sábado, 22 de novembro de 2008

CENTELHA


CENTELHA

Nunca espero desta vida
o que a vida não me deu
minh'alma compadecida
é do amor que renasceu.

Corações a toda a brida
o meu nas beiras do teu
mas tu amavas dividida
sem saber qual era meu.

Montanhas a fé remove
e o amor é que comove
a centelha dessa chama

que me dói e não apaga
e me diz que não acaba
que o amor inda te ama.

Afonso Estebanez

LIVRO DE VIAGEM OU DO DEPOIMENTO


LIVRO DE VIAGEM OU DO DEPOIMENTO

PRIMEIRO
que tudo aceito a tirania da saudade
que levo como prova de amor envergonhado:
minha gente submetida da América deBaixo
é a puta rendida da América deCima.
As gaivotas negras da paz estão pousadas
nas sombras das pedras machucadas pelo tempo
– a decidir caminhos que vão não sei pra onde
gritando liberdade de não sei o quê.

O que humilha mesmo é essa guerra de muletas
onde a vergonha da derrota nos obriga
a colher restos de louro jogados pelo chão.
Acostumamo-nos a estender as nossas mãos estradas
e os nossos braços trilhos às locomotivas
que colidem todo o dia com o nosso coração.

E vamos passando em nós uma cidadezinha antiga
onde o Rei um dia prometeu passar...
– E não passou!

Não sei onde arranjei essa coragem de dizer
que nossas guerras são de auroras
renascentes na paz do sangue verde matutino
da criança que ainda acordará dentro de nós...

SEGUNDO
a prova do tempo
o irmão cosmoascencionário
não tem ódio nem amor...
Apenas curte a cobiça
do enteu bdélio e formal
– o degas imperador.

Morra a flor, mas guerra é guerra.
Nos bate-bocas da paz
make tecnic of love!
Desde que inventou a fome,
das primas virgens não há
uma só que ele não prove.

Fora, faz praças de sangue
para mostrar na cozinha
aos irmãos que é o mais forte...
No momento da partilha,
se quiser levar a vida
que leve também a morte.

Fraternidade promíscua!
Faz pensar que o beijo seja
a arma com que se apossa...
No entrevero da conquista,
desfralde a sua bandeira...
Mas nunca defraude a nossa!

TERCEIRO
mundo ou planeta
ou cortina de montanhas
onde as mãos que não semeiam
tiram flores das entranhas...
Onde o canto se constringe
com mil facas na garganta
que pra viver em que ouve
precisa matar quem canta.

Ninguém sabe a leite ou mel
estrangeiras ilusões
sob a terra prometida
as sementes dos canhões.
Torne ao chão o que é do chão
cada um tem seu processo
e ninguém condene a falta
quando peca por excesso...

Terras, máquinas, nem sempre
põem coroas em quem vence...
Pelo homem haja quem faça,
não haja nunca quem pense.
A semântica da língua
é reserva do senhor...
– Amados, não sejais mudos,
envenenai-vos de amor!

QUARTO
de família. Odor de gasolina na floresta.
Mulheres cheirando a flor de arroz
chapéus-de-palha na cabeça.

Ah, crianças morrem
porque não sabem que há flores
que são napalms.

Os homens voltam dos pântanos
os alvos dentes camuflados
pelo silêncio premonitório da família.

Quando estiverem todos dormindo
o profundo sono da tragédia
os passarinhos inventarão a guerra...

QUINTO
milênio de paz e mistério
nos alvos vultos de voláteis vestes
onde vem leve o vento flautear.

Na pachemina em sândalo na seda
que vão cantando músicas de vidro
purificando os dedos no tear.

Um rebanho se move lentamente
como um rio tangido pelo canto.
Nos braços da mãe um anjo levita...

Ouvem-se passos de velhos amigos
e tece em silêncio toda a família
o pão de amor com que se comunica.

Sáris brilhantes teares incenso...
Aurora policrômica de um deus
que nos fala como antigo parente.

É o segredo da paz que não sentimos
quando nós sem amor lhe desvendamos
o mistério da fome que não sente.

SEXTO
continente sem amor amado
comprado a peso de ouro
no mercado inflacionário dos brancos.

