem por alguns instantes
e às vezes vão embora para sempre...

Afonso Estebanez
SONETO DA CIRCUNSTÂNCIA

Algo que escutas entre o mar e o vento
algo que perdes entre a onda e a areia
um vago instante de algum pensamento
à luz que há entre a chama e a candeia.

Algo entre o aroma, a brisa e o relento 
fios que urdidos entre a aranha e a teia
vibram em mim de um átimo do tempo
a chama desse amor que me incendeia.

Em minh’alma inda incólume à deriva
nem sei o que fazer do que ainda resta
de meus barcos de bruma sobre o mar...

Faças de mim a tua circunstância viva 
e desses restos me celebras uma festa
e o que ainda resta é para eu te sonhar...

Afonso Estebanez
(Dedicado à amiga Elaine Bastos Matos) 
SONETO DA CANÇÃO REPOUSADA

Eu devo acontecer como acontece a noite
em teu corpo de rosas repousado em mim.
Os ventos passarão calados sem pernoite
e a noite transformada em relva no jardim.

A voz da chuva não será nem leve açoite
pois velarei teu sonho como um querubim.
Então te lembrarás de mim: o tempo foi-te
passando e de saudade fui ficando assim...

De olhos abertos para a noite remansosa
entre os vestidos da lembrança vagarosa
que ainda repousa no silêncio da canção... 

Eu devo acontecer como acontece a flor
renascida das cinzas da canção de amor
que guardo nas ribaltas do meu coração...

Afonso Estebanez
SONETO À SOMBRA DE NIETZSCHE



Hoje não quero nada de ninguém!
Nem compaixão, nem flores, nada enfim...
Tudo se esquece ou é ilusão. Porém,
eu sei que Deus vai-se lembrar de mim.

Passa o amor e fica esse desdém
nas sombras fugidias do meu fim...
Ah, pássaros que emigram para além
do amor que é gêmeo, mas não é afim...

Não quero nada. Nada! Nem lembrança
nem presente ou promessa ou esperança
nem vago instante que pareça festa...

Quero apenas que Deus me dê a graça
de brindar em silêncio numa taça
a glória de viver do que me resta!

Afonso Estebanez
SONETO À MODA DO ABERDEEN



Nem do vão tombadilho o manso pegureiro
Nem o expungir do sangue escravo da memória
Nem o calar dos ferros no convés negreiro
Nem o silêncio tetro nos porões da História...

Nem mesmo ao fogo-morto o buzo do terreiro
Nem a oblação de Roma em toda a sua glória
Nem Prometeu remido ao brado condoreiro
Nem a paixão do Gólgota de amor à escória...

Nem as vozes d’América pelo infinito
Nem o condor do céu mandando um novo grito
Nem a dor de Ahasverus fausta de perdão...

Nem que algum dia o próprio Deus ouça e responda...
Não haverá embuço que a vergonha esconda
Depois de cinco séculos de escravidão...

Afonso Estebanez
EXALTAÇÃO

Meu ser entrego ao derradeiro alento
no desenlace de minha alma ungida
pela esperança de num vão momento
galgar a morte na ilusão da vida.

Mas tudo o que me resta é a fé contida
num rasgo de prazer do sofrimento
de rebuscar na treva a luz perdida
no inferno elemental desse tormento.

E em já meu ser demente e sibilino
qual num culto de amor semidivino
minh’alma chora, hesita, mas persiste...

E flui por entre estrelas e alvoradas
num turbilhão de luzes deflagradas
ante a certeza de que Deus existe!

Afonso Estebanez
(Premiado em 1990 no “Concurso Nacional de Sonetos” 
promovido pela Casa do Poeta “Lampião de Gás” – SP.
Comemoração ao centenário da morte de Guilherme de 
Almeida)
O AMOR DA INSÔNIA

Mais uma noite vou dormir com minha insônia
que este é o meu modo de viver num paraíso,
pois que sonhar dormindo é a inútil cerimônia
que me priva de amanhecer com teu sorriso...

Sonhar com pesadelos é perder-te o instante
de andar pelo jardim que no teu corpo existe,
mais doce quando sonhas é o teu semblante
de quem jamais desperta com o sorriso triste.

Então vou acordar como quem nunca dorme,
aguardar que teu beijo então me faça a hora
esperando que o encanto de te amar retorne
e cante como pássaro que acorda a aurora...

Afonso Estebanez
(Poema dedicado à doce 
amiga Ana Maria Wagner)
CHUVA NO MOLHADO

Gosto da chuva no telhado...
As goteiras me fazem pensar
nos pontos finais que deixei
de colocar na minha história.

Gosto da chuva no molhado...
Os canteiros me dão lembrar
dos jardineiros que ficaram
com sementes na memória.

Gosto de causas sem efeito...
De maus sonhos sem motivo
de morrer sem ser preciso
por ter fama sem proveito.

Gosto das coisas como são...
Da vida como um desterro 
da sombra indo ao enterro
da sombra morta no chão...

Afonso Estebanez