Os guetos são o sexto sentido
da liberdade currada.

Os mercadores da guerra acreditam
que o amor odiado morre com a morte.

Mas o preço do ódio vendido
é ser vermelho o sangue dos negros...
– Livre, há de querer provar o quanto é forte!


CIRANDA cirandinha
vamos todos cirandar
nossa paz saiu de casa
mas um dia vai ficar...
ou foi dar uma voltinha
para nunca mais voltar...

A. Estebanez
(Prêmio “Troféu Casimiro de Abreu” do III Torneio Nacional da Poesia Falada de 1970 – Governo do Estado do Rio de Janeiro – Secretaria de Educação e Cultura – Departamento de Difusão Cultural. O poema foi cassado sob censura do Departamento de Ordem Política e Social (Polícia Federal) para apresentação pública pela Tv Globo durante a repressão do regime militar instalado no país em 1964, sob os veementes protestos de Cassiano Ricardo, então presidente da Comissão Julgadora do concurso, que nem assim conseguiu passar pela mordaça da censura federal)

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

VOZES E ESTRELAS


VOZES E ESTRELAS

Ah, como poeta
eu tenho, Senhora,
perdidos meus olhos
na viagem noturna
de tantas estrelas...
Mas diga, Senhora,
que estrelas são essas
na luz dos teus olhos?
Seriam perguntas?
Irei respondê-las?
Que estrelas são essas,
são essas estrelas
de vagas promessas?
Responda, Senhora,
que estrelas são essas?

Tenho na alma milhões de madrugadas
levo músicas dessas nunca ouvidas e outonais...
Mas só não sei que vozes serão essas
que em tua boca são gotas musicais...

Responda, Senhora,
que vozes são essas
tão meigas na boca?
Reflexos celestes
de ânsias atrozes?
Que vozes são essas,
serão essas vozes
de vagas promessas?
Senhora, responda,
que vozes são essas?

A. Estebanez

SONHO ANDARILHO


SONHO ANDARILHO

O sonho é o andarilho da memória
e minha alma é apenas sua estrada
onde o amor recomeça a trajetória
por atalhos de acesso sem entrada.

Nem sempre há personagem numa história.
Nem sempre uma lembrança é relembrada.
Mas quase nunca o pesadelo é uma aurora
para alguns sonhos dissipados na alvorada.

Ai de mim, tua rota de lembrança...
Ai de ti, meu roteiro de esperança
remida pelo olhar dos passarinhos...

Contorno os rios tortos e consulto o mapa
para chegar, inda que morto, àquela etapa
onde morrer seja melhor em teus carinhos...

A. Estebanez

SUAVE É A ESPERA...


SUAVE É A ESPERA...

Deixa tua alma numa rosa
e um sonho no amanhecer
para ver minha esperança
que hoje espera te rever...

Tu não precisas do tempo
quando o amor acontecer.
O amor te chega na brisa
quando o sonho alvorecer.

Deixa o coração na porta
e um arco-íris no jardim...
A esperança se comporta
como flor dentro de mim.

Que suave é toda espera
para quem quer renascer
num sonho de primavera
que renasce sem morrer...

A. Estebanez

“SPLEENBORED”


“SPLEENBORED”

Chorar por todo o bem que se perdeu
choro por mim que se perdeu de mim
por quem eu fui que nunca aconteceu
o mesmo que sou eu chorando assim.

Chorar por quem até já me esqueceu
chorar por nada, ah! nem é tão ruim!
Chorar só por chorar também sou eu
desde o início dos meios de meu fim.

Então me deixem bêbado de espanto
desse mar na ressaca de meu pranto
que essa paixão é amor em desatino.

Ô, me deixem chorar por minha rosa
e pensar que o orvalho é a lacrimosa
semente de esplendor de seu destino...

A. Estebanez

SONETO DE SAUDADE


SONETO DE SAUDADE

Em minh’alma chove tanto
que não há como esconder
entre os olhos tanto pranto
que meu pranto faz chover...

Por encanto ou desencanto
em minh’alma é anoitecer
com saudade do teu canto
no encanto do amanhecer...

Num jardim sem claridade
mora em mim tua saudade
com o meu modo de viver...

E a saudade não consegue
esquecer que me persegue
para eu nunca te esquecer...

A. Estebanez

ALEGRETO


ALEGRETO

não é festa
ou romaria
ou sombra
virando luz
na fogueira
do clarão...

é a noite
chegando
cedo para
o baile de
verão...

A. Estebanez

O ASTRONAUTA


O ASTRONAUTA

10...9...8...7...6...5...4...3...2...1...0...
Sobre o veludo negro do infinito
em argilácea pedra de brilhante
a Terra dos Homens era azul...
Eu quis comunicar-me com o mundo
por que a grande resposta estava nele
(meu corpo poluía o firmamento
e quebrava a harmonia do Cosmo)
por que não tinha sentido conquistar
além-de-nós a flor que prova a vida.

Mas os Homens só escutam o que querem
e a vasta câmara cósmica do vácuo
repelia meu corpo estranho e sestro
de impuras ambições desintegradas.
E o estado-puro do espaço-nada
coibia-me o plano da conquista,
sendo o infinito é a total ausência
da noção que nos faz deuses,
sendo escravos.

Eu não devia nunca ter partido
com grave densidade de memória
sobre guerras miséria e desamor.
Eu devia fingir não-ser humano
para enganar a Deus que o amor habita,
mesmo na argila que se via ao longe
no conjunto harmônico do Universo:
origem da vida azul envolta
em nebulosa branca de paz
(ou num crepúsculo de sangue).

Queria dar a grande resposta,
mas sempre há torres mudando a trajetória.
A guerra é campo de gravidade
do planeta Morte
onde se cumpre em noites e sombras
o claro sol das manhãs
e ventres geram centauros
e mercenários defecam ouro
no nome monstro de Deus.

Mas era impossível.
(No espaço a Terra girava
a fome numa redoma
e o coração se esquecia
de que era festa em meus olhos).
O contato estava interrompido.

E enfim cheguei à vida e ao pericíntio.
Pisei cascalhos penetrei cavernas
transpus em vão agudas cordilheiras
e tudo eram silêncio amargo e nada
como um sapato vazio na janela do Natal.
Enclausurada nessa ausência cósmica
das indevidas invasões armadas
fui cidadela super-habitada
por invisíveis monstros abissais...

Estava aí que a Liberdade
é poder escutar uma canção...

E o mundo mudo-de-amor já falava
em “flor espacial” que tudo prova (!).
Por isso caminhei sobre as feridas
de um campo estéril de só flores mortas.
Vi purulentas chagas de crateras
segregando poeira e me prostrei
sobre as cinzas dos “Ai de vós Jerusaléns!”

Mas eu queria a flor que alucinava
esses sarcófagos humanos,
a rosa filha do fogo e da água
a prova científica do amor
resposta para a fome dos irmãos.

Não era flor o que eu queria
– era o Universo.
E essa rosa só existia
na argila azul do infinito.

Reverti os motores e a vida
no corredor de entrada dos dias
e assim que amerissei no azul regaço
da prostituta que chamam de Esperança,
a humanidade toda estava dentro dela
e seu olhar morria como a luz desiste
de brilhar no céu da guerra contra a flor
que além da Terra não existe.

Em suma, eu vos devolvo o mapa simples
do amor que se debruça em sua espera.
Dou-vos ferida a carne para o corte
e a fronte ao golpe da sabedoria.
Necessária a inocência dos cordeiros
pelos caminhos da resposta exata.
Somente com os pés sobre o seu chão
e quando a argila não cheirar à guerra
e a flor voltar a ser apenas flor
é que seremos DEUSES sobre a Terra.

Afonso Estebanez
(Prêmio “Troféu Casimiro de Abreu” do II Torneio Nacional da Poesia Falada –1969 – Governo do Estado do Rio de Janeiro – Secretaria de Educação e Cultura – Departamento de Difusão Cultural)

A ALMA SONHA SOZINHA


A ALMA SONHA SOZINHA

Anda a minh’alma sonhando
tão sozinha e acompanhada,
que às vezes vivo pensando
que a alma sonha acordada.

Mas sonhar é um fio d’água
que sozinho entrega ao mar
muitos afluentes de mágoa
que se escoam sem passar.

Sejam simples como a flor
que sonha sonhos calados
dos que perecem do amor
dos sonhos não realizados.

Somos a curva da estrada
dos sonhos que vão além:
sonhar sozinha sem nada
é tudo o que a alma tem...

Afonso Estebanez

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

CANTO DE ABRIÇÃO (Folclórico de Folia Reis)


CANTO DE ABRIÇÃO
(Folclórico de Folia Reis)

Tempo haverá em que
o canto ficará
completamente mudo.

A lágrima será como semente
da palavra salgada
que os olhos plantarão
entre os lábios...

Meu senhor dono da casa
escuta prest’atenção
vem abrir as vossas portas
pra esse nobre folião...

Devastarão casa por casa
cada palmo de chão será salgado
arrancarão todas as portas
e janelas dos sentidos
como o corpo num ritual
de sucessivos fluxos menstruais.

Sempre a história se repete
como a fábula inventada
por um rei que tem de tudo
e um povo que não tem nada...

Mas eu atirarei minha canção
no telhado da minha casa
e a chuva arrastará meus versos
pelas calhas esgotos e canais
e os desaguará em mar aberto
como barcos que despertam
na restinga da manhã...

As noites se perderão
para sempre de seus dias
mãos cheias virar-se-ão
sobre o chão das mãos vazias.

Transmitirei meu canto
boca a boca
como flor que germina
pelo olhar.

Espalharei meus barcos no vento
e minhas asas no mar...

No banquete solidário
da miséria consentida
só não morre quem não come
porque a fome é dividida...

Cada grito renascerá
no som do apito de fábrica
cada pranto reprimido
será chuva derramada.

Meu pai se chama João Caco
minha mãe Caca Maria
juntando Caco com Caca
sou filho da cacaria...

De verde as folhas lavadas
nos arbustos das colinas
aos pingos encharcarão
as ramagens de resina...


A sobra que cai de cima
não se bebe nem se come...
Como água não mata a sede
como pão não mata a fome...

Nossa voz terá o calor da luz
no interior de uma choupana
na floresta.
A chuva correrá por claros vales
como fios de lã levados pelo vento.
Os pássaros imigrarão de seus mistérios
e as flores da manhã se regozijarão
como sinos diáfanos de luz
que não se ouvem senão com o coração...

Não quero toda a farinha
somente um pouco do pão
com que vossa mãe Maria
esposou meu pai João...

Os pés dos pequeninos pisarão lá fora
não como as botas que hoje pisam
a relva da esperança
fecundada pelo orvalho...
Eles terão o seu caminho certo
como as reses os sulcos dos campos.

Quem sobreviver verá
em passos desencontrados
o diabo passar no rastro
sob as cinzas dos reisados...

Todos entoaremos
uma canção que não se ouvia mais.
Os olhos verão coisas inacreditáveis...

E os homens se tornarão
mais unidos por amor
como irmãos num só rebanho
pela voz de um só Pastor!

Nosso ódio não tem mais ira.
Andamos de pés trocados
festejando os desmomentos
dos remates acabados...

Meu senhor dono da casa
escuta prest’atenção...
Vem abrir vossa loucura
pro meu canto sem razão.

A. Estebanez

terça-feira, 18 de novembro de 2008

ZUMGROPOEM


ZUMGROPOEM

Aqueles dias foram dos abdias
foram os dies irae dos zumbis.
Eu vi... os gnomos elementais
e ouvi a fala suaili... Eu ouvi!
Eu revi os cabelos prateados
a lua branca sobre os altares
dos lombos negros açoitados
e vi a escuridão de Palmares.

Um quilombo de denúncias...
Os atanásios das montanhas
encachoeiradas de além dali
o desafio do dente-de-sabre
do Kilimandjaro! Ah, gente!
Eu vi! a face do tigre nobre
e um príncipe das tanzânias
a Amazônia da renascença
Nagôiorubrasileiro... Eu vi!...

Eu vi Deus saudar o Afoxé
sagrados badauês aiyêsd
Deus dizia “ – Meu Oxalá!”.
Deus dizia “ – Salve!, Axê!”
O bem maior é a liberdade
– essa é a única ideologia
faz o homem ser solidário
diferente Deus não faria!...

Afonso Estebanez